A Federação das Empresas de Logística e Transporte de Cargas no Rio Grande do Sul (Fetransul) questiona o projeto de concessão da Rota Portuária do Sul apresentado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) em três audiências públicas realizadas neste mês, em Brasília, Porto Alegre e Pelotas. A entidade aponta ao menos dois problemas, considerados centrais, a exclusão do trecho entre os municípios de Eldorado do Sul e Camaquã, na BR 116, que rompe o nexo logístico entre Porto Alegre e o Porto de Rio Grande; e a adoção de um multiplicador tarifário de 1,5 para veículos de carga, o que representa pedágios 50% superiores ao padrão nacional, atualmente fixado em 1,0.
O posicionamento foi consolidado após a participação do setor nas audiências públicas. Representada pela Fetransul e pelo Sindicato das Empresas de Transporte de Carga do Extremo Sul (Setcesul), a cadeia do transporte acompanhou a apresentação do projeto que abrange cerca de 460 quilômetros das BR's 116 e 392, estruturando o corredor logístico entre Pelotas, Rio Grande e Canguçu.
A principal preocupação do setor recai sobre a fragmentação da concessão. Ao não incluir o trecho entre Eldorado do Sul e Camaquã, o modelo cria uma lacuna operacional em um dos principais eixos de escoamento do Estado. Na avaliação da entidade, essa ausência tende a gerar uma nova concessão futura, com tarifas ainda indefinidas, ampliando a insegurança regulatória e o custo logístico.
A política tarifária proposta também foi criticada pela entidade. O diretor de Infraestrutura da Fetransul, Paulo Ziegler, afirma que a sobretaxa aplicada ao transporte não foi apresentada de forma transparente nos estudos iniciais. "Ficou a impressão de que o Ministério dos Transportes divulgou tarifas módicas para os automóveis, sem mencionar o agravo imposto ao transporte, cujo efeito é repassado ao preço das mercadorias", observa.
Além das questões estruturais, o setor também manifesta preocupação com a inclusão, no novo contrato, de obras anteriormente previstas com recursos públicos, como trechos da duplicação da BR 116 e a nova ponte internacional de Jaguarão. Para os transportadores, essa estratégia transfere custos ao usuário sem garantir ganhos proporcionais em eficiência logística.
O debate mobilizou lideranças políticas e representantes municipais da zona Sul, que também criticaram a instalação de pórticos eletrônicos em áreas urbanas e defenderam a ampliação do diálogo com a sociedade. A sugestão é de que outras cidades também sejam sede de audiências públicas, para ampliar o debate. A ANTT informou que as contribuições serão encaminhadas ao Ministério dos Transportes.
Diante do cenário, a Fetransul articula, junto a entidades regionais e parlamentares, uma frente para solicitar a revisão do projeto. O vice-presidente da entidade, Rudimar Puccinely, sustenta que o modelo precisa ser reequilibrado. "É inaceitável o aumento de 50% proposto pelo modelo tarifário; novamente o transporte de cargas está sendo penalizado", conclui.