Te convido a uma caminhada pelas ruas da Porto Alegre de um século atrás. Andamos por uma região industrial, operária e multiétnica da capital gaúcha. Na avenida Voluntários da Pátria, se concentram as fábricas: o imponente Moinho Rio-Grandense, a Fiação e Tecidos Porto Alegre (Fiateci), a Irmãos Jamardo, entre outras. A industrialização está a todo vapor na cidade e a demanda por mão de obra atrai imigrantes de várias partes da Europa.
Estamos no bairro São Geraldo, mas esse nome ainda não existe. A avenida Farrapos é só uma ideia, que virá a substituir a modesta rua Minas Gerais. O Cais Navegantes não recebeu aterro. Da Voluntários da Pátria para lá, já é o Guaíba.
Dobramos em direção ao bairro e estamos cercados de pequenas casas de porta e janela. Nelas residem famílias operárias, as pessoas que fazem funcionar aquelas fábricas que vimos há pouco. Na Rua do Parque, além das casinhas, se concentram associações e entidades operárias. Podemos ver os trilhos das linhas de bonde.
Sem roteiro, nos perdemos por algumas ruas e passamos por um clube polonês, criado em 1896, por um clube multiétnico fundado por italianos de Veneza, por sindicatos, uma associação de operários bielorrussos e entidades ligadas aos imigrantes alemães.
Além dos clubes, a presença de cada comunidade é marcada por uma igreja, associada a uma escola.
Anoitece e chegamos a uma ampla via iluminada. É a avenida Eduardo - que, no futuro, se chamará Presidente Roosevelt. Mais adiante, temos a São Pedro. Se antes passamos pelas fábricas, pelos operários e suas organizações, agora chegamos onde, após o expediente, todo esse pessoal se diverte e gasta o seu dinheiro. Ali estão os comércios, cinemas e clubes sociais: o lazer e a vida noturna do bairro. Assim era a paisagem do bairro há cem anos.
O São Geraldo integra o Quarto Distrito de Porto Alegre. A região tem sua história fortemente marcada pela chegada de imigrantes europeus, pela industrialização e, posteriormente, pela desindustrialização e um consequente processo de decadência.
O bairro leva o nome de uma antiga igreja, construída em 1925, na avenida São Pedro, e que não é a atual paróquia São Geraldo, erguida rapidamente entre 1940 e 1941, apesar da grande enchente. Antes, a região era chamada principalmente de Navegantes-São João ou mesmo de arraial do São Pedro. É o que nos conta o historiador Frederico Bartz, técnico em assuntos educacionais da Faculdade de Arquitetura da Ufrgs.
Ainda que a ocupação da área seja antiga, o nome de São Geraldo veio somente na década de 1950. Em 1949, os moradores encaminharam à Câmara de Vereadores um memorial que deu início à oficialização e delimitação do bairro. O processo se consolidou dez anos depois, com a lei municipal que criou o São Geraldo, com um traçado semelhante ao atual.
Pelas antigas ruas do São Geraldo
Um Caminho Novo para uma nova cidade
Voltemos um pouco mais no tempo. Em 1806, o então governador Paulo José da Silva Gama autorizou a abertura de uma rua, a partir do centro. A via, que foi aberta cinco anos depois, levou o nome de Caminho Novo, atual avenida Voluntários da Pátria.
Em 1895, quando a Companhia Territorial Porto-alegrense loteou a área e abriu diversas vias, muitas ainda existentes, como as avenidas Amazonas, Bahia, Brasil, Pará, Paraná, Pernambuco e Maranhão. A criação da linha de bonde São João, pela Companhia Carris de Ferro Porto-Alegrense, também contribuiu para o povoamento. É nesta época que começam a surgir as fábricas, primeiro na região do Floresta, posteriormente se espalhando ao Norte, pelos atuais São Geraldo e Navegantes.
Rua do Parque, centro da vida operária
“Para além das fábricas, é importante marcar que aquela região teve uma vida associativa muito rica”, destaca Bartz. “Se a gente pega um recorte do que hoje é o São Geraldo e volta para os anos 1920, ali estavam a Federação Operária; o famoso Salão Hoffmann, onde sindicatos, clubes e grupos étnicos se reuniam; na área onde hoje é a Farrapos, teria a Sociedade dos Alemães Socialistas, uma entidade anarquista; e tinha o Clube Gondoleiros, que tinha maior protagonismo dos italianos, mas que era multiétnico. Ali tu encontra alemão, espanhol, sírio, libanês. Na rua Bahia, tinha a União Luz Operária Russo-Branco/Ucraniana, que era uma sociedade que tinha ligação com a União Soviética e que foi fechada pela Lei de Segurança Nacional, do Getúlio Vargas, em 1935.”
Ainda que a ocupação tenha iniciado com o loteamento das antigas chácaras e fazendas no fim do século XIX, Bartz ressalta que a região engrenou mesmo a partir da década de 1910, com o impacto da industrialização. O historiador define a Rua do Parque, uma das mais antigas de Porto Alegre, como o centro da vida operária da cidade.
“São Geraldo é a região Sul do Quarto Distrito. É a região mais habitada, porque está mais próxima ao Centro e porque é servida por linhas de bondes, logo se torna mais interessante para se estabelecer projetos de habitação popular. E tem uma intensa vida associativa, com muita presença operária. É o bairro de clubes, sindicatos, igrejas e escolas.”
Moinho Rio-Grandense e Fiateci, as grandes fábricas
A Fiateci foi a principal unidade fabril do bairro. Fundada em 1891 por Manoel Py - empresário, político, banqueiro e coronel da Guarda Nacional - a fábrica ocupava área equivalente a três quarteirões inteiros, se estendendo da avenida Voluntários da Pátria até a rua Santos Dumont.
Desde 2010, a Fiateci opera em Canoas. Nos últimos anos, foram construídas duas torres residenciais e uma comercial no terreno que era ocupado pela fábrica. O empreendimento Rossi Fiateci preserva, além do nome, parte das antigas estruturas de produção, onde era prevista a construção de um Memorial do Tecido.
O Moinho Rio-Grandense foi construído em 1916 na esquina da Voluntários da Pátria com a Moura Azevedo. A edificação ainda existe e é considerada uma das primeiras e mais importantes da arquitetura fabril moderna em Porto Alegre.
Na avenida São Pedro, ficava a fábrica de móveis da Jamardo Irmãos, empresa criada no início dos anos 1900, pela família Jamardo, originária da Galícia. Ali foi construída boa parte da mobília do Palácio Piratini.
Desindustrialização e decadência
O historiador Frederico Bartz marca a década de 1940 como o começo da decadência da antiga região industrial da cidade, tendo nos anos 1960 um agravamento desse processo. Alguns fatores ajudam a entender essa mudança de perfil da área.
A enchente de 1941 e o temor de novas cheias torna a região menos atrativa à instalação de fábricas, que migram mais ao Norte. A Wallig muda sua planta para o bairro Cristo Redentor; a metalúrgica Zivi-Hércules vai do Floresta para o Passo D’Areia; a Renner constrói suas novas unidades na Vila Ipiranga.
“Começa a ter a migração das plantas e o potencial de crescimento industrial muda para aquela região. Além disso, o primeiro Plano Diretor de Porto Alegre, em 1959, torna mais difícil instalar fábricas em zonas urbanas”, afirma.
Outro trauma da década de 1940 citado por Bartz é a segunda guerra mundial. “Houve uma perseguição muito grande aos migrantes, com prisões, fechamento das escolas das sociedades italiana e polonesa. Então, tem um desmantelamento da sociabilidade daquela região, que se dava principalmente a partir dos grupos imigrantes.”
Há também um importante fator econômico, relacionado à mudança dos modais de transportes. Se a proximidade dos trapiches do Guaíba e das linhas férreas, em dado momento, deu àquela região o potencial industrial, a preferência pelo transporte rodoviário, com a construção da Freeway e outras rodovias, mudou esse cenário completamente. Passou a ser mais atrativo construir as fábricas na região metropolitana, próximas às estradas.
Assim, a região fabril perdeu suas indústrias, boa parte de seus moradores, e sua vida comunitária.
Mas quem fizer o trajeto do começo deste texto em 2026 ainda pode encontrar algumas das construções históricas do São Geraldo, ainda que parte delas tenha sido modificada.
A Sociedade Polônia – criada a partir da junção dos clubes Zgoda e Águia Branca - segue ativa e celebra 130 anos no próximo dia 14 de novembro. As antigas sedes dos Gondoleiros, na esquina da rua Moura Azevedo com a avenida Presidente Roosevelt, e do Clube Vasco da Gama, no fim da Rua do Parque, próximo da Voluntários, ainda estão lá. O prédio que abrigava a União Luz Operária Russo-Branco/Ucraniana, na esquina da São Pedro com a Bahia, é hoje uma loja de lâmpadas e material elétrico.
O bairro São Geraldo hoje
A área do bairro vai da avenida Benjamin Constant até a beira do Guaíba. É limitada, ao Norte, pela avenida Brasil; e, ao Sul, por uma linha tortuosa e recortada que compreende trechos das ruas Olinda, Almirante Tamandaré, Conde de Porto Alegre, Do Parque, Voluntários da Pátria e Consolação.
A população do bairro São Geraldo é de 6.948 habitantes, de acordo com o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Há 4.402 domicílios no bairro, sendo 431 casas e 2.866 apartamentos. A média é de 2,1 pessoas por domicílio.
O São Geraldo faz limite com outros três bairros, todos partes integrantes do Quatro Distrito da capital: Floresta, ao Sul; Navegantes, ao Norte; e São João, a Leste.
O Redescobrir a Cidade está contando a história dos bairros de Porto Alegre e a origem de seus nomes. Além da história do Ipanema, você também pode ler:
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