A entrada na universidade representa fase de celebração na vida de diversos estudantes do país. Porém, por muitos anos, o início dessa jornada também foi sinônimo de recepção marcada por práticas violentas e humilhantes, manchando um momento de euforia com sentimentos de ansiedade e estresse. Hoje, junto a legislações e normas universitárias que protegem os alunos, Instituições de Ensino Superior (IES), públicas e privadas, apostam em programações que aliam solidariedade e cultura à chegada dos calouros.
Nova Calourada
Atualmente, a Universidade Federal do RS (Ufrgs) combina medidas do Conselho Universitário (Consun) a boas-vindas da própria instituição e de seus diretórios acadêmicos. Através do evento “Calouradas”, a comunidade se reúne para receber os novatos para guiar e orientar sobre o ingresso na graduação.
A vice-pró-reitora de Graduação da Ufrgs, Irma Bueno, explica que a Universidade enxerga o trote justamente como um período de recepção entre veteranos e futuros colegas. “O trote é para recepcionar, para se apresentar, entre alunos que já estão no curso e os que estão começando. Não é para ser violento, afinal, entrar numa universidade é um sonho de tanta gente, ainda mais na universidade federal. Então, os trotes devem ser mesmo ação de boas-vindas”.
Transformar essa acolhida em momento receptivo, no entanto, é resultado de um processo de mais de dez anos de ressignificação. Em 2016, o Consun decidiu proibir, nas atividades de trote, práticas com violência física, sexual ou psicológica, bem como qualquer ato que desrespeitasse a vida e a dignidade humana.
Além disso, ficou estabelecido que essas ações seriam passíveis de processo disciplinar, mesmo que praticadas fora das dependências da faculdade. Irma acrescenta que, “se vier a acontecer, ainda que fora da universidade, quem foi vítima de trote violento, seja físico, verbal ou psicológico, pode denunciar; e a Universidade vai tomar as devidas providências”. Também esclarece que a denúncia pode ser feita de forma anônima.
Com todas essas providências, alunos e instituição trabalham para que o evento de chegada acadêmica seja um espaço informativo e celebratório destinado àqueles que alcançaram o sonho de entrar na universidade. “O Calouradas também é para a universidade dizer que estamos muito felizes que vocês estão aqui”, destaca a dirigente.
Para o início deste 2° semestre de 2026, a programação do “Calouradas” estreia no dia 5/8, com recepção promovida pela Administração Central nos pátios dos campi. As atividades seguirão até 31/8, e incluem sessões na cúpula do Planetário, exposições no centro cultural, aula-show e ações específicas de cada curso de graduação. Saiba mais neste link.
Cultura na Acolhida
Assim como a Ufrgs, a Universidade Feevale, com sede em Novo Hamburgo, também movimenta a chegada dos novos alunos com agenda especial. Conforme a pró-reitora de Ensino, Maria Cristina Bohnenberger, a instituição “sempre teve foco no respeito e na valorização do ser humano, com cuidado muito grande na programação e na integridade dos indivíduos”. E acrescenta que, nos últimos anos, a Universidade tem trabalhado fortemente com trotes culturais e artísticos, além de proibir iniciativas que resultem em desperdício de comida e água.
Essa mudança positiva na acolhida de calouros não vem só da inclusão de normativas e legislações, mas também do comportamento dos estudantes de hoje. Para Maria Cristina, esse processo é fruto de “um movimento natural por conta da própria conscientização da humanidade, que tem avançado em diversas Instituições de Ensino Superior”. A pró-reitora considera que o movimento receptivo dos veteranos nasce dessa percepção, de que determinadas brincadeiras, realizadas em antigos trotes, não divertem quando chegam ao nível da agressão.
Com essa visão humanizada, a Feevale constrói, em conjunto com o Diretório Central de Estudantes (DCE), propostas que celebram o começo da trajetória acadêmica de centenas de alunos. “Acho que é importante esse movimento para os calouros, porque acaba marcando, de alguma forma, o ingresso num novo ciclo de formação, muito diferente do que já viveram até aqui (...). É uma ação que se transforma num marco de passagem, para que o aluno, de fato, perceba que está em novo contexto e momento de vida”, argumenta.
Para colocar essa perspectiva em prática, a Feevale promove, até quinta-feira (6/8), variadas atividades de acolhida acadêmica. Entre elas destacam-se pinturas faciais, participação de palhaços para promover momentos de descontração e interação com os novatos, além de oficinas temáticas de escrita e fanzines. O skatista tricampeão mundial Sandro Dias, o Mineirinho, fará parte da programação no dia 6/8, em um bate-papo criativo no Campus Novo Hamburgo. Para a programação completa, acessar o site.
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Ações de Convivência
Nesse processo de ressignificação de trotes e práticas diversificadas, a Universidade Federal de Pelotas (UFPel) lançou, em fevereiro deste ano, a “Política Bem Viver”, que trata da prevenção e do combate à violências. O documento não só orienta as atividades de trote, mas também serve como referência para todas as práticas institucionais. Entre seus princípios, a Política considera: a dignidade da pessoa humana; garantia de um ambiente universitário saudável e inclusivo; e a prevenção e o enfrentamento de todas as formas de violência institucional.
As Faculdades Integradas de Taquara (Faccat) também fazem parte desse movimento de renovação. Na última semana (em 27/7), a instituição promoveu recepção voltada à integração, contando com pipoca, apresentação do cantor João Dias e a participação de veteranos e coordenadores de curso. Neste semestre, a instituição Superior inovou na temática da acolhida com o “Streaming Faccat”, inspirado em filmes e séries. Também esteve presente na acolhida o diretor-geral da Faccat, professor Delmar Backes, que deu as boas-vindas aos novos acadêmicos e destacou o compromisso da instituição em oferecer formação de qualidade.
Se antes o trote era sinônimo de medo e humilhação para quem ingressava na graduação, hoje o cenário no Rio Grande do Sul aponta para outra direção. Entre políticas institucionais, legislações municipais e a própria mudança de comportamento das novas gerações, o que se percebe é uma tendência que vem se consolidando: recepcionar o calouro não com provações, mas com boas-vindas de fato, para marcar o início de uma nova etapa de vida com respeito, cultura e pertencimento.
Legislações
- Consun/UFRGS: A decisão 028/2016 do Conselho Universitário, proíbe que as atividades de trote envolvam violência física, sexual e psicológica; e de desrespeito à vida e dignidade humana. Estabelece que as sanções serão passíveis de processo disciplinar, ainda que os trotes tenham sido praticados fora das dependências da Ufrgs. E também determina que o processo disciplinar assegurará o contraditório e a ampla defesa, com eventual aplicação de sanções comunicadas ao Ministério Público, para exame da possível responsabilidade penal.
- Porto Alegre: A proibição de trotes violentos, constrangedores ou de risco à integridade física e moral dos alunos em Instituições de Ensino Superior (IES) na cidade consta em projeto da Câmara (Lei Municipal 11.820/2015).
- Pelotas: A prática de trote universitário em via pública, que ofenda a integridade física, moral ou psicológica dos alunos é proibida na cidade, pela Lei Municipal 5.897/2012. A medida prevê sanções disciplinares pelas universidades; e determina que as IES públicas e privadas façam campanhas de divulgação e esclarecimento.
- Santa Maria: Pela Lei Municipal 4.567/2002, fica proibida a prática de trotes de cursos universitários com prejuízos morais ou físicos; e que atentem contra a liberdade das pessoas e o patrimônio público. É prevista multa equivalente a 10 cestas básicas mensais, por 12 meses, para doação.
- Federal: Recepção de novos alunos em IES que envolvam coação, agressão, humilhação ou outra forma de constrangimento são proibidas, pelo Projeto de Lei 445/2023. Mas o texto não foi totalmente aprovado, e tramita no Congresso Nacional.
- Trote: Ritual de recepção, em que alunos veteranos recebem os calouros. Envolve brincadeiras recreativas, pedidos de doações; ou, em casos negativos, situações de violência e humilhação.
*Sob orientação de Maria José Vasconcelos