O presidente paraguaio, Santiago Peña, vai enfrentar um julgamento de destituição no Senado, em meio a uma crise bancária que congelou as contas de milhões de clientes e o levou a apresentar sua renúncia na quinta-feira (5), em meio a grandes protestos nas ruas.
Aliado do governo dos Estados Unidos, Peña, de 47 anos, permanece provisoriamente na Presidência. Isso ocorre porque o Congresso suspendeu a tramitação de sua renúncia enquanto avança o processo político de destituição. O julgamento político deve começar às 10h00 desta sexta-feira.
Milhares de manifestantes protestavam pela terceira noite consecutiva em Assunção e outras cidades. Eles exigiam a devolução do seu dinheiro após o colapso do Ueno Bank, o principal banco digital do Paraguai e um dos maiores do País. Quase 3 milhões de pessoas ficaram sem acesso aos seus depósitos, o que equivale a quase metade da população.
A polícia estimou em 5 mil o número de pessoas que se reuniram no entorno do Congresso. No local, houve confrontos entre os jovens e a força pública.
Renúncia e o processo de destituição
Peña anunciou sua renúncia pouco depois do meio-dia de quinta-feira, após perder o apoio de seu próprio partido no Congresso. "Tomei a decisão de apresentar minha renúncia (...) Quero pedir desculpas ao povo se, em algum momento, falhei", disse Peña em um vídeo publicado no X.
O presidente ressaltou que sua prioridade é "a tranquilidade dos paraguaios que confiaram suas economias" ao sistema financeiro do País. Minutos depois, deputados votaram por unanimidade a abertura de um julgamento político contra ele. A abertura de outro processo contra o vice-presidente do País, Pedro Alliana, a quem cabe suceder a Peña, foi rejeitada.
Durante a tarde, uma sessão de ambas as câmaras destinada a se pronunciar sobre a renúncia de Peña foi suspensa por falta de quórum. A maioria dos deputados governistas deixou o plenário durante a votação, que se encaminhava para a rejeição do pedido de renúncia.
A oposição pretendia avançar com o processo de impeachment para evitar que Peña, caso a renúncia fosse aceita, escapasse de um eventual processo penal. Por outro lado, uma parte da base governista desejava aceitá-la para acelerar a posse do vice-presidente Alliana. Minutos depois, senadores governistas anunciaram que se iniciaria o processo de impeachment contra o presidente.
"Aqui foi montado um esquema criminoso que se dedicou a esvaziar um banco com a proteção de instituições que ele controlava como presidente da República", destacou na acusação o deputado opositor Raúl Benítez. Após o anúncio do processo, Peña informou no X que comparecerá ao Senado para exercer seu "direito de defesa".
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A crise do Ueno Bank e as investigações
Em plena crise, o ministro do Interior, Enrique Riera, renunciou ao cargo. Para entender a escalada da crise no Paraguai, confira os detalhes dos desdobramentos.
A crise eclodiu na terça-feira (3), quando o Banco Central do Paraguai (BCP) interveio no Ueno Bank devido a uma insuficiência grave de capital. Além dos depósitos dos correntistas, foram congelados fundos de órgãos estatais. Nadia González, 26, mãe de 3 filhos, foi surpreendida quando aguardava a liberação de um crédito. "O Ueno aprovou um empréstimo para nossa primeira casa, mas nunca liberaram", contou à AFP. "Agora, não temos onde morar."
Peña, que foi ministro da Fazenda e assumiu a Presidência em 2023 para um mandato até 2028, tinha ações de um grupo que controlava o banco, das quais se desfez em 2025. Após a intervenção no Ueno Bank, ele exigiu a renúncia do presidente do Banco Central. Ele também promulgou uma lei que fixou um prazo de 5 dias úteis para a devolução da maior parte dos recursos aos clientes do banco.
Ainda assim, deputados da oposição reuniram as assinaturas necessárias para apresentar uma acusação contra Peña por conflito de interesses. Ele foi criticado por ter favorecido o banco por meio de decisões regulatórias e depósitos previdenciários. Na tarde de quinta-feira, a Procuradoria-Geral do Paraguai anunciou a abertura de uma investigação penal contra Peña por "fatos relacionados à supervisão e liquidação do Ueno Bank S.A. e à aplicação de recursos públicos nesta instituição".