Polícia

Aula Magna da FMP discute papel das instituições no combate ao feminicídio

Palestrantes apresentaram propostas de atuação para acolhimento e proteção das vítimas

FMP recebeu Greice Stock (esquerda) e Karen Luize de Souza (direita) para palestra à alunos de Direito
FMP recebeu Greice Stock (esquerda) e Karen Luize de Souza (direita) para palestra à alunos de Direito Foto : Fabiano do Amaral

Para um auditório repleto de jovens estudantes de direito da Fundação Escola Superior do Ministério Público (FMP), duas mulheres membros do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) trouxeram dados e reflexões sobre o papel das instituições de justiça no combate à violência de gênero. A juíza Karen Luise de Souza destacou a importância de políticas públicas que considerem o recorte de raça, enquanto a advogada Greice Stock salientou a necessidade de pupilaridade na representatividade de quem faz a justiça.

A primeira a fazer o uso da palavra foi a magistrada, Karen Luise que resgatou a história de Márcia Barbosa de Souza, morte em 1998 por um parlamentar. A família precisou apelar para a Corte Interamericana de Direitos Humanos por uma resolução, que acabou condenando Estado brasileiro em 2021.

A avaliação da conselheira é de que a relação de poder foi decisiva para que o caso ficasse 23 anos sem uma resolução, já que o agressor tinha foro privilegiado, na época. “O ordenamento jurídico não pode ser instrumentalizado como escudo para o agressor”, defendeu a magistrada. Para ela, a invisibilização da violência de gênero é uma estratégia de não proteção que vulnerabiliza, sobretudo mulheres negras e pobres.

Tendo isso em mente, a advogada, Greice Stock, defende o aumento da representatividade feminina como uma estratégia de qualificar o fazer jurídico. “Ninguém enxerga o todo sozinho. Cada instituição enxerga uma realidade. É no encontro desses olhares que a Justiça se legitima. Ocupar esses espaços transforma a própria ideia de justiça”, explica.

Conforme dados apresentados pela magistrada, com a criação da Lei Maria da Penha, que estabeleceu a emissão de medidas protetivas à mulheres vítimas de violência contra seus agressores, houve um decréscimo no número de feminicídios. No entanto, a política pública seguiu com dificuldade de proteger mulheres negras e pobres. Na avaliação da juíza, isso é reflexo da dificuldade de acesso dessas mulheres ao sistema de proteção e a falta de credibilidade delas nas instituições públicas como instrumento de proteção efetivo.

“A ausência de um boletim não é ausência de violência, é ausência de proteção! É o Estado esperando que a vítima percorra um caminho impossível para a sua sobrevivência”, argumenta a juíza que defendeu a criação de uma política pública em que o Estado vá ao encontro dessas mulheres e a criação de um observatório especializado em violências de gênero.

“Muitas vezes, uma denúncia feita por violência contra a mulher é arquivada mas não há o cessamento da violência. Muitas vezes, por medo, as mulheres optam por interromper o processo por não sentir que o sistema é suficiente para protegê-las”, complementou a advogada que citou a banalização do ódio as mulheres nas redes sociais com a ascensão do movimento Redpill.

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