O Brasil que chega às urnas neste domingo, 4 de outubro, para eleger, além do presidente da República, governadores em 26 estados e no Distrito Federal, 54 senadores, 513 deputados federais e 1.059 deputados nos legislativos estaduais (24 deles distritais) parece ainda distante de superar a cisão que o divide há vários pleitos.
Na corrida principal, para a presidência da República, estão 12 concorrentes, sendo metade deles praticamente ‘invisíveis’. Disputam o cargo o presidente Lula (PT), que tenta o quarto mandato, o senador Flávio Bolsonaro (PL), os governadores de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD) e de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), o escritor Augusto Cury (Avante), o empresário Renan Santos (Missão), e também Clariana Barão (DC), Edmilson Costa (PCB), Hertz Dias (PSTU), Rui Costa Pimenta (PCO), Samara Martins (UP) e Wilson Grassi (Democrata).
Apesar do curto espaço de tempo oficial para a competição, de sua baixa visibilidade nas ruas, ou da sensação de pouco engajamento dos eleitores, a campanha nacional do primeiro turno foi mais uma vez pontuada de tensão. Seu pano de fundo, do início ao fim, foi um escândalo do mercado financeiro, o do Banco Master, precificado como a maior fraude da história nacional. Por suas características peculiares, ele se transformou em um espetáculo que atingiu as instituições da República e atiçou o imaginário nacional sobre promiscuidade, corrupção, traições, festas e ostentação entre ricos e poderosos, mantendo em aberto consequências ainda difíceis de mensurar.
O escândalo do Master gerou uma crise sem precedentes no Supremo Tribunal Federal (STF). Ela invadiu a campanha eleitoral e escancarou a politização do sistema de justiça, colocando em xeque sua credibilidade e dando munição para políticos que usam o pretexto da moralização para tentar erodir as instituições. E teve mais.
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Apesar da lista de iniciativas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em coibir notícias falsas e desinformação, os eleitores foram bombardeados pelo uso massivo de acusações e denúncias verdadeiras e falsas dentro e fora das redes. A elas, somaram-se ainda: a sombra de uma fileira de tentativas do governo de Donald Trump de influenciar o pleito nacional. E a inexistência de debates diretos, presenciais, e sérios, entre todos os principais concorrentes ao posto máximo do Executivo, que permitissem comparações justas entre propostas.
Como se nada disto fosse suficiente para confundir a população, na reta final deste primeiro turno chegou à corrida presidencial o ingrediente da ameaça às liberdades religiosa e de expressão, tema que historicamente já se mostrou capaz de fraturar qualquer nação, independente da época.
É neste contexto que 158,7 milhões de brasileiros estão aptos a votar neste domingo. O cenário, apontam especialistas em marketing político e pesquisadores, ajuda a explicar a cristalização do voto em dois grandes grupos na corrida presidencial, o número de indecisos em diferentes disputas pelos estados e a expectativa sobre quais serão os índices de abstenção seja na contenda nacional ou nas regionais.
“O eleitor está desinteressado e desiludido. Mas não é só porque a radicalização desestimula e desvia o debate do que de fato interessa. É porque enfrentamos já há vários anos um processo muito forte para desacreditar a política, a imprensa, os governos e o Judiciário”, elenca o especialista em análise política José Fuscaldo. Conforme ele, o ataque constante aos pilares da democracia e o surgimento de discursos embasados as vezes abertamente no conceito de necropolítica já estão fartamente documentados como parte de estratégias que, pelo mundo, gestaram regimes autoritários próprios ou alinhados com pares externos.
A grande marca deste pleito de 2026, na avaliação do doutor em Ciência Política Juliano Corbellini, é a do ‘eleitorado ‘anestesiado’. “É uma campanha com baixíssimo engajamento, ânimo e atenção dos eleitores. Entre outros pontos, porque nenhum dos competidores conseguiu desvelar um sonho de futuro muito claro, atrativo. No plano nacional, que se reflete um pouco no estadual, é uma eleição com uma mobilidade muito baixa, disputada em uma margem muito estreita dos votos. Ela é uma eleição de detalhes. Tão apertada que uma pequena oscilação pode mudar o resultado final”, projeta.
Segundo ele, para além de todas as polêmicas e ações da reta final, estrategistas políticos da campanha nacional focam suas energias em três variáveis, devido ao seu potencial de impacto direto sobre o resultado final: são elas o índice de abstenção, o quanto o antipetismo de chegada pode de fato favorecer Flávio Bolsonaro e o quanto Lula consegue aproximar suas intenções de voto dos índices de aprovação do governo, que são superiores. “As condições nas quais terminar o primeiro vão impactar demais o segundo, se houver segundo”, completa.
