Foi a partir de uma base consolidada garantida pelo bolsonarismo, sobre a qual houve a aplicação de estratégia política clássica, um trabalho de muito tempo nas redes sociais e a identificação correta de anseios imediatos da população, que o senador Flávio Bolsonaro (PL) passou de um candidato considerado fraco até por aliados à condição de capaz de se tornar presidente da República. Mas, ao final, a projeção não se confirmou e ele voltou ao começo.
Dez meses se passaram entre o anúncio feito por Flávio nas redes sociais, em dezembro de 2025, de que havia sido escolhido pelo pai, Jair, para disputar a presidência nestas eleições de 2026, e o primeiro turno do pleito, pelo qual passou como favorito. Nesse meio tempo, as baixas expectativas sobre suas chances de sucesso apareceram logo. Dos setores à direita que externavam sua preferência pelo agora governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), à dificuldade de fechar alianças, o que obrigou o PL a apresentar uma chapa pura para a corrida presidencial.
No meio do caminho, quando haviam transcorrido cinco meses desde Jair Bolsonaro decidir quem seria o candidato do partido à presidência, a candidatura do filho parecia mesmo que iria naufragar. Era maio quando foram divulgadas as gravações das ligações telefônicas nas quais Flávio demonstra intimidade e pede dinheiro para o banqueiro Daniel Vorcaro, pivô do escândalo do Banco Master. Para, em tese, financiar o filme sobre a vida do pai.
Ele ainda não havia se recuperado do baque frente ao eleitorado quando a madrasta, Michelle Bolsonaro (PL), agora eleita senadora pelo Distrito Federal, gravou, em junho, um vídeo. Para deixar claros, e públicos, os dissabores da convivência com o enteado.
Em julho, na tentativa de acertar o tom e conter a sucessão de crises, Flávio escolheu o terceiro marqueteiro. E, então, a campanha começou. Auxiliado pela polarização, pela inexistência de uma terceira via, e por adversários do campo da direita que não mostraram condições de engajar a médio prazo os eleitores, o filho mais velho do ex-presidente quase conseguiu. No final de agosto, a crise do Master atingiu o STF e ajudou Flávio. Mas a profusão de fatos desabonadores do passado e do presente, a forte mobilização das ruas, a mudança de estratégia petista nas redes sociais e uma onda que teve a participação até de celebridades internacionais impactaram a campanha do candidato. Na reta final, a repercussão sobre sua atuação no caso ‘Ana Clara’ e a vinculação entre Flávio e o advogado Willer Tomaz selaram o destino do senador. E do país.
