Eleições

Lula é orientado por Itamaraty a não dar corda para Milei e Trump no episódio da saída de Flávio do Brasil

Governo brasileiro adota estratégia pragmática e foca em eleições de meio de mandato nos EUA, evitando dar palanque a provocações

Governo brasileiro adota estratégia pragmática e foca em eleições de meio de mandato nos EUA, evitando dar palanque a provocações
Governo brasileiro adota estratégia pragmática e foca em eleições de meio de mandato nos EUA, evitando dar palanque a provocações Foto : Evaristo Sa / AFP / CP

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi orientado pelo Itamaraty a adotar uma estratégia pragmática e não reagir a provocações dos presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da Argentina, Javier Milei, que ajudaram na saída do senador Flávio Bolsonaro para Miami.

Dois dias antes, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes havia determinado que Flávio entregasse os seus passaportes à Polícia Federal, proibindo o senador de deixar o País. O senador é alvo de dois inquéritos no STF, um no caso dos R$ 134 milhões pedidos a Daniel Vorcaro, do Banco Master, para o filme Dark Horse e outro por suspeita de lavagem de dinheiro por meio de bets, e perde o foro privilegiado em 31 de janeiro de 2027, quando termina o seu mandato.

O encontro tem como anfitrião o secretário de Estado americano, Marco Rubio, visto pelo governo brasileiro como o maior aliado da família Bolsonaro nos Estados Unidos e um dos homens que fazem a cabeça de Trump contra Lula. De acordo com o jornal britânico The Guardian, Rubio assinou pessoalmente um memorando para liberar US$ 1 milhão (mais de R$ 5 milhões) a um projeto que financia grupos da sociedade contrários ao que o governo Trump classifica como “censura” por parte do STF.

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Avaliação do Itamaraty

Na avaliação do Itamaraty, porém, Lula deve ignorar a saída de Flávio do Brasil e deixar esse assunto para a esfera judicial. Entrar no bate-boca com Trump e Milei, que até agora não reconheceram a vitória do presidente, seria o mesmo que “dar palanque para maluco”, disse um dos diplomatas ouvidos pelo Estadão. No domingo, Lula recebeu 64.256.232 votos (51,79% dos válidos). Flávio, por sua vez, obteve 59.826.041 (48,21%)

Em carta divulgada nesta quarta-feira, Flávio se autointitulou como “verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Na primeira das quatro versões do comunicado, o brasão da República continha a palavra Brasil escrita com “z”. Na última, o candidato derrotado do PL recuou e substituiu a expressão “verdadeiro presidente” por “líder do Brasil”.

O governo Lula também aposta que o trumpismo sairá enfraquecido das eleições legislativas de meio de mandato, as chamadas midterms, na próxima terça-feira. Há expectativa de perda da maioria parlamentar do Partido Republicano, de Trump, na votação que definirá a composição do Congresso americano, justamente no meio do mandato do presidente dos Estados Unidos.

Nesse cenário, a saída de Flávio do Brasil, sob patrocínio de Trump e Milei, é classificada por auxiliares de Lula como um “episódio de perdedores”. A orientação do Itamaraty para o presidente, diante de tanta turbulência, é aguardar as eleições americanas de terça-feira para definir os próximos passos. O resultado dessa disputa, porém, não terá qualquer impacto sobre o tarifaço imposto aos produtos brasileiros.

Até agora, nem mesmo declarações de Trump, que chamou as eleições no Brasil de “vergonha”, mereceram resposta do presidente. A não ser que haja uma mudança de última hora na estratégia planejada, diante de algum fato novo, a intenção de Lula é deixar Flávio e seus aliados falando sozinhos.

A situação deve atrasar ainda mais, no entanto, a análise feita pelo governo sobre a concessão do agrément (consentimento oficial) ao deputado estadual Daniel Perez, nome indicado por Trump para assumir a embaixada dos EUA no Brasil. Em agosto, o governo Trump chegou a revogar o visto de múltiplas entradas da embaixadora do Brasil nos EUA, Maria Luiza Viotti. Foi uma retaliação à demora do Brasil em dar sinal verde para Perez.

A cúpula do PT afirmou, nesta quinta-feira, que a posição de Trump sobre o resultado das eleições brasileiras, abrigando Flávio em território americano, merece atenção. “O Brasil não aceitará que interesses estrangeiros interfiram em sua democracia, nem que disputas políticas sirvam de pretexto para desrespeitar a vontade soberana do povo brasileiro, em eleições amplamente fiscalizadas e reconhecidas por sua lisura”, diz a resolução política aprovada pela Executiva Nacional do PT.

Para a direção do partido, a tentativa de Flávio de conclamar a interferência externa representa “um novo degrau da reação autoritária por parte dos derrotados nas urnas”.

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