Eleições

O peso da terceira idade: como o envelhecimento da população redesenha as eleições

Número de idosos com idade não obrigatória de voto saltou nas últimas eleições

Antonieta da Silva Campos, 96 anos, bancária aposentada, exibe seu título de eleitor em sua casa
Antonieta da Silva Campos, 96 anos, bancária aposentada, exibe seu título de eleitor em sua casa Foto : Tânia Rêgo/Agência Brasil

Impulsionado pelo aumento da expectativa de vida da população gaúcha, perfil demográfico do eleitorado no Rio Grande do Sul passou por uma transformação radical na última década.

Em 2014, o total de eleitores no RS acima dos 70 anos — período em que o voto passa a ser facultativo no Brasil – era de 766.996 cidadãos. Nesta eleição, o número nesta faixa etária disparou para 1.237.959 eleitores, uma alta de 61,40% no eleitorado com 70 anos ou mais, evidenciando um crescimento contínuo e expressivo da base de votantes mais velhos.

O fenômeno é nacional. Dos mais de 158 milhões de brasileiros aptos a irem às urnas em outubro, 23% têm mais de 60 anos e formam o maior eleitorado idoso já registrado no País.

Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o número de idosos com o título de eleitor ativo cresceu cerca de 74% desde 2010, e hoje eles correspondem a mais de 36,8 milhões de pessoas.

Conforme o (TSE), o contingente total de pessoas acima de 60 anos no Rio Grande do Sul já representa quase um terço do eleitorado nestas eleições, atingindo a marca histórica de 29,82% dos votantes gaúchos.

Esse crescimento estatístico reposiciona o papel do idoso como um pilar fundamental da estabilidade democrática e das decisões políticas regionais. Mesmo desobrigados por lei de comparecerem às urnas, os cidadãos da terceira idade demonstram um alto índice de engajamento e civismo.

Para Patrícia Silvestri, advogada constitucionalista, membra da Comissão de Defesa da Criança e do Adolescente da OAB-SP, o combate ao etarismo deve ocorrer também no processo eleitoral. “O idoso não pode ser tratado como alguém que deve apenas receber políticas públicas. Ele precisa ser reconhecido como cidadão ativo, capaz de participar das decisões que definem o presente e o futuro do País.”

Diante dessa nova realidade desenhada pelo TSE, os planos de governo e as campanhas eleitorais são forçados a se adaptar a temas mais segmentados para esta faixa etária da população como a previdência, por exemplo. “Para a população com 60 anos ou mais, participar das eleições significa ajudar a decidir políticas públicas que terão impacto direto em sua vida: saúde, medicamentos, aposentadoria, transporte, mobilidade urbana, segurança, moradia, acessibilidade e combate à violência e aos maus-tratos”, pontua Patrícia.

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A especialista ainda salienta que é dever do Estado garantir condições para que o idoso saia de casa votar. “Não apenas para estimular aqueles que já têm o voto facultativo a comparecer às urnas, mas também para garantir que todos os cidadãos com 60 anos ou mais encontrem condições adequadas para exercer plenamente sua cidadania. Isso significa assegurar acessibilidade nos locais de votação, transporte adequado, atendimento prioritário, informação clara e, principalmente, respeito. Famílias, entidades da sociedade civil e o poder público também têm um papel importante nessa mobilização”.

Para a Doutora em Ciência Política e professora do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Mayra Goulart, esses dados transformam o grupo em um segmento decisivo para qualquer candidatura nacionalmente competitiva.

“O envelhecimento do eleitorado tende a aumentar a importância de temas como saúde pública, acesso a medicamentos, previdência, assistência social, segurança, mobilidade, cuidado de longa duração e custo de vida", aponta a pesquisadora, que é Coordenadora do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada da UFRJ.

"São questões que afetam diretamente a população idosa, mas que também alcançam suas famílias, especialmente aquelas responsáveis pelo cuidado de parentes mais velhos”, completa.

A cientista política acredita que a idade pode estar relacionada a posições mais conservadoras em determinadas questões morais ou comportamentais, mas isso não significa que eleitores idosos necessariamente votem mais em candidatos de uma determinada esfera política.

“Há maior preocupação com políticas públicas, proteção social, previdência, saúde e estabilidade de renda. São eleitores que possuem uma experiência mais direta com o Sistema Único de Saúde, aposentadorias, pensões, medicamentos e outros serviços estatais”, reforçando que isso não elimina diferenças internas de renda, religião, escolaridade, gênero e região.

Aos 96 anos, Antonieta exerce sua cidadania

No bairro das Laranjeiras, zona sul do Rio de Janeiro, Antonieta da Silva Campos faz questão de exercer seu direito ao voto. Aos 96 anos de idade, ela ainda se lembra da sua primeira eleição, quando ajudou a eleger Getúlio Vargas, nos anos 50.

Na hora de escolher um candidato, ela conta que gosta de pesquisar. “Eu vejo o que ele já fez, a postura dele como foi. A honestidade do candidato é o mais importante, queremos uma pessoa íntegra em todos os cargos”, conta.

Quando se prepara para votar, Antonieta diz que vai firme, com o sentimento de que está votando na pessoa certa.

*Com informações da Agência Brasil

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