Passados três dos 21 dias que separam o primeiro e o segundo turnos da eleição presidencial, o PT gaúcho não tem definida, na prática, uma estratégia para tentar aumentar a votação do presidente Lula no RS no dia 25 de outubro. A tendência é de que consuma esta primeira semana inteira em reuniões, o que reduzirá a 15 dias o tempo para tentar uma melhora.
O coordenador da campanha de Lula no primeiro turno no RS, e candidato a vice na chapa que era encabeçada por Juliana Brizola (PDT) para o governo, Edegar Pretto, desembarcou em Porto Alegre na noite de terça-feira, 6. Ele e o deputado federal Paulo Pimenta estavam em Brasília, para a reunião de avaliação convocada por Lula que, na segunda, em tese, alinhou estratégias do segundo turno. Assim como o presidente, os dois foram derrotados no RS. A líder da chapa do ex-presidente da Conab perdeu a eleição em primeiro turno para Luciano Zucco (PL). E Pimenta não conseguiu a vaga pretendida no Senado.
Em Brasília, além da reunião com Lula, também aconteceu outro encontro, dos coordenadores estaduais, como Edegar. O petista retorna ao Estado repetindo o discurso de uma campanha de segundo turno que vai tratar do futuro, incrementar a presença nas redes, destacar a relação do adversário com as milícias, e apresentar ações concretas para segurança pública. Mas não diz como isso será feito entre gaúchos.
De concreto, Pimenta e Manuela D’Ávila (PSol), passam também a integrar a coordenação de campanha de Lula no RS. E, amanhã, quinta-feira, será feita reunião com deputados federais e estaduais, mais representações de partidos aliados, para estabelecer agendas de cada um em suas regiões, na tentativa de evitar a desmobilização que toma conta da campanha nacional quando as corridas regionais terminam precocemente.
No final de semana, Edegar viajará para um genérico “interior”. Não há, até esta quarta-feira, definição de roteiros pelo Estado, nem certeza sobre se Porto Alegre e a região Metropolitana concentrarão agendas, ou se o partido buscará de forma mais efetiva votos em pequenos e médios municípios. Em 2022, o mesmo Edegar, que então concorria ao governo, surpreendeu no primeiro turno ao ‘pingar’ votos por todo o RS e ficar à frente da corrida em muitas pequenas e médias cidades, movimento que não se repetiu neste ano com Juliana.
No RS, em números absolutos, 1.819.642 eleitores se abstiveram de ir às urnas no domingo passado. Lula foi a escolha de 2.294.759 votantes, perdendo para Flávio Bolsonaro (PL) por uma diferença de 1.279.024 votos. Os números mais do que jogam por terra a promessa de petistas e outras lideranças integrantes da coligação que tinha o PDT na cabeça de chapa para o Piratini, de que o presidente terminaria o primeiro turno à frente de Flávio.
Na vida real, a votação do mandatário entre gaúchos, apesar de superior à registrada por sua candidata ao governo, diminuiu em relação a 2022, quando ele foi a opção de 2.806.672 pessoas no primeiro turno da eleição no RS. Naquele ano, Lula fez 1,1 milhão a mais de votos do que Edegar, então postulante do partido ao Piratini. Agora, ele superou Juliana por 377 mil votos. A pedetista, à frente de uma aliança de oito partidos, fez 200 mil votos a mais do que Edegar em 2022. Na época, a aliança do petista incluía cinco siglas.
No Estado, como no Brasil, para ter qualquer chance de recuperação, o partido precisa tanto ir em busca dos que se abstiveram no domingo como tentar virar votos. Só não tem clareza de como fará isso. De público, não há, entre lideranças petistas gaúchas, quem admita a falta de rumo. O clima é bem diferente nos bastidores, onde os responsáveis pela estratégia de ceder a cabeça de chapa ao PDT, imposta pela direção nacional e levada a cabo com a participação ativa do deputado federal Paulo Pimenta e de líderes que atuaram à revelia das instâncias partidárias locais, como Tarso Genro e Henrique Fontana, já começaram a ser cobrados.
O mote usado para obrigar a aliança foi justamente o de que atender ao pleito do PDT nacional era ponto básico para concretizar a prioridade do partido: a reeleição de Lula. O acordo foi fechado sem que a direção nacional ou a estadual dessem maiores explicações de como haviam chegado a tal conclusão. Agora, os que defendiam candidatura própria no RS mostram os números para, conforme eles, comprovar o quanto a estratégia “era furada”. No Brasil Lula também fez menos votos do que em 2022. Já o PDT encolheu mais um pouco e não alcançou a chamada cláusula de barreira, entrando para a lista de siglas que perderão recursos do fundo partidário e tempo de propaganda no rádio e na TV.
A insatisfação entre petistas leva outros dados em conta. No domingo, o PT gaúcho não viu escapar apenas a chance de participar de um governo estadual. Assistiu também a concretização de temores sobre os quais todos os articuladores da aliança foram alertados. Porque a legenda perderá a cadeira que Paulo Paim ‘defendia’ no Senado há quase 25 anos. Encolherá sua representação na Câmara dos Deputados, para onde elegeu cinco parlamentares (um a menos do que em 2022). E ficará com dois representantes a menos na Assembleia Legislativa, passando dos atuais 11 para nove.
Será a primeira vez, em quase 30 anos, que não ostentará o título de maior bancada do Legislativo gaúcho, posição que detinha desde as eleições de 1998. Apenas no pleito de 2018, quando elegeu oito, sua representação havia ficado abaixo da próxima.
Três articuladores petistas locais confirmaram que a sigla vai tentar engrenar a campanha de segundo turno de Lula no RS sem aparar as arestas do primeiro. Amanhã está prevista reunião da executiva estadual. Mas a avaliação mesmo a respeito de como naufragou a aliança com o PDT foi empurrada para o dia 26, depois do resultado definitivo das urnas para Lula.
