Acaso ou não do destino, a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva para seu quarto mandato como presidente do Brasil aconteceu no Dia da Democracia, definido para ser em 25 de outubro de forma a lembrar a data da morte de Vladimir Herzog, em 1975, nos porões da ditadura.
A coincidência de datas não é a única característica a conferir singularidade, e um caráter histórico, à mais uma eleição do petista neste ano de 2026. Porque, pela primeira vez desde a redemocratização do Brasil, um candidato vence as eleições presidenciais depois de passar para o segundo turno da corrida em desvantagem. Lula terminou o primeiro turno atrás do senador Flávio Bolsonaro (PL). E, entre petistas, era difícil esconder o abatimento nos dias imediatamente após o primeiro turno.
O caráter histórico está também na retomada das mobilizações populares, que haviam sido perdidas pelos setores progressistas da sociedade brasileira em definitivo durante as manifestações dos anos de 2013 e 2014. Que marcaram o início da ascensão do bolsonarismo, e um período no qual, além de ver o protagonismo da esquerda encolher, o país assistiu à operação Lava Jato, ao impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e à prisão de Lula, em 2018, no mesmo ano em que Jair Bolsonaro se elegeu presidente.
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Agora, após as ruas, o futuro dirá se Lula “fará as pazes” com a classe média, que depositou nele, mais do que um voto de confiança, a esperança de um país onde a polarização pare de atrapalhar a política, a economia e as relações pessoais. Se conseguirá compreender, finalmente, os anseios de novas e expressivas parcelas de trabalhadores urbanos, e de uma sociedade que, há muito, parou de se dividir como se só existisse capital e trabalho.
Em outra ponta, que também confere um caráter inovador à vitória, está a adesão de Lula e do PT aos novos tempos das campanhas e do engajamento das massas, que incluem forte presença digital e disposição para estudar e compreender a lógica e a importância das redes para milhões de brasileiros. Neste ponto, a conferir qual será o destino do deputado federal André Janones (Avante/MG), que montou nas redes o “Exército do Lula”, mobilizando mais de 10 milhões de pessoas, incluindo celebridades de todas as áreas, da classe artística à expoentes do mundo acadêmico e da ciência.
Por fim, a vitória foi histórica porque foi sofrida, contada voto a voto, e com reviravoltas. “Agora, o presidente e o PT vão precisar, obrigatoriamente, repensar por onde vão caminhar em termos de partido, e da metamorfose que qualquer instituição precisa fazer para se adaptar às mudanças. São novos tempos, novos modelos, e eles têm o desafio de se adaptar ao século 21”, adianta a professora Silvana Krause, do programa de pós-graduação em Ciência Política da Ufrgs.
Agora, ao contrário do que havia ocorrido em 2018, quando Jair Bolsonaro foi quem elegeu partidários em todo o país, em 2026, no primeiro turno, foram candidatos pelo Brasil que carregaram votos para seu aliado na disputa presidencial e influenciaram o resultado. Lula, que sempre focou no legado, vai precisar prestar atenção neste fenômeno, porque, no segundo turno, foi a sociedade que desempenhou este mesmo papel, só que em sua direção. E esta ‘planificação’, mais do que representar a celebração da democracia, é a chave que ajuda a explicar tantas reviravoltas.
