Aline Baldim Vick construiu parte de sua trajetória longe da terra. Economista, atuava no mercado financeiro quando decidiu fazer o caminho de volta para a propriedade da família, em Pirassununga, no interior de São Paulo. O retorno, porém, não significou simplesmente assumir o que já existia. À frente da Fazenda Estância, ela passou a conduzir uma transformação no modelo produtivo, levando para o campo gestão, tecnologia e práticas de agricultura regenerativa.
A rotação com culturas de cobertura e o manejo direcionado por talhão estão entre as estratégias adotadas. Os resultados apareceram na produtividade: as colheitas chegaram a ficar até 25% acima da média regional, enquanto a pegada de carbono no cultivo de grãos ficou abaixo da média nacional. A propriedade também mantém áreas que abrigam espécies ameaçadas da flora e da fauna e abriu suas porteiras para compartilhar conhecimento: mais de 1,2 mil pessoas já passaram pela fazenda para conhecer de perto as práticas regenerativas.
A trajetória levou Aline ao primeiro lugar na categoria Grande Propriedade da 9ª edição do Prêmio Mulheres do Agro, iniciativa da Bayer e da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag). Mas, a quase 500 quilômetros dali, outra produtora mostra que transformação e inovação também cabem em uma propriedade de menor escala.
Em Holambra, também no interior paulista, Ana Karina Klinke fez da Estância Futurama um espaço de experimentação e mudança. A propriedade familiar tornou-se referência em seleção e melhoramento genético, com um modelo que busca aproximar produtividade, saúde animal e equilíbrio ambiental. Agricultura regenerativa, compostagem e conservação de nascentes passaram a fazer parte da rotina da fazenda.
Uma das mudanças mais significativas ocorreu no manejo dos animais. Ana eliminou a dependência de defensivos químicos sintéticos, como carrapaticidas, e passou a trabalhar com soluções biológicas, inoculantes e probióticos. O conhecimento acumulado não ficou restrito à propriedade: ela oferece consultoria e suporte técnico gratuito a pequenos parceiros locais e participa de conselhos municipais, incentivando projetos de arborização. A atuação garantiu a ela o primeiro lugar na categoria Pequena Propriedade.
Se Aline fez o caminho de volta e Ana transformou a propriedade familiar, Kátia Helena Fenner Rodrigues assumiu outro desafio: fazer um legado centenário avançar sem romper com suas raízes.
Na Fazenda Varginha, em São Joaquim, na Serra catarinense, Kátia administra uma história construída por gerações. Ali, modernização e preservação caminham juntas. A produção inclui frutas com Indicação Geográfica e o extrativismo sustentável do pinhão, mantendo a floresta de araucárias nativas. Na pecuária, foram implantados protocolos de bem-estar animal e melhoramento genético.
Mas sua atuação também atravessou as porteiras. Kátia criou o projeto Mulheres Araucarianas, iniciativa que deu origem à proposta do Selo Rosa, voltado à capacitação e ao fortalecimento das trabalhadoras rurais catarinenses, além de participar de redes de apoio à saúde da mulher na região. O trabalho lhe rendeu o primeiro lugar na categoria Média Propriedade.
Três propriedades, três escalas e trajetórias bastante diferentes. Em comum, Aline, Ana e Kátia mostram uma mudança que ocorre para além dos números da produção: mulheres que não apenas ocupam espaço no agronegócio, mas interferem na forma como ele é administrado, produz, preserva recursos e se relaciona com as comunidades.
As três fazem parte do grupo de vencedoras do Prêmio Mulheres do Agro 2026. A edição reuniu produtoras de diferentes portes e uma representante da ciência, ampliando o olhar sobre as diversas frentes em que a atuação feminina vem modificando o setor.
Quando a transformação do campo nasce na ciência
Nem toda transformação do agro começa dentro de uma propriedade rural. Algumas nascem no laboratório, passam pela universidade e chegam ao campo na forma de novas soluções. É nesse caminho que se constrói a trajetória de Erika Valente de Medeiros, vencedora da categoria Ciência e Pesquisa do Prêmio Mulheres do Agro 2026.
Bióloga, doutora em Agronomia e professora titular da Universidade Federal do Agreste de Pernambuco (Ufape), Erika dedica sua carreira a estudar algo que está literalmente sob os pés de quem produz: o solo. Suas pesquisas em microbiologia e bioquímica buscam respostas para desafios que se tornam cada vez mais urgentes, especialmente no semiárido brasileiro. Entre os temas estão desertificação, bioeconomia, biochar e agricultura sustentável.
A ciência desenvolvida por Erika procura ultrapassar os limites da universidade. A pesquisadora coordena trabalhos voltados à criação de bioinsumos e à recuperação de áreas degradadas, buscando alternativas capazes de aumentar a produtividade e, ao mesmo tempo, ajudar a agricultura a se adaptar aos desafios climáticos. É uma trajetória que já reúne mais de 200 artigos científicos publicados e sete patentes registradas.
O reconhecimento também passou pelo público. Diferentemente das categorias destinadas às produtoras rurais, Ciência e Pesquisa contou com uma etapa de votação popular que registrou mais de 40 mil votos em 2026. Erika foi a escolhida para representar uma dimensão muitas vezes menos visível da produção agrícola: a de mulheres que fazem ciência para encontrar respostas para o futuro do campo.
- Ingressos para a Expointer 2026 já estão disponíveis para compra online
- Federasul divulga agraciados com os prêmios Vencedores do Agro e Elas no Agro
- RS encerra safra de tabaco 2025/2026 com 286.603 toneladas
Trajetórias que se somam ao reconhecimento
As primeiras colocadas não foram as únicas histórias reconhecidas pelo Prêmio Mulheres do Agro 2026. As seis produtoras que completaram o pódio mostram diferentes formas de transformar o campo, da agricultura orgânica à cafeicultura, passando por tecnologia, agroindústria e sucessão familiar.
Na categoria Pequena Propriedade, a segunda colocada foi Roseilda Lima Duarte, agricultora e gestora do Sítio Bebedouro Agricultura Orgânica, no extremo sul da cidade de São Paulo. Em 2014, ela conduziu a transição completa da propriedade para um modelo 100% orgânico e agroecológico. Hoje, cultiva hortaliças, frutas e PANCs, adota compostagem, energia solar e manejo regenerativo do solo, além de receber estudantes em atividades de turismo pedagógico e educação ambiental.
O terceiro lugar ficou com Rosiana de Oliveira Pederiva Reis Almeida, de Três Pontas, em Minas Gerais. Bacharel em Direito, empresária e gestora da Fazenda Triunfo e da SimCafé, ela construiu uma trajetória ligada à cafeicultura desde 2003. À frente da gestão administrativa e financeira do negócio familiar, modernizou processos, controles e práticas voltadas à qualidade, rastreabilidade e rentabilidade do café. Rosiana também atua na valorização da liderança feminina como integrante da Associação das Mulheres do Agronegócio Minasul.
Entre as Médias Propriedades, a segunda colocada foi Suzana Muterle Viccini, gestora da Fazenda Querência dos Pampas, em Barreiras, na Bahia. Há mais de uma década no negócio familiar, liderou a profissionalização da operação e incorporou agricultura de precisão, monitoramento por drones e bioinsumos ao manejo. Também é presidente e cofundadora da Associação Núcleo das Mulheres do Agro do Oeste da Bahia, com atuação voltada à capacitação feminina e à sucessão familiar.
Já Sheilane Maria Rodrigues Magalhães, terceira colocada, transformou a produção leiteira da Fazenda Timbaúba, no Sertão de Crateús, no Ceará, em uma agroindústria de queijos artesanais. Responsável pela profissionalização do negócio, formalizou a operação, conquistou selos de inspeção sanitária e investiu em melhoramento genético do rebanho, energia solar, compostagem e manejo regenerativo. Também oferece cursos a produtores da região, ajudando a estimular novos empreendimentos rurais.
Na categoria Grande Propriedade, a segunda posição foi conquistada por Karina Santos Gontijo Seibt, cafeicultora e gestora da Agropecuária Seibt - Sementes Gaúcha, em Presidente Olegário, Minas Gerais. À frente da área de cafés especiais, ela investiu em rastreabilidade, reaproveitamento de resíduos, compostagem e reflorestamento com 24 mil mudas nativas. O trabalho também levou a propriedade a conquistar certificações internacionais e ampliar a presença dos cafés no mercado nacional e internacional.
O terceiro lugar ficou com Elisabete Kim Shih, arquiteta e gestora da Fazenda São Sebastião, em São Thomé das Letras, também em Minas Gerais. Depois de duas décadas no setor privado em São Paulo, ela assumiu a propriedade da família e conduziu uma reestruturação da gestão, com controle financeiro, rastreamento de máquinas, modernização da irrigação e diversificação da produção. A fazenda também adota práticas regenerativas e políticas de valorização dos trabalhadores, com planos de carreira, ações de educação e um manual de conduta voltado à ética e ao respeito.
Juntas, essas trajetórias completam o retrato das mulheres reconhecidas nesta edição e mostram que inovação no agro pode significar muitas coisas ao mesmo tempo: produzir com menos impacto, profissionalizar negócios familiares, preservar recursos naturais, agregar valor, investir em tecnologia e abrir espaço para outras mulheres no setor.
Um prêmio para reconhecer quem transforma o campo
Por trás das dez trajetórias está uma seleção criada para identificar diferentes formas de inovação, sustentabilidade e liderança no agronegócio brasileiro. Idealizado pela Bayer e pela Abag, o Prêmio Mulheres do Agro chegou à 9ª edição com o propósito de dar visibilidade às produtoras rurais e pesquisadoras que contribuem para transformar o setor.
Criada em 2018, a premiação já reconheceu 85 mulheres. Em 2026, alcançou um recorde de 394 inscrições, ampliando uma trajetória construída em torno da valorização de boas práticas no campo e do desenvolvimento científico e tecnológico ligado à atividade agrícola. “Dar visibilidade a essas trajetórias é uma forma de reconhecer o impacto que as mulheres já geram no agro e, ao mesmo tempo, ampliar referências para quem está chegando ao setor”, afirma Daniela Barros, diretora de Comunicação da divisão agrícola da Bayer.
Para as produtoras rurais, a premiação é dividida em três categorias de acordo com o porte das propriedades: Pequena, Média e Grande Propriedade. A seleção não considera apenas produtividade ou resultados econômicos. Os trabalhos são avaliados a partir de critérios ambientais, sociais e de governança, entre eles uso racional dos recursos naturais, eficiência produtiva, saúde do solo e desenvolvimento das comunidades. Ao final desse processo, são escolhidas três produtoras de cada categoria, formando um grupo de nove premiadas, entre primeiras, segundas e terceiras colocadas.
A categoria Ciência e Pesquisa segue uma dinâmica diferente. Criada para reconhecer mulheres que impulsionam o avanço científico e tecnológico do agro, passa por uma avaliação técnica até chegar às finalistas. A escolha da vencedora inclui uma etapa de votação popular, processo que, nesta edição, levou Erika Valente de Medeiros ao primeiro lugar.
É assim que se chega às dez mulheres reconhecidas pela premiação: nove produtoras rurais, distribuídas entre pequenas, médias e grandes propriedades, e uma representante da ciência e da pesquisa. “As histórias premiadas mostram que a inovação no agro acontece de muitas formas, seja na gestão, na sustentabilidade, na ciência ou na relação com as comunidades. Esse reconhecimento ajuda a tornar essas experiências mais visíveis”, destaca Isabela Fagundes, especialista em comunicação na divisão agrícola da Bayer.
A proposta de colocar essas trajetórias em evidência encontra respaldo em um desafio que ainda acompanha as mulheres no campo: transformar participação e influência em reconhecimento de liderança. O estudo Produtoras rurais e a inovação no campo, realizado em 2025 pelo Instituto Quiddity em parceria com a Bayer, apontou que 78% das produtoras consideram que dar maior visibilidade à atuação feminina é determinante para ampliar a participação das mulheres na cadeia produtiva.
Há um paradoxo. Embora 93% das mulheres entrevistadas reconheçam a influência feminina no agro, quase 40% daquelas que ocupam posições de liderança nas propriedades não se identificam espontaneamente como líderes.
*A jornalista Lisiane Mossmann viajou a São paulo a convite da Bayer.