Quando discutimos a dificuldade das mulheres em captar investimento para suas startups, geralmente olhamos para o resultado final, sobre quanto dinheiro foi destinado a empresas fundadas por mulheres. Mas existe uma pergunta anterior que talvez seja ainda mais importante. Quantas delas conseguiram, de fato, chegar à mesa onde essas decisões são tomadas?
Captar investimento nunca depende apenas de ter uma boa ideia ou um negócio promissor. Existe uma rede de relacionamentos, indicações e conexões que determina quem conhece determinado fundo, quem consegue uma apresentação e quem terá alguns minutos para mostrar seu negócio. Quando as mulheres estão menos presentes nesses círculos, a desigualdade começa antes mesmo do primeiro pitch.
Chegar à mesa não é o mesmo que ser ouvida
Os números do Brasil ajudam a medir essa distância. Um levantamento do portal Startups, publicado em 2024, com os dez maiores fundos de venture capital do país que responderam à pesquisa, mostrou que, de R$1,49 bilhão investido, apenas 11,83% foram para startups com mulheres entre as fundadoras. No mesmo conjunto, elas apareciam em 176 das 901 empresas investidas, quase um quinto do portfólio. Mulheres somam praticamente 20% das empresas que conseguiram investimento e ficam com pouco mais de 10% do dinheiro. Chegar à mesa, quando acontece, ainda não significa sair dela com o mesmo cheque.
Acredito que existe outra dimensão desse problema sobre a qual ainda falamos pouco: o que acontece quando uma fundadora finalmente chega à mesa. Prissila Souto, conselheira do Ladies in Tech, fundadora da Stairs Consultoria e investidora de startups, já percebeu uma diferença nas próprias bancas de que participou. Ela vê que mulheres são frequentemente confrontadas com perguntas mais voltadas à prevenção, aos riscos e às possíveis perdas. Em uma dessas situações, viu uma fundadora apresentar números sólidos e ser interrompida com uma pergunta sobre o que aconteceria caso determinado cenário desse errado. Segundo ela, “A diferença não estava na apresentação. Estava nas perguntas”.
Não significa que mulheres só possam investir em mulheres. Significa reconhecer que nossas referências influenciam aquilo que enxergamos como oportunidade, risco e potencial.
Capital também é acesso
Ao acompanhar tantas empreendedoras no ecossistema de startups, percebo que o fundraising não começa quando o pitch deck está pronto. Começa muito antes, inclusive na possibilidade de uma mulher enxergar a captação como um caminho para o próprio negócio. Prissila conhece fundadoras com empresas sólidas e em estágio compatível com uma rodada que nunca buscaram investimento.
As razões variam entre falta de informação, receio de perder o controle do negócio e insegurança. Ela também observa que muitas chegam aos investidores por meio de instituições, editais, programas de aceleração e comunidades femininas de empreendedorismo. No Ladies in Tech, vejo de perto como essa circulação de informação e conexão entre mulheres pode encurtar caminhos que, durante muito tempo, estiveram restritos a redes pouco diversas.
O que mais me chama atenção no relato da Prissila é perceber que a desigualdade aparece em diferentes momentos do mesmo percurso: entre quem nem considera buscar capital, quem depende de uma rede para acessar investidores e quem, depois de finalmente chegar à sala, ainda precisa responder a questionamentos diferentes daqueles direcionados aos homens.
Se queremos mudar o percentual de capital destinado a fundadoras, precisamos olhar além do cheque. Precisamos mudar quem recebe a indicação, quem entra na sala, quem é ouvido e também quem tem poder para decidir. Afinal, antes de uma mulher receber um “sim” de um investidor, ela precisa ter tido a oportunidade de fazer a pergunta.
E se você chegou até aqui com um negócio de pé e nunca considerou buscar investimento, vale uma pergunta honesta: isso foi uma escolha sua ou foi só a ausência de alguém te dizendo que era possível? As duas respostas são legítimas. Só uma delas é decisão.
Aline Busch é empreendedora e co-fundadora do Instituto Ladies in Tech, primeira rede estruturada de apoio a mulheres empreendedoras em tecnologia do Rio Grande do Sul. Criadora da Softsec Lavanderia e da Colocker, startup de armários inteligentes, aborda temas sobre inovação, empreendedorismo feminino e mulheres na tecnologia.
