Aline Busch

Cansaço feminino vira incompetência; masculino, mérito

Aline Busch discute a pressão invisível que faz com que mulheres sejam avaliadas pelo que entregam e pela forma como se apresentam

No Brasil, 43% das mulheres ainda são as únicas responsáveis pelas tarefas domésticas e pelo cuidado de outras pessoas
No Brasil, 43% das mulheres ainda são as únicas responsáveis pelas tarefas domésticas e pelo cuidado de outras pessoas Foto : Magnific / Divulgação / CP

Outro dia vi uma publicação dizendo que normalizamos mulheres exaustas. Concordo com a afirmação, mas acredito que exista uma camada ainda mais profunda nessa discussão. Não basta estar exausta. A mulher precisa estar exausta e parecer bem. Precisa cumprir prazos, liderar equipes, resolver problemas, cuidar da família, administrar imprevistos e, ao mesmo tempo, transmitir a sensação de que está tudo sob controle.

Essa é uma expectativa silenciosa, mas muito presente no ambiente profissional. Homens costumam ser avaliados principalmente pelo que entregam. Mulheres, por outro lado, são frequentemente avaliadas pelo que entregam e pela forma como se apresentam enquanto entregam. Parece um detalhe, mas faz toda a diferença na forma como competência e liderança são percebidas.

Quando um homem aparece cansado em uma reunião, a leitura mais comum é que ele está trabalhando muito. Que está comprometido, assumindo responsabilidades importantes e se dedicando ao negócio. Quando uma mulher aparece cansada, muitas vezes a interpretação é outra. Surge uma dúvida implícita sobre sua capacidade de dar conta das demandas que tem pela frente.

Recentemente, ouvi da Paula Zavareze, fundadora da Zavareze Beauty, uma reflexão que deu uma nova dimensão a esse tema. Depois de anos acompanhando suas clientes, ela percebeu que poucas mulheres buscam parecer mais bonitas. O desejo mais comum é parecer menos cansadas. Talvez por isso o skincare tenha deixado de representar apenas estética e passado a simbolizar bem-estar e confiança.

Ela também observa que, enquanto nos homens os sinais do desgaste costumam ser associados à experiência, nas mulheres ainda existe a expectativa de que pareçam sempre descansadas e impecáveis. Isso me fez pensar que talvez o problema nunca tenha sido a aparência em si, mas a pressão para que a exaustão jamais fique visível.

Os dados ajudam a contextualizar essa realidade. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostra que as mulheres dedicam mais horas ao trabalho não remunerado e às atividades de cuidado do que os homens. No Brasil, 43% das mulheres ainda são as únicas responsáveis pelas tarefas domésticas e pelo cuidado de outras pessoas. Isso significa que muitas já começam o dia carregando uma jornada paralela que permanece invisível aos olhos do mercado.

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A gestão da imagem também é trabalho

Existe uma discussão importante sobre trabalho invisível que normalmente se concentra nas tarefas domésticas, no cuidado com filhos e familiares e na carga mental de organizar a rotina. Mas há uma outra camada chamada “gestão permanente da própria imagem”.

É o esforço constante para demonstrar energia quando se está cansada, segurança quando existem dúvidas e equilíbrio quando a pressão já ultrapassou os limites saudáveis. Em muitos contextos profissionais, especialmente nos espaços de liderança, parecer bem se torna parte do trabalho.

Ao longo da minha trajetória conectando mulheres líderes de startups e empresas de tecnologia, percebi que muitas compartilham a mesma sensação de que o cansaço precisa permanecer invisível.

Talvez a verdadeira mudança não aconteça quando as mulheres aprenderem a esconder melhor o cansaço, mas quando deixarmos de interpretá-lo como falta de competência. Enquanto continuarmos esperando que elas entreguem resultados e, ao mesmo tempo, aparentem controle permanente, seguiremos