Aline Busch

Em que momento começamos a duvidar de nós mesmas?

Aline Busch reflete sobre como estereótipos construídos ainda na infância atravessam a trajetória de mulheres na tecnologia e no empreendedorismo

As mulheres costumam se questionar se pertencem a alguns espaços, afirma Aline
As mulheres costumam se questionar se pertencem a alguns espaços, afirma Aline Foto : Divulgação / CP

No começo deste ano, fui mentora no Espaço Share, durante o Gramado Summit. Cheguei horas antes, sentei em uma cadeira e fiquei esperando, convencida de que ninguém apareceria. Sempre penso isso. Toda vez que meu nome está na programação de um evento, a primeira coisa que passa pela minha cabeça é que vou falar sozinha. Naquele dia, inclusive, eu já tinha me preparado para essa possibilidade.

Só que as pessoas começaram a chegar. Uma, depois outra, depois uma fila. Vieram porque queriam conversar sobre liderança, carreira e empreendedorismo. Perguntavam onde seria a mentoria e esperavam a vez para falar comigo. Eu, que minutos antes estava convencida de que ninguém apareceria, precisei segurar o choro.

Depois fiquei pensando de onde vem essa dúvida. Porque ela não faz sentido quando olhamos para a trajetória construída. E talvez a resposta seja justamente que a dúvida nem sempre nasce da nossa experiência. Muitas vezes, ela começa muito antes dela.

Um estudo publicado em maio de 2026 na Communications Psychology mostrou que crianças pequenas já esperam que professores tenham visões estereotipadas sobre interesses acadêmicos de meninos e meninas, associando, por exemplo, a engenharia mais aos meninos. Estamos falando de crianças que, ainda nos primeiros anos de formação, já começam a perceber quais áreas a sociedade parece considerar mais adequadas para cada gênero. Essas expectativas podem parecer sutis, mas ajudam a construir referências sobre quem pertence a determinados espaços e quem, desde cedo, pode começar a duvidar se aquele lugar também é para si.

Quando a dúvida chega antes da oportunidade

Depois daquele dia no Gramado Summit, pensei em quantas mulheres extremamente competentes ainda convivem com essa mesma sensação. Ao longo da minha trajetória conectando líderes, empreendedoras e profissionais de tecnologia, percebi que a dúvida sobre a própria capacidade aparece com frequência antes de um convite, de uma apresentação ou de uma nova oportunidade. Não por falta de competência, mas porque muitas de nós aprendemos, cedo demais, a questionar se realmente pertencemos àquele espaço.

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Por isso a discussão sobre representatividade seja muito mais profunda do que simplesmente aumentar o número de mulheres em determinados ambientes. Precisamos criar referências que permitam que meninas e mulheres se enxerguem nesses lugares antes mesmo de precisarem provar que merecem estar ali.

Em 2026, a Unesco voltou a chamar atenção para esse desafio, mostrando que mulheres representam apenas 35% dos graduados em áreas STEM, como ciência, tecnologia, engenharia e matemática. O número ajuda a mostrar que talento nunca foi o problema. Ainda existem barreiras culturais, estereótipos e expectativas que influenciam as escolhas muito antes da entrada no mercado de trabalho.

Referências também constroem possibilidades

Quando uma menina vê uma mulher criando uma empresa de tecnologia, liderando uma equipe ou desenvolvendo uma solução inovadora, ela recebe uma mensagem que vai além daquela história individual. Ela entende que aquele caminho também pode ser dela.

Todos os dias, ajudo a construir uma rede em que mulheres se tornam referência umas para as outras. No Ladies in Tech, vejo isso acontecer de perto: uma reconhece na história da outra possibilidades que talvez ainda não tivesse considerado e, de repente, se permite querer mais. É assim, uma referência de cada vez, que ampliamos o imaginário sobre quem pode empreender, liderar e inovar.

Espero que a próxima geração de meninas não precise passar tantos anos desaprendendo os limites que lhes foram ensinados tão cedo. Que elas possam crescer sem associar inteligência, tecnologia ou liderança a um gênero específico. Talvez nossa responsabilidade hoje seja justamente essa: criar tantas referências que, no futuro, uma menina de seis anos nunca tenha motivos para duvidar de que também pode ser brilhante.

Aline Busch é empreendedora e co-fundadora do Instituto Ladies in Tech, primeira rede estruturada de apoio a mulheres empreendedoras em tecnologia do Rio Grande do Sul. Criadora da Softsec Lavanderia e da Colocker, startup de armários inteligentes, aborda temas sobre inovação, empreendedorismo feminino e mulheres na tecnologia.