Aline Busch

O que aprendi com a capacitação para 50 mulheres no LIFT

Cofundadora do Ladies in Tech, Aline Busch compartilha lições do programa que ajudou gaúchas a recuperar negócios e autoestima após as enchentes

Cinquenta mulheres foram selecionadas para uma jornada de mentorias em grupo, com dois encontros por semana
Cinquenta mulheres foram selecionadas para uma jornada de mentorias em grupo, com dois encontros por semana Foto : Pimenta filmes / Divulgação / CP

Quando a enchente atingiu o Rio Grande do Sul em 2024, eu achava que entendia o tamanho do estrago. Via as imagens, acompanhava os números, conhecia histórias. Mas foi só quando me sentei frente a frente com as 120 empreendedoras que passaram para a fase de entrevistas do LIFT que entendi de verdade: a água levou muito mais do que estrutura física. Levou rotina, renda e planejamento de mulheres que já empreendiam com pouquíssima margem para recomeçar.

O LIFT, sigla para Ladies Innovation & Founders Training, é o programa de aceleração do Ladies In Tech para mulheres empreendedoras. Naquela primeira edição, por conta do edital do TrilhaRS, ele ganhou um foco específico: acelerar mulheres do Rio Grande do Sul cujos negócios foram atingidos pela enchente.

Selecionamos 50 delas para uma jornada de mentorias em grupo, com dois encontros por semana, dividida em quatro módulos: Autovalorização da Mulher, Gestão Financeira, Marketing, e Renda e Rede. No papel, era um projeto de capacitação. Na prática, virou uma das maiores lições da minha trajetória, como empreendedora e como pessoa.

Veja Também

A primeira coisa que aprendi é que ninguém reconstrói um negócio sem antes se reconstruir. Não foi por acaso que começamos pela autovalorização. Muitas dessas mulheres chegaram carregando a culpa de não terem conseguido proteger o que construíram, como se fosse possível se proteger de uma enchente daquela proporção. Antes de falar de fluxo de caixa ou de estratégia de vendas, a gente precisou falar de merecimento. E, quando essa chave vira, o resto destrava.

A segunda foi que nem todo mundo começa do mesmo lugar, e fingir que sim é uma forma de exclusão. Depois dos 50 diagnósticos individuais, ficou impossível tratar aquele grupo como um bloco. Havia mulheres recomeçando quase do zero, sem saber quanto custava o próprio produto. E havia outras mulheres com negócios estruturados antes da enchente, querendo reposicionar.

Se eu colocasse todas na mesma sala com o mesmo conteúdo, perderia as duas pontas: a primeira sentiria que não era para ela; a segunda, que estava perdendo tempo. Então dividimos por momento, não por setor: uma turma de reconstrução, uma de estruturação. E aí o conteúdo pegou. A lição que levo para vida: acolher a realidade de cada uma não é abrir mão do rigor. É a única forma de o rigor caber.

A terceira me surpreendeu, e diz respeito a você que talvez ache que "isso de tecnologia não é para mim". No meio do programa, várias delas começaram a usar inteligência artificial. Não porque a gente deu uma aula de IA, mas porque, ao ganharem um empurrão de confiança, foram lá e experimentaram. Usaram o ChatGPT para calcular preço, organizar as finanças, escrever um texto de venda.

Microempreendedoras, muitas sem intimidade nenhuma com tecnologia, atravessaram uma barreira que parecia intransponível no primeiro encontro. A barreira, quase sempre, nunca foi a ferramenta. Foi a permissão de se sentir alguém que pode usar a ferramenta.

E isso não é percepção minha. A gente mediu. Foram 29 indicadores, do começo ao fim: 81,25% de evolução em Gestão Financeira, 66,67% em Comunicação e Vendas, 55,68% em geração de oportunidades para outras pessoas. 94,6% das participantes aplicaram na prática o que aprenderam, 73% acessaram novos clientes ainda durante o programa e 100% disseram que as mentorias foram úteis para tomar decisões. Não são mulheres que "assistiram a um curso". São mulheres que mudaram a forma de tocar o próprio negócio.

O que eu vi em 50 mulheres recomeçando do zero é a mesma coisa que eu vejo em mulheres que aparentemente têm tudo: o que trava raramente é capacidade. É permissão, é acesso, é a história que a gente conta para si mesma sobre quem tem direito de querer mais. A diferença entre a mulher que cresce e a que fica não costuma estar na competência. Está em ter, ou não, alguém que pergunta o que você quer construir, e espera a resposta.

O maior resultado do LIFT não foi ensinar ninguém a administrar melhor um negócio. Foi devolver a direção para mulheres que estavam tentando recomeçar sozinhas. E se isso vale para quem perdeu tudo numa enchente, vale, e muito, para você, que não perdeu nada, mas anda há tempo demais esperando o momento certo para recomeçar alguma coisa que nunca deixou de ser sua.

Aline Busch é empreendedora e co-fundadora do Instituto Ladies in Tech, primeira rede estruturada de apoio a mulheres empreendedoras em tecnologia do Rio Grande do Sul. Criadora da Softsec Lavanderia e da Colocker, startup de armários inteligentes, aborda temas sobre inovação, empreendedorismo feminino e mulheres na tecnologia.