Lu Brito

Quando a empreendedora prospera, fortalece a aldeia inteira

Lu Brito analisa o impacto geracional das redes de apoio lideradas por mulheres e destaca o trabalho do Centro de Oportunidades do Mário Quintana

O fundador do COMQ, Marco Antônio Marchi (agachado, à direita), reúne grupo de empreendedoras do território Mário Quintana, em Porto Alegre
O fundador do COMQ, Marco Antônio Marchi (agachado, à direita), reúne grupo de empreendedoras do território Mário Quintana, em Porto Alegre Foto : Lu Brito / Arquivo Pessoal / CP

Calma, eu sei que poderia estar falando de empreendedorismo voltado para a Copa do Mundo ou Festa Junina, mas, como há muitos conteúdos olhando para isso, quero destacar aqui projetos e movimentos que estão gerando um impacto real. Por isso, meu assunto hoje é o empreendedorismo social.

Diferentemente da empreendedora tradicional, que nasce para atender a uma demanda de mercado, a empreendedora social começa pela dor de uma comunidade, de um território. Primeiro ela identifica um problema, mobiliza as pessoas, cria oportunidades e, como consequência, gera renda e transforma a sua própria história, com foco no desenvolvimento e no pertencimento.

Não por acaso, o Brasil tem se consolidado como um terreno fértil para esse modelo de negócio. Organizações como a Rede Mulher Empreendedora (RME), fundada por Ana Fontes, já impactaram milhões de brasileiras por meio da capacitação, do acesso ao mercado de trabalho e do fortalecimento da autonomia financeira, provando que desenvolvimento econômico e impacto social podem — e devem — caminhar juntos.

Os números consolidam a dimensão desse trabalho da RME: são quase 4 milhões de mulheres impactadas diretamente; 15,6 milhões de pessoas alcançadas (considerando as famílias das participantes, pois é sobre isso que falamos quando o assunto é mudança geracional); e mais de R$ 52 milhões repassados em recursos, capital-semente e fomento.

É importante lançar esse olhar para fora do nosso eixo RS em busca de ideias e inspiração, mas, como vocês sabem, o meu papel aqui é trazer histórias e olhar para aquilo que acontece perto de nós, na nossa região, em Porto Alegre.

O movimento social do Mário Quintana

Estou falando do território Mário Quintana e de um movimento novo que vem se consolidando e merece a nossa atenção. Liderado pelo jovem empreendedor social Marco Antônio Marchi, diretor e fundador do Centro de Oportunidades do Mário Quintana (COMQ), a proposta vai além de desenvolver negócios: o objetivo é fortalecer as pessoas, conectar empreendedores locais e fazer com que a própria comunidade seja protagonista do seu desenvolvimento econômico.

Alguns dados importantes sobre esse ecossistema em construção: 58% dos negócios são liderados por mulheres negras ou pardas; 27% por mães solo ou principais responsáveis pelos filhos. A maioria atua no microempreendedorismo, com força nos setores de alimentação, moda, beleza, artesanato e serviços.

Até hoje, mais de R$ 5 mil já foram gerados no projeto “Empreende MQ - Feira de Empreendedores do COMQ”. "Mais do que gerar renda, o COMQ fortalece a autonomia econômica, a visibilidade e o acesso a oportunidades para mulheres da periferia", relata Marco.

Perguntei a ele o que o motivou a empreender nesse setor. A resposta define o propósito:

“O que me inspirou a me tornar um empreendedor social foi, principalmente, a falta de acesso. Durante boa parte da minha vida, não tive muitas portas abertas, mas algumas oportunidades chegaram até mim e foram fundamentais para o meu desenvolvimento pessoal e profissional."

“Foi a partir disso que entendi o poder que uma chance tem na vida de alguém. Criei o COMQ para ampliar o acesso de jovens que, assim como eu, só precisam de uma oportunidade para transformar suas trajetórias. Dentro desse trabalho, uma causa que me move muito é o empreendedorismo feminino, olhando para a realidade da minha própria família: minha mãe e minhas avós não tiveram, no passado, as condições necessárias para desenvolver seus negócios. Sonhos foram adiados ou nunca saíram do papel.”

Essa talvez seja a maior característica dos empreendedores sociais: eles não esperam as condições perfeitas. Começam com o que têm, mobilizam quem está ao lado e constroem soluções coletivas — exatamente como tem sido feito no COMQ, potencializando mulheres que empreendem dentro de seus próprios territórios.

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Mulheres fortalecendo comunidades

Assim como a imagem desta coluna nos lembra de que, no coletivo, vamos mais longe, eu, Lu Brito, faço um convite especial às mulheres.

Historicamente, somos nós que sustentamos redes de apoio, organizamos comunidades, acolhemos famílias e encontramos caminhos onde quase ninguém enxerga saída. Talvez por isso tantas mulheres estejam liderando negócios de impacto pelo país: elas compreenderam que empreender pode ser, também, um ato de cuidado e de libertação.

Quando uma mulher prospera, ela fortalece sua família, a sua base. Quando uma mulher empreendedora social prospera, ela fortalece uma aldeia inteira.

Tenho acompanhado no campo iniciativas que mostram exatamente isso: pequenos negócios que movimentam economias locais, capacitam jovens, geram autoestima e devolvem esperança a lugares que, durante muito tempo, foram lembrados apenas pelos seus desafios.

Poder apresentar essas histórias a vocês é o que me move. Empreender socialmente é, acima de tudo, deixar um legado. Por isso, sigam acreditando, informem-se e busquem dados sobre este setor. Não subestimem o empreendedor social: ele está muito atento ao mercado e sentado em mesas de decisão que vocês nem imaginam.

Dica de leitura

📚Nada é definitivo, de Luanda Vieira (um olhar fundamental para a tomada de decisões em nossa jornada). Vale a leitura! E aí, me contem: conhecem algum projeto que eu precise visitar e trazer para cá? Comentem abaixo! Até logo, minhas leitoras!

Lu Brito é mãe, empreendedora há mais de nove anos e CEO do espaço kids Gurizada Faceira. Atua como gestora de projetos e comunidade no ecossistema de inovação, gestora de projetos na B2Mamy e mentora de startups. Também é líder de inovação e articulação na Odabá - Associação de Afroempreendedores do RS.