Aline Busch

Invisibilidade feminina em tecnologia começa antes do topo

Aline Busch analisa por que mulheres provam autoridade em tecnologia e como ampliar o número de fundadoras exige mudança cultural desde a base

A colunista afirma que mulheres precisam ser mais ouvidas na área
A colunista afirma que mulheres precisam ser mais ouvidas na área Foto : Magnific / Divulgação / CP

Quando falamos sobre desigualdade de gênero no ecossistema de tecnologia, frequentemente olhamos para o topo. Quantas mulheres fundaram startups? Quantas ocupam cargos de liderança? Quantas estão nas mesas de investimento? São perguntas importantes, mas talvez estejamos começando a discussão pelo final.

A invisibilidade feminina não nasce quando uma mulher decide fundar uma empresa. Ela começa muito antes. Está nas equipes técnicas em que sua opinião é questionada com mais frequência, nas reuniões em que uma ideia só ganha atenção depois de ser repetida por um homem e nas situações em que ela precisa demonstrar conhecimento várias vezes até que sua autoridade seja reconhecida.

Quando estar à frente não é suficiente

Eu vivi isso de uma forma muito concreta no início da Colocker, um dos meus negócios. Em determinado momento, percebi que precisava levar meu pai comigo para algumas reuniões para ser mais ouvida. Em uma delas, conversávamos com um possível fornecedor e, mesmo sendo eu quem fazia as perguntas e conhecia o sistema, todas as respostas eram direcionadas a ele.

Meu pai era praticamente um figurante naquela conversa. Não dominava os detalhes do sistema e estava ali apenas me acompanhando. Ainda assim, para aquele fornecedor, parecia mais natural reconhecer nele a figura de autoridade.

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Essa experiência ficou comigo porque mostra como a invisibilidade pode acontecer mesmo quando a mulher é fundadora, conhece o produto e está conduzindo a negociação. Não faltava cargo, conhecimento ou responsabilidade. Faltava, do outro lado da mesa, o reconhecimento automático de que aquela mulher poderia ser a pessoa que tomava as decisões.

Não basta mudar os números

Os números mostram que ainda há um longo caminho pela frente. Dados atualizados em fevereiro de 2026 pelo Observatório Sebrae Startups indicam que mulheres estão presentes no quadro societário de apenas 18% das startups cadastradas na plataforma, percentual próximo ao identificado pela Associação Brasileira de Startups. Mas aumentar o número de mulheres fundadoras não resolve sozinho um problema construído muito antes de elas chegarem ao topo.

Precisamos olhar para o que acontece dentro das empresas. Quem é ouvido nas reuniões? Quem recebe crédito pelas ideias? Quem é visto como referência técnica? Quem precisa provar constantemente que sabe o que está fazendo? Se você leu essas perguntas e reconheceu a si mesma em pelo menos uma, não é coincidência. É padrão.

Se queremos mais fundadoras, CTOs, investidoras e líderes de tecnologia, precisamos garantir que as mulheres que hoje estão começando suas carreiras sejam vistas, ouvidas e reconhecidas. Porque a representatividade no topo não começa quando uma mulher abre uma empresa. Começa muito antes, no momento em que sua voz é tratada com a mesma legitimidade de qualquer outra dentro da sala.

Aline Busch é empreendedora e co-fundadora do Instituto Ladies in Tech, primeira rede estruturada de apoio a mulheres empreendedoras em tecnologia do Rio Grande do Sul. Criadora da Softsec Lavanderia e da Colocker, startup de armários inteligentes, aborda temas sobre inovação, empreendedorismo feminino e mulheres na tecnologia.