Rural

Futuro da produção de leite no RS é incerto

Com queda no número de produtores e alta nos custos, a falta de sucessores na atividade coloca em risco a continuidade da cadeia gaúcha

Enquanto alguns custos avançam, o preço recebido pelo produtor não acompanha a mesma trajetória
Enquanto alguns custos avançam, o preço recebido pelo produtor não acompanha a mesma trajetória Foto : Alina Souza / CP Memória

Em um Estado que produz cerca de 4,1 bilhões de litros de leite por ano e movimenta mais de R$ 10,7 bilhões anuais com o produto, há um desafio que atravessa gerações: quem continuará produzindo nas próximas décadas?

O mais recente Relatório Socioeconômico da Cadeia Produtiva do Leite no Rio Grande do Sul, elaborado pela Emater/RS-Ascar em 2025, mostra que a atividade passa por um intenso processo de transformação. Embora a produtividade por animal tenha crescido 42,6% na última década, o volume total de leite produzido no RS recuou 10,7% entre 2015 e 2025.

Já o número de criadores de gado leiteiro caiu 12,3%, entre 2023 e 2025, passando para 28,9 mil. No mesmo período, o rebanho destinado à produção de leite também encolheu, de 769,8 mil para 742,5 mil vacas.

A permanência na atividade leiteira exige investimentos constantes. Em maio deste ano, a Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) divulgou relatório apontando que o Índice de Insumos para Produção de Leite Cru encerrou abril com inflação de 2,69%. Entre os principais fatores responsáveis pela alta dos custos estão o aumento de 12,8% nos fertilizantes e a elevação de 2,3% nos combustíveis, influenciada pela valorização do petróleo no mercado internacional. Os gastos com energia elétrica também registraram aumento expressivo de 30,6%.

Enquanto alguns custos avançam, o preço recebido pelo produtor não acompanha a mesma trajetória. Segundo a Farsul, o valor pago pelo leite caiu cerca de 10%, em ritmo superior à redução observada em alguns insumos. O valor médio pago pelo litro ao produtor gaúcho é de R$ 2,48, conforme o último levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea-Esalq) da USP, com maio como mês de referência.

Sentimento de desvalorização

Entre os que sentiram o peso dos custos e entenderam que a remuneração não valia a pena, está Carlos Rebelato, de Palmeira das Missões.

“Tenho 43 anos. Eu lido em uma propriedade de 7 hectares. O que mais me fez parar foi a motivação. No caso, o preço que não motiva. Não tem como continuar. Preço muito ruim, a gente trabalha só para trabalhar, enquanto os grandes estão ganhando o preço melhor”, declara.

Ele atua ao lado da esposa e segue com o cultivo da soja, mas lamenta a decisão de deixar a atividade leiteira por conta do baixo retorno financeiro e do sentimento de desvalorização do produto nacional.

“É triste a realidade, mas não tem o que fazer. Quem está na lida hoje, o produtor velho, nem os filhos dele querem ficar aqui. Estão indo para a cidade. Não querem ficar, porque não motiva. Então, vai chegar um ponto que eu acho que vai ficar muito pouco produtor, porque eles continuam importando leite de fora, não valorizam daqui”, reclama, citando a importação de leite em pó da Argentina e do Uruguai, com valor abaixo do praticando nacionalmente.

No início deste mês Marlei Gutowski foi outra que desistiu. Vendeu as últimas vacas após 29 anos comercializando para cooperativas e queijarias na região de Centenário, no Norte do Estado. A produtora tomou a frente dos negócios após problemas de saúde do marido, com quem trabalhava. Os filhos não quiseram seguir com o trabalho por considerarem o mercado pouco atrativo e bastante instável.

“Sozinha era muito difícil. Chega um ponto em que não conseguimos, pois é uma atividade diária e a idade pesa”, explica a produtora.

O baixo retorno também contou para a decisão. “O que a gente vê é a questão dos preços. Ninguém tem muito interesse. Nas pequenas propriedades, temporadas em que o custo é alto e o lucro é baixo desestimula. Para que trabalhar em uma atividade com pouco retorno? Aqui na nossa região praticamente todos pararam, não tem quase ninguém.” Futuramente, ela espera seguir no campo, mas de forma diferente, direcionando a produção para a subsistência, comercializando apenas milho e soja.

“Criar animais, ter horta, frutas, talvez uma vaca, mas tudo para a nossa alimentação”, resume.

Entre persistir e resistir: o dilema das famílias

A principal dificuldade apontada pelos estabelecimentos agropecuários produtores de leite no Relatório Socioeconômico da Cadeia Produtiva da Emater/RS-Ascar se refere ao descontentamento em relação à remuneração, abrangendo 14.334 unidades (49,52%). Em seguida, aparece a dificuldade de mão de obra mencionada por 14.280 estabelecimentos (49,33%). Já o elevado custo de produção é a resposta de 13.236 (45,73%).

Outro elemento em destaque é a falta de descendentes ou o desinteresse na continuidade da atividade, somando 11.795 estabelecimentos (40,75%). Além de influenciar diretamente a disponibilidade de mão de obra, esse dado sinaliza desafios no que se refere à sucessão familiar.

Fernando Thomas Piper, de 23 anos, trabalhou na propriedade dos pais, na ordenha de aproximadamente 40 vacas, até cerca de um ano atrás, quando deixou a produção, segundo ele, devido a diferentes fatores.

“Desde que eu me conheço por gente, eu trabalhei com os meus pais nesse ramo. Teve um pequeno momento que eu acabei saindo, mas foi porque a gente teve um surto de leptospirose dentro da propriedade. Acabamos perdendo muitos animais. A gente não pôde vender leite por um bom tempo, por causa dos antibióticos que usamos. Na época, sobraram 13 vacas, produzindo em torno de 30 litros juntas. Então a coisa apertou e eu acabei indo trabalhar em uma fábrica de ração.”

Entretanto, a doença foi apenas parte do problema. Piper afirma que os custos crescentes e a ausência de sucessores acabaram tornando inviável a continuidade da atividade. “Eu deixei a produção de leite muito em virtude do alto custo, porque meu pai e minha mãe já não são mais pessoas jovens. Acho que esse foi um dos principais motivos, que eu ficaria totalmente sozinho. E hoje, se tu quer seguir com a produção de leite, o mercado está levando quase todo mundo ao confinamento.”

A propriedade está localizada no interior de Campinas das Missões e o leite comercializado na região constituía a principal fonte de renda da família. “Os principais problemas que a gente enfrentou nos últimos anos foram, com certeza, o baixo preço do leite e o alto preço dos insumos que a gente precisava, tanto de semente, silagem, dá para incluir até mesmo o combustível e o preço de maquinários e implementos”, explica Piper, que é médico-veterinário, pós-graduado em clínica de bovinos de leite.

Ao deixar a produção, atuou na assistência técnica de uma cooperativa. Há cerca de um mês, o rebanho da família foi vendido.

“A gente fica sempre com a consciência pesada na hora de vender os animais, porque esse foi um negócio que sustentou a nossa família. Mas a gente fez uma escolha e, no fim das contas, eu acho que foi bom para todos (ele e os pais)”, conta.

Segunda geração

O sucessor da família Miecznikovski, Samuel, de 24 anos, observa os mesmos problemas relacionados aos custos e ao valor pago pelo litro do leite, mas “vai tocando” o trabalho que começou há 25 anos com o pai, Luiz, no município de Centenário. “Fazemos o melhor possível para atravessar os desafios. Mantemos alimento armazenado para os momentos de necessidade”, conta.

O gosto pela lida começou cedo, acompanhando os pais na atividade.

“Desde pequeno, estava sempre junto, vendo eles trabalharem e tive vontade de continuar. Peguei gosto e agora estou tomando a frente, às vezes trabalho sozinho.”

A produção das vacas criadas no sistema de pasto é comercializada para empresas de laticínios na região de Santa Maria. Miecznikovski não tem conhecidos que deixaram de produzir e pretende seguir na atividade, pois avalia um retorno maior em comparação com a lavoura da família, que está inscrita no programa Terra Forte da Emater/RS-Ascar.

“Em comparação com a lavoura, tem sido mais rentável. No futuro, pensamos em alternativas para diminuir os custos e expandir. O programa vai ajudar em grande parte para recuperação de solo, das áreas de pastagem, tanto quanto na área de silagem, que nós usamos para as vacas. O que, querendo ou não, diminui um pouco o custo e melhora, aumenta a nossa produção”, explica.

Rebanho da família de Eliziane Moreira de Oliveira produz 800 litros diários em Palmeira das Missões | Foto: Eliziane Moreira de Oliveira

Da cidade ao campo

Nem sempre a sucessão está no campo. Eliziane Moreira de Oliveira, de 27 anos, trabalha com os sogros e o marido em Palmeira das Missões. Há cerca de 6 anos, ela se mudou da área urbana para a propriedade rural, onde hoje atua na produção de cerca de 800 litros diários.

“Para continuar está bem difícil, mas não queremos parar. Vamos lutando. Todo mundo está numa fase difícil”, avalia.

O rebanho é criado no sistema pasto e é composto por cerca de 30 fêmeas, sendo 27 em lactação. Desde 2023, a família tem investido na inseminação, buscando melhoramento genético e aumento da produção. Em momentos de gastos elevados, costumam vender animais para pagar as contas, mas há também a organização financeira. “A gente tenta sempre manter as contas em dia para não ir para o vermelho. As vacas vendidas (funcionam como) uma reserva para emergência da propriedade”, explica.

Eliziane conta que gosta da atividade no campo e pretende seguir na produção, mas conhece muitos produtores que não conseguiram dar continuidade ao trabalho.

“Nosso plano é continuar e fechar (com) as vacas. O objetivo é seguir com a inseminação e melhorar a genética.”

‘Desistir não é uma opção’, afirma produtora

Em meio aos desafios que pressionam a pecuária leiteira gaúcha, ainda há quem aposte na continuidade e invista no futuro da propriedade. Este é o caso da produtora de Cândido Godói, no Noroeste do Estado, principal região leiteira do país, de acordo com estudo lançado pela Embrapa Gado de Leite, Aline Janaína Schreder assumiu a propriedade dos pais, ao lado do marido, há cerca de cinco anos. Atualmente, o casal trabalha sozinho na produção de leite e administra um rebanho com aproximadamente 30 vacas no sistema de pasto.

A propriedade comercializa leite in natura para a Agroindústria Konzen, localizada em Salvador das Missões. Segundo Aline, o período recente tem sido marcado por investimentos em qualidade.

“Desde que tomamos a frente aqui, a gente está em uma onda alta de investimentos. Então, se tem alguém que sentiu muito tudo isso (alta nos custos de produção) foi a gente.”

A produtora afirma que as despesas têm crescido em ritmo superior às receitas. Para quem vê de fora, fica difícil entender o motivo da persistência. “Porque é aquela questão que a gente vai fazendo o giro disso. A gente não só trabalha com isso”, explica.

Os investimentos no rebanho são prioridade para Aline, que busca ampliar a produção de cerca de 22 mil litros mensais, apostando em novilhas. “Na verdade, acaba sobrecarregando mais a nossa mão de obra, porque, como estamos aumentando o número de animais, querer reduzir alguma coisa não é viável.”

Os desafios de se manter na atividade ultrapassam os números e atingem a vida dos trabalhadores de forma emocional.

“(Sobre a) questão do preço, hoje em dia, a gente tem recurso do banco. Essas coisas mexem muito mais com o psicológico da gente. Tu tem que estar articulando. Tem que estar pensando, não pode se desesperar. É uma pressão, assim, alta. Várias vezes, a gente chegou na conversa: ‘será que isso realmente não dá? O que nós vamos fazer? Vamos vender tudo? Mas hoje vender tudo não paga nem todos os investimentos.’ E daí a outra questão: vai para onde? Fazer o quê?”, questiona a produtora de 27 anos.

Mesmo diante das adversidades, muitas inerentes ao ofício, que envolve dedicação constante aos rebanhos e a dependência do clima, Aline diz que não conhece quem tenha desistido da profissão. Ela mesma descarta a possibilidade. “O nosso lema aqui é não desistir. Apesar de estar sempre nesses desafios, a gente fala muito que desistir não é uma opção.”

Em meio aos desafios, ainda há quem aposte na continuidade e invista no futuro da propriedade | Foto: Aline Janaína Schreder / Divulgação / CP

O que pode mudar o cenário da falta de mão de obra

Para o secretário-executivo do Sindicato da Indústria de Laticínios do Rio Grande do Sul (Sindilat), Darlan Palharini, a sucessão rural está diretamente ligada à transformação da atividade. Segundo ele, a produção leiteira possui uma característica que dificulta a permanência dos jovens no campo. “Atividade leiteira tradicional, ela tem bastante aplicação de esforço físico”, diz.

Assim, uma possível solução seria a implementação de tecnologias, visando não apenas a automação da produção, mas servindo como um atrativo para os jovens.

“Eu acredito muito nessa questão da dificuldade da sucessão ou até para que possa manter o jovem na atividade, porque essa geração não quer acordar às 5h da manhã para ordenhar os animais. Então, o robô tem essa característica. É claro que os investimentos são altos, então você precisa ter um nível de produtividade significativo ou mesmo outros sistemas de ordenha que são mais automatizados.”

A mudança no modelo de produção também é apontada por Palharini como uma alternativa para incentivar a permanência das novas gerações no campo. “O que tem ocorrido que acaba segurando o jovem é mudar o modelo de produção de leite, de ser a pasto. Grande parte das propriedades hoje, com volume maior, elas têm trabalhado com gado confinado, então isso também diminui a mão de obra, mas de outro lado tem um aumento de custo de produção, claro que você acaba tendo uma produtividade maior por animal. Então, é desafiador, não é uma questão de uma solução fácil e isso não é uma situação só no Rio Grande do Sul, no Brasil todo, diria que até no mundo todo tem essa dificuldade, por justamente a atividade leiteira ter essa questão de compromisso diário, e que de certa forma ameniza com a aquisição ou a implantação do sistema robotizado na ordenha”, observa o dirigente.

Dentro do setor, empresas e cooperativas têm desenvolvido programas voltados especificamente para os sucessores rurais, como explica o secretário-executivo.

“Muitas cooperativas têm esse trabalho na questão da formação de novos líderes. O jovem acaba atraído a ficar na atividade leiteira se efetivamente ele conseguir ter um gerenciamento”, esclarece.

O secretário explica que, desde o ano passado, a produção tem aumentado, mesmo com a saída de produtores. “Diferente de 2025, mesmo que a gente pegue de janeiro a abril de 2025, e compare com janeiro, abril de 2024, a produção de 2025 é superior. Então, ela vem num crescente, que também, em 2024 e até o início do segundo semestre de 2025, tinha uma situação de preço bastante favorável. Então, estava o cenário perfeito, aumento de produção, e preço remuneratório bom para o produtor. Esse cenário acabou mudando, a partir de agosto e setembro de 2025. Ele foi até janeiro de 2026, em questão de preço, mas, mesmo assim, a produção não diminuiu, como em anos anteriores, quando baixava o preço, a gente tinha sempre uma queda de produção bastante significativa. Então, isso mostra a questão da profissionalização do setor, importante nesse sentido. Mas o mercado está, dessa maneira, muito afetado com o aumento de importação que tem da Argentina e do Uruguai. Isso acaba influenciando no preço dos derivados, principalmente do leite em pó. As indústrias de chocolate, grandes indústrias de bolachas, acabam comprando leite em pó importado e não nacional”, salienta ele.

A perspectiva para os próximos meses do ano é o equilíbrio dos preços, em que as margens de resultado para produtores e indústrias é ajustada, com foco na eficiência produtiva dos rebanhos, como prevê Palharini.

“Então é esse aspecto de torcer para que efetivamente nós não tenhamos um impacto forte de El Niño que o pessoal tem comentado, que isso acaba botando mais uma dificuldade dentro do processo, mas a sinalização que a gente tem, a média a longo prazo da atividade é positiva.”

A sucessão no setor leiteiro gaúcho não depende apenas da vontade dos filhos de produtores. Ela está ligada à rentabilidade da atividade, ao acesso à tecnologia, à qualidade de vida no campo e à capacidade de profissionalização.

*Sob supervisão de Karina Reif