Rural

Mesmo com El Niño, Brasil deve colher supersafra

Professor do FGVAgro estima que perdas não passem de 10% e tendência é que oferta de arroz não seja afetada

Professor Eduardo Assad fala dos impactos do clima no agronegócio
Professor Eduardo Assad fala dos impactos do clima no agronegócio Foto : Léo Barrilari/ Divulgação / CP

O pesquisador da Embrapa e professor do FGVAgro Eduardo Delgado Assad estima que as perdas no setor de grãos na safra 2026 /27 com o fenômeno climático El Niño não devam passar de 10% do volume no país. “Em 1997 foi um dos El Niños mais severos e estamos talvez caminhando para uma situação como esta”, afirmou nesta quinta-feira, durante o 3º Encontro de Jornalistas: Impactos Econômicos e Sociais pelas Mudanças Climáticas no Brasil, organizado pelo Instituto Clima e Sociedade, em São Paulo,

Ele comparou o atual cenário com o ciclo de 2023 e 2024, quando a produção de soja e milho caiu 10%. “Não vai acabar a supersafra brasileira, porque os eventos que nós tivemos até hoje mostram que, em situação crítica, nós podemos chegar a 10% (de perdas), que são 32 milhões de toneladas e é muita coisa. Não vamos perder tudo isso”, projetou. Para ele, a cultura do arroz, por exemplo, não deve sofrer grandes impactos, a não ser que o volume de chuvas no Rio Grande do Sul aumente muito além do previsto.

Segundo o último levantamento da Conab, a produção de grãos da safra 2025/26 está estimada em 360,1 milhões de toneladas, volume 2,2% superior ao registrado na temporada passada, o que representa um acréscimo de 7,8 milhões de toneladas de grãos a serem colhidos.

Análises de riscos climáticos

Para o pesquisador, a situação no Rio Grande do Sul é ainda mais complexa do que em outros estados. “Em todas as análises de risco climático, no Brasil, inclusive em um levantamento de 2010 até 2024, a região mais crítica no Brasil, independente do El Niño, para a soja é o Rio Grande do Sul.”

Segundo ele, os produtores argumentam que, mesmo com produtividade baixa, a distância para o porto (de Rio Grande) é pequena, o que justificaria seguir investindo na oleaginosa. “No meu entendimento, não justifica”, sugerindo diversificação de culturas.

Em função de o Estado ter dois períodos chuvosos no ano, a análise de risco é mais difícil, observou. “O que me assusta no Rio Grande do Sul não é o El Niño, o que me assusta é o La Niña. Eu vi áreas enormes dizimadas por conta da temperatura elevada. Então, talvez seja necessário fazer um estudo mais detalhado, e isso não é para hoje nem para amanhã, sobre uma nova geografia da produção no Estado”, declarou,

Ele indica o investimento na produção de frutas. “Em 2007, nós dizíamos que o RS tinha uma boa condição para a produção de café, por exemplo. Então, estão surgindo opções. Tem muita gente convertendo produção de soja e milho para a produção de fruta, mas tem espaço para a soja e para o milho. O problema é dizer onde.”

Na avaliação de Assad, o meio acadêmico científico e as entidades do setor devem focar as pesquisas em zoneamento agrícola, redimensionando o espaço de produção no Rio Grande do Sul para que o estado lide melhor com os fenômenos cada vez mais frequentes.

Nesse sentido, o coordenador FGVAgro, Guilherme Bastos, que também participou do encontro, avaliou que uma indução de mudança tecnológica ou até de culturas que devem ser mais adaptadas é também um papel os seguros agrícolas.

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