Rural

Por que o RS é vice-lanterna em produtividade de soja

Na safra 2025/26, o Estado só conseguiu um desempenho superior à sojicultura do Amapá. As frequentes estiagens prejudicam o desempenho, mas não explicam tudo

Se a performance gaúcha fosse igual à nacional, teriam sido colhidas 24,971 milhões de toneladas no Estado
Se a performance gaúcha fosse igual à nacional, teriam sido colhidas 24,971 milhões de toneladas no Estado Foto : Wenderson Araujo / Trilux / CP

Pioneiro no cultivo da soja, o Rio Grande do Sul tem amargado uma condição desonrosa: na safra 2025/26 conquistou a vice-lanterna de produtividade entre todos os 22 estados produtores, à frente apenas do Amapá, que plantou 12 mil hectares da oleaginosa, 560 vezes menos que a extensão gaúcha, de 6,73 milhões de hectares. No ciclo anterior, o RS obteve a mais baixa performance entre os integrantes da cadeia cujo PIB nacional pode superar os R$ 662 bilhões neste ano.

Os produtores gaúchos colheram a média de 2.769 quilos por hectare (46,15 sacas) na safra mais recente. Já na anterior, apenas 2.342 quilos (39,02 sacas). Enquanto isso, a média nacional em 2025/26 atingiu 3.622 quilos/hectare (60,36 sacas), com destaque ao desempenho baiano, o campeão, com 4.260 quilos (71 sacas), e ao principal produtor, o Mato Grosso, com 3.969 quilos (66,15 sacas), conforme dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Portanto, em tese, se a performance gaúcha fosse igual à nacional, teriam sido colhidas 24,971 milhões de toneladas no Estado, ou 28,665 milhões caso o RS repetisse a eficiência baiana. No entanto, o volume que entrou nas colheitadeiras foi de 18,632 milhões de toneladas.

Esse baixo desempenho impacta negativamente toda a cadeia do principal produto agrícola gaúcho. Perde o produtor, que gera menos renda, perde o comércio local pela menor circulação de dinheiro, e perde a sociedade, com a queda na arrecadação de impostos que poderiam ser revertidos em saúde, educação, segurança e infraestrutura, por exemplo.

Mas, afinal, por que o Rio Grande do Sul, com mais de um século de experiência no cultivo da oleaginosa, cujos produtores sempre lançaram mão de altas tecnologias na prática da agricultura, tem colhido tão pouca soja? Em primeiro lugar, inegavelmente, as questões climáticas explicam em muito o rendimento. Porém, especialistas apontam que a baixa eficiência tem relação direta com os manejos técnicos – elementares e de resultados comprovados – que foram abandonados ao longo do tempo pelos donos das lavouras.

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Diagnóstico do campo

Essa disparidade entre o potencial das lavouras gaúchas e a realidade do restante do Brasil é constatada safra após safra por quem percorre as estradas agrícolas do país. O coordenador de Levantamento de Safra da Agroconsult e do projeto Rally da Safra, Gildomar Lindemann, lembra que a produtividade da soja varia significativamente entre as regiões em função da interação entre os fatores ambientais, tecnológicos e de manejo.

“Características como tipo de solo, clima, regime e distribuição das chuvas, temperatura, altitude influenciam diretamente no potencial produtivo das lavouras. Além disso, tem um ponto muito importante que é a época de semeadura”, observa.

A escolha da cultivar a ser semeada, o nível tecnológico e o perfil de manejo adotado pelo produtor contribuem, segundo ele, para essas diferenças entre as regiões. O Rally da Safra é uma iniciativa da consultoria Agroconsult, que percorre centenas de lavouras pelo país para avaliar o desempenho das plantações.

Para ele, apesar de o RS ter sido precursor no cultivo da soja no Brasil, a produtividade média está frequentemente abaixo da nacional principalmente em razão da maior exposição a adversidades climáticas, como estiagens de longa duração. Porém, na avaliação dele, o desempenho resulta de uma combinação de fatores, que incluem diversidade de solos, ambientes de produção, e uma diferença na adoção de manejo e condução das lavouras.

Superar esse gargalo, portanto, exige uma mudança estrutural de comportamento. Entre os principais caminhos para produzir mais em uma mesma área está a expansão do cultivo da soja em regiões de maior aptidão, segundo Lindemann. A adoção de tecnologia embarcada, principalmente em maquinário, investimento em sistemas de irrigação para mitigar esses efeitos da estiagem prolongada, e também a melhoria de práticas de manejo, desde a escolha da qualidade da semente até a adubação e a proteção dos cultivos são outras medidas necessárias apontadas por Lindemann.

“O melhoramento genético também precisa avançar na seleção de cultivares mais adaptadas às condições de estresse climático enfrentadas no Estado, e um outro ponto fundamental é a melhoria da qualidade do solo. Esse é um dos principais, se não o principal ativo do produtor”, salienta.

Solos mais profundos, bem estruturados, com boa drenagem e disponibilidade de nutrientes, aumentam a capacidade das plantas de enfrentar períodos de estresse, garante. Com isso, eles contribuem para uma maior estabilidade e o potencial produtivo dessas lavouras gaúchas.

Seca prejudica, mas o manejo define quanto

ORio Grande do Sul sedia, de acordo com a lei nº 14.349/2022, o “Berço Nacional da Soja”, uma honraria a Santa Rosa, porque foi no município que, em 1924, o pastor luterano americano Albert Lehenbauer apareceu com uma garrafa de vidro com o seu interior repleto de sementes de soja. Ele já morava no local e tinha trazido a “novidade” do seu país de origem, com o intuito de plantar para, com os grãos e a forragem, alimentar os suínos da comunidade.

A despretensiosa atitude dele foi a arrancada para o RS se tornar gigante na produção da oleaginosa, inclusive o maior produtor por muito tempo quando a cultura ganhou dimensão na agricultura brasileira, nos anos 1970. Ainda hoje, o Estado figura entre os principais em volume, ao lado do Paraná e de Goiás, ranking que há muito é liderado pelo Mato Grosso. E das plagas gaúchas partiram levas e levas de agricultores para introduzir seu cultivo em outras regiões brasileiras, sobretudo na Centro-Oeste.

Contudo, um século após as primeiras sementes e apesar da tradição construída, o Rio Grande do Sul enfrenta um gargalo silencioso e danoso. O pesquisador em Manejo e Conservação do Solo e da Água da Embrapa Trigo José Eloir Denardin analisa que, frequentemente, o ambiente de produção construído não permite que o seu potencial genético se manifeste. “O principal problema está na qualidade do solo: compactação, acidez e desequilíbrio dos indicadores químicos da fertilidade, pelo menos na camada de 0 a 20 centímetros de profundidade, que restringem o crescimento das raízes e a capacidade do solo de infiltrar, armazenar e disponibilizar água”, descreve.

“A questão não é simplesmente considerar o quanto chove. É preciso considerar quanto da chuva infiltra, quanto fica armazenado no solo e quanto pode ser efetivamente acessado pelas raízes. Em muitos casos, a lavoura recebe água, mas o solo não consegue transformá-la em água disponível às plantas”, complementa. Portanto, lembra, elevar a produtividade exige mais do que utilizar cultivares de alto potencial.

“Requer mais do que o simples plantio direto. Exige o sistema plantio direto, capaz de construir e manter uma estrutura do solo agronomicamente funcional, permitindo que raízes, água, ar, calor e nutrientes coexistam no perfil em condições favoráveis ao desenvolvimento da cultura”, define.

Denardin entende que as sucessivas estiagens têm, evidentemente, forte participação nas perdas de produtividade no Estado. Mas, segundo ele, não se pode atribuir ao clima toda a diferença entre a produtividade obtida e o potencial da cultura. “O efeito da deficiência hídrica é fortemente condicionado pela qualidade do solo e pelo manejo adotado. Solos com estrutura agronomicamente funcional e corrigidos quimicamente de forma homogênea, pelo menos na camada de 0 a 20 cm de profundidade, permitem que a planta atravesse períodos sem chuva com menor estresse. Já solos compactados e com limitações químicas tornam a lavoura muito mais vulnerável à estiagem.”

Conforme o pesquisador, o menor poder de investimento dos agricultores em razão das perdas também limita a possibilidade de realizar correções tecnicamente consolidadas e recomendadas desde a década de 1960. “É importante distinguir falta de recursos de falta de manejo: parte das limitações pode ser corrigida por decisões de manejo e pela organização do sistema de produção que não dependem, necessariamente, de investimentos expressivos”, sugere.

“O clima desencadeia a perda, (mas) a condição do solo e a qualidade do manejo determinam, em grande medida, a intensidade dessa perda.”

O principal gargalo, portanto, está na condição estrutural do solo, especialmente na compactação, associada à acidez e à deficiência de nutrientes na camada subsuperficial de 10 a 20 cm.

O especialista explica que, em um solo estruturalmente degradado, é menor a disponibilização de água que não chega a infiltrar e ser armazenada para o uso pelas plantas, além de haver menor volume de solo explorável pelas raízes. “Assim, uma estiagem que poderia ser suportada por uma cultura em um solo estruturalmente funcional pode provocar estresse severo em uma lavoura cujo sistema radicular está limitado pela compactação, pela acidez ou pelo desequilíbrio da fertilidade”, alerta.

“Eu resumiria assim: não é apenas a quantidade de chuva que determina a disponibilidade de água para a cultura. A capacidade do solo de infiltrar, armazenar e disponibilizar essa água às raízes é a essência. E essa capacidade depende fundamentalmente de um solo estruturalmente funcional, com os indicadores químicos de fertilidade distribuídos em níveis de suficiência, pelo menos na camada de 0 a 20 cm de profundidade”, observa. “Em uma agricultura predominantemente de sequeiro, a produtividade depende da capacidade do solo de captar, infiltrar, armazenar e disponibilizar às raízes a água proveniente das chuvas.”

Água disponível

Estudo identificou lavouras com pouca cobertura do solo, compactação e rachaduras | Foto: Júlio Cesar Salton / Embrapa / CP

A Embrapa Agropecuária Oeste, sediada em Dourados (MS), comprovou a partir de uma pesquisa desenvolvida durante 30 anos e 28 safras consecutivas, de 1998 a 2026, a relação direta entre a qualidade do manejo do solo e o desempenho produtivo da soja. Foram avaliados 4,3 mil pontos georreferenciados no período, com registros de valores de análises químicas, cobertura do solo e produtividade, o que possibilitou aplicar a classificação dos níveis de manejo (NM) e relacioná-la às produtividades em cada ponto e safra.

A pesquisa mostrou que, para cada nível de qualidade do manejo conquistado pelo produtor (sendo o menor NM1 e o maior NM4), ocorre aumento médio de 11,1% na produtividade. Assim, as médias obtidas durante as 28 safras foram expressivas, com produtividade relativa de 44% no NM1; de 55,1% no NM2; de 66,2% no NM3; e de 77,2% no NM4. A conclusão foi que áreas em que são adotadas práticas conservacionistas promovem maior produtividade, enfrentam melhor os períodos de estiagem e são menos vulneráveis a riscos de perdas.

O pesquisador Júlio Cesar Salton reforça que a forma como o solo é manejado influencia diretamente a capacidade das lavouras de suportar períodos de deficiência hídrica, um problema recorrente no Rio Grande do Sul. “Solos bem manejados armazenam mais água, oferecem melhores condições ao desenvolvimento das raízes e tornam a cultura da soja mais resistente às oscilações climáticas”, destaca. “O estudo comprova que investir na qualidade do manejo significa reduzir riscos, aumentar a estabilidade produtiva e preparar o sistema para enfrentar eventos climáticos adversos”, complementa.

Solo manda mensagens, adverte um campeão

De Bortoli passou a usar plantas de cobertura e a trabalhar com rotação de culturas, além de outras técnicas, para ver o resultado no volume de soja colhida | Foto: Arquivo Pessoal /CP

O engenheiro-agrônomo, produtor e consultor gaúcho Mauricio de Bortoli, que foi campeão nacional na categoria irrigado do Comitê Estratégico de Soja Brasil (Cesb), em 2019, ao atingir, no talhão destinado ao evento, a alta produtividade de 123,88 sacas por hectare, ou 7.432 quilos, lista uma série de equívocos observados em lavouras gaúchas. Ao mesmo tempo, ele elenca orientações para que as performances sejam significadamente melhoradas. Atualmente, conduz 12 mil hectares da família em Cruz Alta e presta consultoria a outros produtores que cultivam 34 mil hectares, incluindo áreas no Paraguai.

De Bortoli caracteriza que, metade do desempenho técnico aquém das lavouras na região dele é consequência das adversidades provocadas pelo clima. Já a outra metade tem uma justificativa bem objetiva: “É a falta de visão do produtor em construir soluções de longo prazo e investir no bem mais precioso, que é o solo. E aí acaba que essas duas coisas se encontram: um clima mais hostil a um manejo menos resiliente, e o produtor despenca em produtividade.”

Para tanto, na sua opinião, o produtor precisa entender que as respostas na agricultura não são somente de curto prazo, mas têm um retorno a longo prazo. “As pessoas têm dificuldade em acreditar em algumas coisas. Talvez pensar um pouco fora da caixa, estudar, pesquisar. Hoje essas informações circulam muito na mão de quem acaba fazendo o seu próprio trabalho de pesquisa, nas instituições privadas, nas próprias fazendas com pesquisa on-farm, ou consultorias mais modernas.”

Equilíbrio

O consultor enumera os principais equívocos cometidos por outros agricultores. “Acho que o primeiro ponto que o produtor deixou de lado nos últimos anos é a rotação de culturas. (Foi) retirar o milho do sistema e não observar a importância da manutenção da formação de palha no sistema, que é o primeiro pilar”, menciona. O engenheiro-agrônomo esclarece que os produtores têm optado pela monocultura da soja em razão da sua costumeira melhor cotação.

“O segundo pilar é a falta de correção adequada do solo, tanto do ponto de vista dos corretivos de modo a minimizar o pH (que mede a acidez) e melhorar a presença de cálcio e magnésio”, diz. Da mesma forma, devem ser utilizados fertilizantes agronomicamente mais equilibrados, pois a opção tem sido pelos adubos que ele chama de convencionais. Portanto, esclarece, como o solo é um sistema integrado, a opção pelos convencionais preconiza apenas os macronutrientes primários (nitrogênio, fósforo e potássio, os chamados NPK), e ignora os macronutrientes secundários (cálcio, magnésio e enxofre). “Eles são tão importantes quanto os primários, porém a planta (os) demanda em menor quantidade”, justifica. Ou seja, sem um sistema equilibrado, a produção não melhora nem mesmo em anos de clima favorável, pois a planta não responde em razão da carência de um ou mais nutrientes faltantes no solo.

Nesse contexto de ambiente desfavorável ao cultivo, ainda estão os problemas físicos do solo. “A compactação pelo uso intensivo do solo no sistema, tanto em agricultura quanto em pecuária, vai tirando o oxigênio do solo e minimizando a vida no solo”, cita De Bortoli. “Acaba que aumenta a fonte de organismos detratores do crescimento de raiz, como fungos e nematoides, e o sistema colapsa”, acrescenta diz. Desta forma, quando falta oxigênio, a absorção de nutrientes é prejudicada, e ainda favorece a ocorrência de problemas relacionados a patógenos.

De Bortoli recomenda aos produtores que busquem conhecer o solo e o sistema onde trabalham. “Apesar de a nossa cultura, as plantas e o solo não conversarem com a gente, eles mandam sinais. E esses sinais temos de aprender a interpretar”, adverte. “Cada um, dentro do seu ambiente de produção, deve interpretar que quando tem algum problema, esse sistema vai mandar uma mensagem e o produtor tem de agir, porque a agricultura é uma atividade que não permite você desviar os caminhos”, lembra. “Uma hora a estrada vai te cobrar esse pedágio. E tem horas que esse pedágio sai caro, porque tanto na falta de chuva quanto no excesso dela, o produtor tem de pensar sempre em aumentar a resiliência do sistema.”

Armazenar água

Por “resiliência”, o agrônomo ressalta não ser recomendado depender da precipitação. “Temos que aprender a armazenar água. A agricultura é uma atividade que não depende só da chuva, porque a chuva é igual para todos: para mim, para ti, qualquer produtor que é vizinho recebe a mesma chuva. O que vai diferir o teu sucesso do meu, ou o meu fracasso, é a capacidade de cada sistema de produção de armazenar água, porque vai depender muito da qualidade física do solo, da cobertura que você tem sobre o seu sistema e do manejo que tu fazes”, justifica. “Aí é que está a grande diferença de produtores colherem 1,5 mil, 2 mil quilos de diferença um em relação ao outro, sendo vizinhos. Tudo vem do manejo.”

Sobre o “manejo”, lembra ser uma palavra que tem levado em consideração há muito tempo, mais especificamente desde 2005, ano em que ele viveu uma das maiores secas de sua vida profissional: “Na propriedade familiar olhei para o meu pai e falei para ele assim: ‘Pai, se a gente seguir neste sistema de monocultura, se a gente não fizer rotação de culturas, não trazer o milho para o sistema, se nós não capricharmos mais no uso de plantas de cobertura, vamos quebrar, porque o nosso solo está mandando sinais, mostrando que qualquer estiagenzinha para nós é uma seca, é uma catástrofe.’”

Dessa forma, mudou todo o manejo da propriedade familiar, tanto para promover mais opções de rotação de cultura, a testar os mixs de plantas da cobertura, a medir respostas em fertilizantes, priorizando o lado agronômico, não apenas o econômico, inclusive com fertilizantes mais completos. “Ao tomar essas decisões, a nossa propriedade foi mudando os rumos. Não foi rápido, não foi uma questão de um, dois anos. Foram cinco, seis anos para sentir as primeiras respostas em termos de uma melhor estabilidade produtiva”, relata.

“Mas hoje eu olho para trás e penso o quão importante foi enxergar que era necessário, e saber que hoje, frente a todos os riscos que a gente passa de estresses climáticos, de seca, a gente colhe aí em torno de 20 sacas a mais do que a média do município onde atuo.”

O desempenho das lavouras gaúchas, porém, não se limita aos resultados no campo. Na próxima semana, o Correio do Povo Rural mostrará os impactos econômicos da baixa produtividade da soja para o Estado.

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