Saúde

Oitiva de enfermeira na CPI do Hospital Montenegro expõe cenário de crise humanitária na saúde pública

Sobrecarga de trabalho, ausência de reajuste salarial, depósitos do FGTS em atraso, falta de insumos básicos, assédio moral e críticas aos sindicatos que se mantêm inertes frente à grave situação

A CPI foi instalada em março para apurar a destinação de recursos e os motivos da paralisação de serviços
A CPI foi instalada em março para apurar a destinação de recursos e os motivos da paralisação de serviços Foto : Hallan Klein / Câmara de Vereadores de Montenegro / CP

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Hospital Montenegro, instalada em março, para apurar a destinação de recursos públicos, os motivos da paralisação de serviços essenciais – como o fechamento do Centro Obstétrico em fevereiro deste ano - e a transparência na gestão, especialmente quanto ao pagamento de salários e gratificações, segue ouvindo e convocando testemunhas para entender as fragilidades da instituição.

Nesta semana um novo depoimento expôs, em detalhes, um cenário de crise humanitária e administrativa na instituição. A enfermeira, que terá sua identidade preservada, e atua no centro cirúrgico e na antiga obstetrícia, trouxe à tona relatos sobre a sua realidade dentro do hospital.

Ela detalhou sobrecarga de trabalho, citando casos em que um único técnico de enfermagem precisava atender até 10 pacientes ou 12 recém-nascidos simultaneamente, inviabilizando a segurança do cuidado. Ela revelou que técnicos recebem cerca de R$ 1.620,00 por mês, sem reajuste salarial significativo desde 2022, e que os depósitos do FGTS estão atrasados há mais de um ano, uma situação que afeta a maioria dos funcionários e impede o acesso ao saque-aniversário ou à demissão.

Falou sobre falta de insumos básicos como luvas, fraldas e lençóis, além de medicamentos. Outros casos bem graves foram ressaltados pela profissional, como adulteração de bolsa de sangue e a realização de cirurgias eletivas com apenas um médico, utilizando técnicos de enfermagem como auxiliares, o que, segundo ela, viola resoluções do Conselho Federal de Medicina e coloca vidas em risco caso o cirurgião passe mal.

A profissional afirmou ter sofrido assédio moral e testemunhado "testes" humilhantes feitos por superiores, além de relatar que os canais de denúncia internos não geram retorno ou providências. Ela também criticou a falta de atuação do sindicato da categoria e enfatizou que denúncias já foram feitas ao COREN e ao Ministério do Trabalho, e nada foi resolvido.

Sobre o fechamento do Centro Obstétrico, a enfermeira explicou a logística perigosa a que as mães eram submetidas. Com médicos em greve por falta de pagamento, as gestantes precisavam ser transferidas para outras cidades (como Sapucaia ou Canoas), gerando ansiedade e risco de parto no caminho, já que as ambulâncias municipais ficavam desfalcadas.

Destemida e corajosa, apesar de colaborar nas investigações, ela diz temer retaliação. "Minha ideia é ajudar, pedir transparência", concluiu a depoente. A CPI seguirá com os trabalhos de investigação, devendo ouvir novas testemunhas na próxima semana.

COREN GARANTE QUE INSTITUIÇÃO FOI INSPECIONADA EM MARÇO

O Conselho Regional de Enfermagem do Rio Grande do Sul (Coren-RS) informou que o Hospital Montenegro está sob acompanhamento regular da fiscalização do Conselho e que a última inspeção de saúde foi realizada em março deste ano. Em relação ao quantitativo de profissionais de Enfermagem, o Coren-RS ingressou com uma ação judicial. Contudo, o pleito foi julgado improcedente, conforme deliberação da Justiça.

O Conselho informa que recebeu denúncias, boa parte delas envolvendo questões éticas, e que os próprios denunciantes acabaram não dando andamento ao processo. Outros relatos recebidos foram de cunho trabalhista e que são encaminhados aos sindicatos e demais órgãos competentes para providências. Foram 8 denúncias recebidas com ligação ao Hospital Montenegro, mas nem todas relacionadas ao teor da CPI.

O Coren-RS reforça que quaisquer tipos de situações que envolverem a categoria devem ser encaminhadas à Ouvidoria, por meio do site www.portalcoren-rs.gov.br. Inclusive, de maneira sigilosa.

SINDICATO REFORÇA LUTA DE COMBATE AO ASSÉDIO

Sobre o descumprimento de direitos trabalhistas, o Sindicato dos Enfermeiros do Rio Grande do Sul (Sergs) esclarece que não recebeu nenhuma denúncia vinculada ao hospital e que atua diante do recebimento de demandas formalizadas, acionando a assessoria jurídica.

Entretanto, o vice-presidente do Sindicato, Ismael Miranda da Rosa, garante o Sergs tem reforçado a luta de combate ao assédio e a violência dentro do ambiente de trabalho, principal motivo de adoecimento e causador de 70% do sofrimento psíquico junto à categoria.

"A toxidade dos ambientes de trabalho tem como pano de fundo a precarização nas formas de contrato, pejotização, a ausência de continuidade de uma política concreta. O modelo de terceirização é a fonte dos males do processo de adoecimento da enfermagem. Ao todo, somos quase 34 mil enfermeiros no RS", finaliza o vice-presidente do Sergs.

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