Saúde

Psicologia de emergência: como funciona o suporte às vítimas de desastres

Atendimento busca acolher pessoas em situação de choque, reduzir o sofrimento e fortalecer estratégias para enfrentar a crise

Recentes terremotos na Venezuela ilustram essa realidade
Recentes terremotos na Venezuela ilustram essa realidade Foto : RAUL ARBOLEDA / AFP

A recorrência de eventos climáticos extremos tem ampliado os desafios de saúde mental enfrentados por quem sobrevive a grandes tragédias. Em poucos minutos, famílias podem perder parentes, casas, bens e a sensação de segurança, iniciando um difícil processo de reconstrução da própria vida. As enchentes históricas de 2024 no Rio Grande do Sul e os recentes terremotos na Venezuela ilustram essa realidade.

É para atender pessoas em situações como essas que atua a Psicologia das Emergências e Desastres, área voltada ao acolhimento de pessoas expostas a eventos traumáticos. O trabalho busca oferecer suporte imediato, reduzir o sofrimento psicológico, fortalecer estratégias de enfrentamento e diminuir o risco de transtornos, como o estresse pós-traumático.

Segundo a psicóloga e professora do curso de Psicologia da Universidade Feevale, Carmen Rieth, o principal objetivo nas primeiras horas não é fazer um atendimento clínico tradicional, mas ajudar as pessoas a recuperarem condições mínimas para enfrentar a situação.

“Quando acontece algo dessa natureza, tudo se vai. A pessoa passa a ter insegurança de tudo. É o momento de acolher e ajudá-la a se reconectar para que possa voltar a sentir um nível de segurança”, explica.

Embora tenha ganhado maior visibilidade em grandes tragédias socioambientais, a Psicologia das Emergências e Desastres também atua em outras situações de crise.

O trabalho está presente em casos como rompimentos de barragens, desabamentos, acidentes tecnológicos, pandemias, crises humanitárias, grandes deslocamentos de refugiados e episódios de violência em massa.

Como atua a psicologia de emergência

O trabalho acontece em diferentes etapas e níveis de cuidado. Nas primeiras horas e dias após um desastre, os profissionais realizam os chamados primeiros socorros psicológicos, acolhendo vítimas, identificando pessoas em sofrimento intenso e auxiliando na conexão com familiares e redes de apoio.

Em seguida, a atuação também se estende às comunidades, fortalecendo vínculos sociais e promovendo espaços de escuta coletiva. Já no nível institucional, psicólogos trabalham de forma integrada com a Defesa Civil, o Sistema Único de Saúde (SUS) e o Sistema Único de Assistência Social (SUAS) para organizar respostas às emergências e preparar municípios para novos eventos.

A maior parte das pessoas consegue atravessar o processo com esse suporte inicial e o fortalecimento da rede de apoio, mas uma parcela pode desenvolver transtornos mais graves e necessitar de acompanhamento psicológico especializado ao longo dos meses seguintes.

Os profissionais acompanham famílias no reconhecimento de corpos, acolhem pessoas em luto, em estado de choque ou em crise e também precisam avaliar a própria condição emocional antes de atuar, especialmente quando foram igualmente afetados pela tragédia.

Muito além do atendimento psicológico

Para Carmen, um dos principais aprendizados deixados pelas enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul é que o cuidado às pessoas afetadas depende de uma rede organizada. Sozinho, o psicólogo não consegue responder às necessidades de uma população atingida por um desastre de grande proporção.

Mais do que o acolhimento emocional, a recuperação das vítimas depende de condições básicas, como acesso a medicamentos, segurança nos abrigos e condições mínimas de higiene. A ausência desses fatores pode agravar o sofrimento e dificultar a recuperação.

Os próprios abrigos podem ampliar o cenário de vulnerabilidade. Carmen relata ter trabalhado em espaços com cerca de mil pessoas, marcados por relatos de furtos, violência, falta de privacidade e medo constante.

Conforme descrito por ela, muitas pessoas evitavam dormir à noite por insegurança, enquanto outras chegavam sem seus medicamentos, o que agravava quadros psiquiátricos e aumentava a tensão no ambiente.

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Preparação ainda é insuficiente

Na avaliação da professora, o Brasil ainda reage aos desastres em vez de se preparar para eles.

“É uma pena que a gente comece a falar desse tema quando está com um evento às portas. Os eventos estão se tornando mais frequentes e a gente ainda trata como se fossem episódios que não vão se repetir por décadas”, afirma.

Ela defende investimentos permanentes na capacitação de profissionais e na organização das redes municipais de saúde mental para que a resposta às emergências seja mais rápida e eficiente.

Apesar dos desafios, Carmen acredita que as experiências recentes podem fortalecer a resposta a futuras tragédias.