Você lerá neste texto:
De que forma ocorre a comparação nas redes sociais;
Quais são os públicos mais afetados pela influência das plataformas;
Como as apostas criam a ilusão de vida bem-sucedida;
Os mecanismos utilizados pelo governo para agir contra a influência das redes sociais;
O preço psicológico de se comparar nas redes e os mecanismos para evitar o problema.
O que começou como uma ferramenta para aproximar pessoas e compartilhar momentos do cotidiano transformou-se, nas últimas duas décadas, em um poderoso ecossistema de influência sobre comportamentos, hábitos de consumo e percepção da realidade. Em meio a algoritmos que privilegiam conteúdos de alto impacto emocional, a vida exibida nas redes sociais passou a ser marcada por corpos considerados perfeitos, rotinas luxuosas, promessas de enriquecimento rápido e estilos de vida que, muitas vezes, pouco têm em comum com a realidade da maioria da população.
Nesse ambiente altamente competitivo pela atenção do público, influenciadores digitais se consolidaram como protagonistas de uma economia baseada na exposição permanente. Paralelamente, plataformas de apostas esportivas e cassinos on-line passaram a ocupar espaço crescente nas redes, impulsionadas por campanhas publicitárias agressivas e pela associação frequente com criadores de conteúdo que exibem ganhos financeiros, viagens e bens de alto valor como símbolos de sucesso.
O resultado desse cenário vai além do entretenimento. Estudos recentes apontam que a exposição contínua a conteúdos que estimulam comparações sociais, consumo impulsivo e expectativas irreais pode comprometer a saúde mental, favorecer transtornos relacionados à autoimagem e estimular comportamentos de risco, como o endividamento e a prática compulsiva de jogos de aposta.
Para a psicóloga clínica, mestre em Psicologia e professora da Universidade Feevale, Betina Ritzel, o poder de influência das redes sociais ultrapassa o campo do entretenimento e interfere diretamente na forma como as pessoas interpretam a própria vida.
"Nem todo mundo consegue diferenciar o que é editável do que faz parte da vida real. As redes sociais apresentam recortes cuidadosamente construídos, mas muitas pessoas acabam tomando esse conteúdo como referência para avaliar a própria trajetória", afirma.
Segundo a especialista, embora cada indivíduo seja responsável pelas próprias escolhas, elas são fortemente influenciadas pelos modelos de comportamento aos quais está exposto.
"As pessoas comuns têm contas para pagar, enfrentam conflitos familiares, jornadas exaustivas de trabalho e dificuldades cotidianas. Essa realidade costuma ficar de fora das redes sociais, onde prevalece uma narrativa cuidadosamente editada da vida".
A engenharia da comparação
Cada plataforma digital opera uma lógica própria para manter o usuário conectado. No Instagram, feeds, stories e reels transformam o cotidiano em uma vitrine cuidadosamente editada, na qual viagens, corpos esculturais, bens de luxo e rotinas aparentemente perfeitas são apresentados como regra, e não como exceção. A repetição desse tipo de conteúdo estimula um processo contínuo de comparação social, no qual o sucesso alheio passa a ser percebido como parâmetro para a própria vida.
Para Betina Ritzel, esse é um dos principais mecanismos psicológicos das redes sociais. "Quem está diante da tela tende a interpretar aquele recorte da vida do influenciador como uma referência de normalidade. Quando percebe que sua realidade é diferente, surgem sentimentos de culpa, frustração e uma cobrança excessiva para alcançar um padrão que, muitas vezes, sequer existe fora das redes”.
Segundo a psicóloga, o problema não está apenas na comparação, mas na dificuldade de distinguir o que é espontâneo do que foi cuidadosamente produzido para gerar engajamento.
"As redes sociais são compostas por conteúdos editáveis. Existe toda uma construção por trás daquilo que é publicado, mas nem sempre quem consome consegue perceber essa diferença”.
No TikTok, a dinâmica é ainda mais acelerada. O algoritmo entrega uma sequência praticamente infinita de vídeos curtos, reduzindo o tempo de reflexão e aumentando a exposição a estímulos que associam sucesso financeiro, beleza e reconhecimento social a resultados rápidos.
A exposição contínua a esse tipo de conteúdo tem despertado preocupação entre especialistas, principalmente pelos impactos sobre crianças e adolescentes, fase em que o cérebro ainda está em desenvolvimento.
"Além da qualidade do conteúdo, é preciso observar o tempo de exposição às telas. O excesso interfere no desenvolvimento cognitivo, emocional e social das crianças e dos adolescentes", alerta Betina.
Para ela, estabelecer limites claros continua sendo uma das medidas mais eficazes. "É importante que exista uma rotina equilibrada: hora de estudar, brincar, conviver com a família, praticar atividades físicas e descansar. Quando as redes sociais passam a ocupar todo o tempo livre, outros aspectos importantes do desenvolvimento acabam sendo prejudicados”.
Quem está mais exposto
Embora ninguém esteja imune aos efeitos das redes sociais, alguns grupos apresentam maior vulnerabilidade aos mecanismos de influência utilizados pelas plataformas.
Entre eles estão os adolescentes. Em uma fase marcada pela construção da identidade, pela necessidade de pertencimento e pela busca de aceitação social, a exposição constante a padrões de sucesso e consumo pode intensificar comportamentos impulsivos e dificultar o desenvolvimento de uma percepção crítica sobre os conteúdos consumidos.
O funcionamento do sistema de recompensa do cérebro, regulado pela dopamina, também torna esse público mais suscetível à busca por gratificações imediatas, mecanismo amplamente explorado tanto pelas redes sociais quanto pelas plataformas de apostas.
Betina explica que a maturidade emocional ainda em formação reduz a capacidade de avaliar riscos. "O adolescente ainda está construindo sua autonomia e seu senso crítico. É natural que queira pertencer a determinados grupos e reproduzir comportamentos que considera bem-sucedidos. Por isso, muitas vezes, não consegue dimensionar as consequências de determinadas escolhas”.
Essa vulnerabilidade também aparece na relação com o consumo. "Nessa fase da vida, ainda existe pouca compreensão sobre o valor do dinheiro e o esforço necessário para conquistá-lo. Isso facilita a adesão a promessas de ganhos rápidos ou à ideia de que determinados produtos representam um caminho para o reconhecimento social”, analisa.
As mulheres figuram entre os grupos mais impactados pela pressão estética difundida nas redes sociais. A exposição constante a imagens editadas e padrões de beleza inalcançáveis têm sido associada ao aumento da insatisfação corporal, da ansiedade e de transtornos relacionados à autoimagem.
Os homens jovens também passaram a integrar esse cenário. Conteúdos relacionados à musculação, suplementação, estética e ostentação financeira vêm ampliando a insatisfação corporal e estimulando padrões igualmente difíceis de alcançar.
Na prática clínica, Betina observa que esses efeitos aparecem com frequência. "É comum atender pacientes que desenvolveram ansiedade, depressão ou sofrimento relacionado à comparação constante com influenciadores. Em muitos casos, isso está associado ao Transtorno Dismórfico Corporal, quando a pessoa passa a enxergar defeitos na própria aparência de forma obsessiva”.
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Quando o algoritmo encontra as apostas
Se as redes sociais já exercem forte influência sobre padrões de consumo e comportamento, a popularização das plataformas de apostas on-line ampliou ainda mais esse impacto. Nos últimos anos, influenciadores digitais passaram a associar ganhos financeiros, viagens, carros de luxo e uma rotina de ostentação às chamadas bets, cassinos virtuais e jogos como o popular "Jogo do Tigrinho", criando a percepção de que o enriquecimento rápido estaria ao alcance de qualquer pessoa.
Para especialistas, trata-se de uma combinação perigosa entre algoritmos que privilegiam conteúdos de alto engajamento e um sistema de recompensas semelhante ao utilizado pelos jogos de azar.
Betina Ritzel explica que a lógica é baseada em reforços positivos imediatos. "O mecanismo é muito parecido com outros comportamentos compulsivos. A pessoa recebe pequenas recompensas que reforçam a expectativa de um ganho maior. Isso aumenta a permanência nessas plataformas e dificulta interromper o comportamento."
Segundo a psicóloga, não existe um perfil único para quem desenvolve esse tipo de dependência.
"Qualquer pessoa pode se tornar mais vulnerável, principalmente em momentos de fragilidade emocional ou financeira. O sistema explora justamente a expectativa de recompensa."
Para famílias em situação de vulnerabilidade econômica, essa promessa pode representar uma falsa alternativa para resolver dificuldades financeiras, aumentando o risco de endividamento.
Um dos indicadores mais preocupantes foi divulgado pelo Banco Central, em nota técnica de setembro de 2024, omde a instituição informou que aproximadamente 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família movimentaram cerca de R$ 3 bilhões em empresas de apostas por meio do Pix em apenas um mês.
Mais do que um problema financeiro, especialistas já tratam o crescimento das apostas como um desafio de saúde pública.
Uma epidemia silenciosa
Levantamento nacional recente, coletado em 2023 e publicado oficialmente em 2025, pela Unifesp em parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública sobre de Álcool e Drogas, mostra que o avanço das apostas deixou de atingir apenas adultos e passou a alcançar também adolescentes.
Segundo o estudo, 10,5% dos adolescentes entre 14 e 17 anos afirmaram já ter apostado dinheiro real. Entre os rapazes de 16 e 17 anos, esse percentual chega a aproximadamente 20%.
O dado mais preocupante é outro: 55,2% dos adolescentes que apostam apresentam sinais compatíveis com comportamento de jogo problemático, índice superior ao observado entre adultos (38,8%).
Na avaliação dos pesquisadores, adolescentes apresentam risco significativamente maior de desenvolver transtornos relacionados ao jogo.
Embora os números chamem atenção, Betina ressalta que a dependência não escolhe idade, profissão ou classe social.
"As dificuldades financeiras costumam aumentar a vulnerabilidade, mas não existe um perfil único. O que essas plataformas exploram é justamente o mecanismo cerebral da recompensa, presente em qualquer pessoa."
A resposta do Estado
O avanço das apostas e o impacto crescente das redes sociais sobre crianças e adolescentes têm levado o poder público a discutir mecanismos de proteção para o ambiente digital.
Nos últimos anos, diferentes iniciativas passaram a tratar da responsabilização das plataformas, da proteção de menores e da publicidade envolvendo apostas on-line.
O ECA Digital, Lei nº 15.211/2025, uma atualização do Estatuto da Criança e do Adolescente voltada para o ambiente virtual, é o exemplo mais recente dessas iniciativas. Em vigor desde março de 2026, a lei obriga redes sociais, aplicativos e jogos a implementarem controle parental, verificação rigorosa de idade e proíbe publicidade direcionada e mecânicas viciantes para menores de 18 anos.
Além dela, também entrou em vigor no último ano, a Lei nº 15.100, que restringe o uso de aparelhos eletrônicos portáteis (incluindo celulares) por estudantes da Educação Básica nas escolas públicas e privadas de todo o País. O objetivo principal foi preservar a saúde mental e melhorar a concentração, sendo o uso liberado apenas para fins pedagógicos ou acessibilidade.
Independentemente das iniciativas legislativas, Betina acredita que o enfrentamento do problema depende de uma atuação conjunta entre Estado, famílias, escolas e sociedade.
"As leis são importantes, mas, sozinhas, não resolvem o problema. É preciso fortalecer a participação da família, da escola e das redes de apoio para orientar crianças e adolescentes sobre o uso consciente das tecnologias."
Segundo ela, monitorar o tempo de tela e desenvolver senso crítico sobre os conteúdos consumidos continua sendo uma das estratégias mais eficazes de prevenção.
"Precisamos ensinar nossos jovens a compreender que aquilo que aparece nas redes sociais nem sempre representa a realidade. Esse aprendizado é fundamental para preservar a saúde emocional."
O preço psicológico
Os impactos das redes sociais e das apostas on-line vão muito além do tempo gasto diante das telas. Especialistas apontam que a exposição contínua a conteúdos que exaltam padrões de beleza inalcançáveis, consumo ostensivo e promessas de enriquecimento rápido pode desencadear uma série de consequências para a saúde mental e para a estabilidade financeira.
Entre os efeitos mais recorrentes estão o aumento da ansiedade, da depressão, do estresse crônico e da sensação permanente de inadequação. A busca incessante por aprovação, traduzida em curtidas, compartilhamentos e seguidores, passa a influenciar a autoestima e a percepção de sucesso, criando um ciclo de comparação difícil de romper.
Outro fenômeno associado a esse ambiente digital é o chamado FOMO (Fear of Missing Out), expressão utilizada para descrever o medo constante de estar perdendo experiências, oportunidades ou conquistas vividas por outras pessoas. Esse sentimento favorece decisões impulsivas de consumo, amplia a insatisfação com a própria rotina e intensifica a percepção de fracasso pessoal.
Quando essa lógica se soma ao universo das apostas on-line, o risco financeiro cresce significativamente. A tentativa de reproduzir o estilo de vida exibido por influenciadores ou de recuperar rapidamente perdas acumuladas em jogos pode comprometer o orçamento familiar e desencadear ciclos de endividamento.
Na avaliação de Betina Ritzel, o enfrentamento desse cenário não depende apenas de legislação ou da atuação das plataformas digitais, mas da construção de hábitos mais saudáveis de convivência com a tecnologia.
"As redes sociais podem fazer parte da vida, mas não podem ocupar o centro dela. Precisamos preservar os vínculos presenciais, investir em momentos de lazer fora das telas, cuidar da qualidade do sono e fortalecer relações familiares e de amizade."
Segundo a psicóloga, o desenvolvimento do senso crítico também é essencial para reduzir o impacto emocional provocado pelas comparações constantes.
"Quando entendemos que aquilo que aparece nas redes é apenas um recorte cuidadosamente editado da realidade, deixamos de transformar a vida do outro em parâmetro para medir a nossa."
No fim, o maior desafio imposto pelas plataformas digitais talvez não seja tecnológico, mas humano: aprender a distinguir aquilo que é compartilhado para ser visto daquilo que, de fato, representa a vida real.