A cada nova edição do Fantaspoa, um fenômeno se repete: as sessões musicadas invariavelmente acontecem com sala cheia, tendo os ingressos se esgotado muito antes. E 2026 não foi exceção. Mesmo acontecendo em dois horários neste primeiro dia do festival, às 17h30min e 20h, no Instituto Ling, as duas sessões de “Fausto”, um clássico do terror de 1926, musicadas pelo violonista e compositor argentino Germán Suane, não tinham mais entradas desde a semana passada.
O Correio do Povo conversou com Carlos Ferreira e Viridiana, responsáveis justamente pela parte musical de um dos eventos que antecederam ao evento, “Uma Página de Loucura”, no final de fevereiro, para saber como são criadas as sessões musicadas.
Quantas vezes é preciso assistir ao filme para criar a trilha?
Carlos – Inúmeras vezes, muitíssimas. Cada filme eu acho que tem um processo um pouco diferente. Esse filme em específico, ‘Uma Página de Loucura", é um que eu sou apaixonado, talvez seja um dos meus favoritos de expressionismo. Fazia muitos anos que não assistia e, nos últimos tempo, eu vinha falando para o João (Pedro Fleck, diretor-geral) do Fantaspoa: ‘Cara, vamos fazer o ‘Uma Página de Loucura’. Devia fazer três anos, mas era complicado por causa da liberação. Aí, ano passado ele disse que faríamos, até porque o filme está fazendo 100 anos.
Como é criar a trilha sonora para um filme mudo?
Carlos – É meio como pintar uma tela com sons. Você tem a tela branca, que é o silêncio, e as imagens te estimulando…
Viridiana – Quando estamos musicando, temos uma oportunidade legal de imprimir algumas das nossas percepções ali, interpretações que a gente acha que façam sentido.
Carlos – A ideia é que seja sempre uma experiência orgânica, nova, diferente para quem está assistindo. A gente acredita não em uma recepção passiva, mas sim ativa. As pessoas também estão significando o filme, interpretando da sua forma. É uma experiência orgânica tanto para nós quanto para quem assiste.
Viridiana – Nós colocamos em sons muitas visões diferentes. De quem dirige, de quem faz a arte, de quem corta, de quem edita. E encontrar a afinidade em um filme para criar a tua própria história em cima dela é uma gostosura enorme. Estamos realmente criando coisas novas em cima de uma obra. É como colocar um tijolinho em cima de uma história muito maior.
Por ser um filme mudo, é preciso preencher necessariamente todo o espaço com música?
Carlos – Essa é uma escolha estética. Às vezes, o silêncio é a coisa mais perturbadora que você pode escutar. Têm momentos em que trabalhamos com o silêncio total, deixando só a imagem ou algo muito sutil. O silêncio é uma tela em branco que você pode pintar com sons
Há espaço para a improvisação em uma experiência assim?
Carlos – Eu e a Viridiana temos um diálogo sonoro muito afinado. A improvisação surge como se estivéssemos conversando, mas com música e sons.
E se houver algum erro no meio do filme?
Carlos – Eu costumo dizer que o erro é uma ideia. Não trabalho com o conceito de erro, mas do inusitado. Se tu controla completamente o processo, a possibilidade de criar algo novo é menor do que se tu abraçar o inusitado.
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