No dia 25 de outubro, o palco do Circo Bar, em Porto Alegre, recebeu o grupo Netas de Dercy para um espetáculo de stand-up feminino. O que começou como uma noite de show comum surpreendeu quando, logo no início da apresentação, a energia elétrica do espaço falhou.
Sem microfones nem iluminação e com nada além das vozes, do improviso e da própria desenvoltura, as comediantes Nelly Coelho, Nega Gato, Mayura Matos, Milena Duarte e Juliana Capelão seguiram em frente. A plateia se engajou e, sem demora, acendeu as lanternas dos próprios celulares. O show continuou “no gogó”, como elas dizem. E não é que funcionou?
“É que nós somos energéticas demais. É as gurias no poder, né? Pegaram o microfone e o negócio estourou. Olha o poder da energia”, brinca Nega, que fora dos palcos atende também pelo nome de Jessika. Ainda que sob uma perspectiva otimista, o episódio serve de metáfora para uma verdade sobre a trajetória feminina na comédia gaúcha: seguir em frente quando as condições não são ideais não é exceção — para elas, é regra.
O Netas de Dercy surgiu da vontade de fazer a cena acontecer entre elas, considerando as dificuldades que mulheres encontram para se destacar no setor. Com elenco rotativo, o coletivo está em sua segunda edição. A primeira apresentação, em outubro de 2024, ocorreu na Casa de Espetáculos. Para este segundo encontro, optaram pelo ambiente mais reservado do Circo Bar. “A galera se sente mais junto, o calor fez toda a diferença”, explica Nega.
A proximidade não é só com o público. A relação de parceria e amizade entre as comediantes vai além do palco e começa muito antes do show. “A preparação muda muito com as pessoas que estão à tua volta, se tu gostas das pessoas. Eu tenho muita conexão com as meninas; a gente se admira, todas nós gostamos dos textos das outras”, conta Nelly.
O camarim funciona como laboratório criativo, onde testam entre si as produções para a apresentação. O momento perfeito para afinar os tempos, ajustar viradas e dar os últimos toques no roteiro. Às vezes, o espaço é ocupado também por crianças. Ali, a maioria das comediantes são mães e quando uma precisa subir ao palco, as outras “seguram o rojão” com os pequenos.
“A gente se ajuda, porque sendo mães, sabemos como é que as coisas funcionam”, conta Nelly sobre a rede de apoio. Mas levar os filhos para shows de comédia é sempre a última opção, afinal nem todo ambiente é adequado para eles. “Tem shows e shows”, pontua Mayura.
Da vida ao palco: a construção do texto
Com elas, as mais diversas vivências, que passam por temas desde a maternidade aos relacionamentos, das dificuldades financeiras aos episódios absurdos do cotidiano, acabam entrando como repertório para os textos de palco. Cada comediante tem seu método, mas todas compartilham ao menos uma matéria-prima: suas próprias vidas.
“Tudo que eu escrevo é através das minhas experiências mesmo”, explica Nega. “Tudo que eu vivo dá para tirar alguma coisa, e tudo que eu conto realmente é verdade”.
Às vezes a história ganha camadas da narrativa cômica, mas a ideia, garante, “é sempre ser verdadeira”. Além das alegrias, as dores também fazem parte do processo criativo. “Eu sofri por isso e hoje em dia estou rindo e fazendo mais uma galera rir junto”, reflete. Entretanto, é a técnica que transforma uma simples história em uma boa piada, o setup, o punch, a reviravolta e até mesmo os momentos de silêncio.
Uma prática recorrente entre elas é a “regra de três”: em 15 minutos, cinco de material já testado e validado (para segurar a atenção), três de novidades no meio e, por fim, fechamento com aquilo que já funciona. “Pode não dar certo os três minutos que eu vou testar, mas pelo menos já iniciei com o que rende, testo o novo no meio e finalizo. A ideia é ouvir e entender, levar as questões para casa e mudar a maneira de fazer na próxima vez”, explica.
O estudo constante também faz parte da rotina. “Assistir o que está acontecendo, consumir comédia”, lista Nelly. “E a leitura, né? A leitura não dá para a gente parar”. Para Mayura, a vivência no teatro adiciona outra dimensão ao trabalho. Inclusive entre elas, a expressividade facial de Matos por si só já é uma isca para as risadas.
Ainda assim, nenhuma vive só da comédia
Apesar da dedicação e do preparo, nenhuma das cinco vive exclusivamente de comédia. Jessika trabalha em regime CLT em escala 6×1 e, mesmo assim, de quinta a domingo, faz shows como comediante. Começou como open mic — categoria iniciante do stand-up — e hoje atua também como mestre de cerimônias para quem está começando.
Na entrevista, ela lamenta o adeus ao Porto Alegre Comedy Club, que, para ela, foi como uma escola onde entrou para consumir e entender o que era comédia. O estabelecimento, fundado por nomes como Nando Viana, Thiago Ventura e Afonso Padilha, encerrou as operações na capital gaúcha em 2023, após mais de quatro anos de funcionamento, deixando uma lacuna na cena.
A dupla (ou tripla) jornada acompanha as outras integrantes: Juliana se desdobra como professora de teatro, dona de restaurante, produtora de stand-up e comediante. Nelly atua em diferentes frentes da produção, como roteirização, edição e redes sociais.
Já Mayura trabalha como contadora de histórias em escola particular e em produções culturais para festivais de teatro; é também diretora, atriz e pesquisadora em educação para relações étnico-raciais. “A CLT mata parte criativa do cara”, desabafa. A estabilidade, ainda que longe do ideal, cobra seu preço.
Para ela, a pesquisa fundamenta o processo criativo e proporciona caminhos antes desconhecidos. “Quero começar a fazer comédia com personagem. Por incrível que pareça, no Rio Grande do Sul, ao que dizem, é o maior consumidor no país desse formato. Tanto que temos vários que saem daqui e vão para a TV. É um nicho a explorar”, explica.
Há quem busque o meio nerd/geek como rota. Milena trabalha em uma lotérica, mas faz cosplay e comédia nas horas vagas. Pensando na produção de conteúdo para as redes, algumas contam que já investiram em equipamentos como microfone e luz para produzir com maior qualidade. Mesmo que, por enquanto, o trabalho não seja remunerado, elas reconhecem que o esforço ajuda a construir marca pessoal online e pode abrir portas mais adiante.
Para Nega, a internet é parte essencial do quebra-cabeça que ilustra o cenário atual. Com a oferta rápida de conteúdo na palma da mão, o público nem sempre enxerga no stand-up ao vivo o valor do preparo e da entrega no palco. “A cena da comédia, no geral, já está escassa, nem só feminino ou masculino, mas num todo”, observa.
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“Mulher é engraçada, sim”
Quando se trata de mulheres, porém, o desafio é ainda maior. O Netas nasceu justamente para ampliar esse espaço. “É rotativo”, explica Fantine, da Dona Chica Produções, sobre a formação do coletivo. “Espero que na próxima edição tenhamos novas meninas. Temos muito pouco ainda de mulheres na comédia”.
Por mais distante que possa parecer, o preconceito de gênero não é um fantasma do passado. Elas contam que há quem simplesmente desista de ir ao show ao ver uma mulher no folheto de divulgação, amparado na crença antiga de que “mulheres não são engraçadas”. “Mulher é engraçada, sim”, afirma Nega Gato. “Talvez só tu não achou teu nicho”.
A questão vai além do preconceito de gênero. Durante anos, a comédia foi dominada por uma perspectiva branca, masculina e heterocêntrica. “Demorou muito tempo para as pessoas se identificarem com a visão de uma mulher”, analisa Mayura. “Estamos aí para quebrar esse paradigma, não só os estereótipos. Quando falamos de maternidade, relacionamentos, corpo, sexualidade, trabalho e política, é de uma perspectiva nossa”.
Para elas, rir também é ato de resistência política. É sobre ter o ponto de vista reconhecido como legítimo, interessante, digno de atenção. Poder falar sobre as dinâmicas e dilemas da vida sem que o “ser mulher” seja automaticamente reduzido a “nicho”. Até porque, mesmo dentro do grupo que se inspira no humor ácido de Dercy Gonçalves, existem diferentes vertentes, vivências e abordagens a serem apreciadas.
O pedido delas é simples: reconhecer o que é bom. “Se começar a valorizar a galera boa, a gente se destaca. Não precisa colocar a gente só porque é mulher”, reforça Nelly.
“Estamos tomando conta da cena de forma mais abrangente e mais interessante, e ainda assim não somos tão valorizadas. É só valorizar o que é bom que a gente toma conta. Essa é a lógica”, finaliza.
*Sob supervisão de Mauren Xavier
