Cara leitora,
Se você me acompanha há algum tempo, já sabe que sou apaixonada por pessoas e suas histórias. Não importa se são encontros rápidos ou diálogos profundos com completos desconhecidos, sempre tem alguma faísca ali que me faz sentir, pensar e escrever, nessa ordem.
Recentemente, passei por Antofagasta, no Chile, a caminho do Deserto do Atacama. No hotel, ao fazer o check-in, fui atendida por um rapaz com um espanhol carregado, difícil de entender. O meu também estava longe da fluência, enferrujado pela falta de prática, mesmo sendo filha de espanhola. Tentei passar para o inglês, mas ele hesitou. Foi aí que contou: era um refugiado russo, que estava no Chile havia 11 meses.
Passei o dia com a cabeça fervilhando. Refugiado. A palavra ficou ecoando. Fui atrás da etimologia, dos dados, dos porquês. Descobri que, em 2024, quase 22 mil russos solicitaram refúgio em outros países, e que a maioria desses pedidos foi negada. A guerra, a opressão, as fugas silenciosas, tudo isso me puxou para o chão, mas foi a conversa com ele que me tocou e mexeu comigo.
Quando fiz o check-out, tive a sorte de encontrá-lo de novo. Me apresentei como escritora, e confesso que estou achando o máximo essa abordagem de explicar que escrevo para grandes jornais do Brasil, e perguntar às pessoas se elas se importam em me tirar algumas dúvidas, servindo como inspiração para minhas crônicas. Queria entender o que era, de fato, ser um refugiado. Queria ouvir dele, saber sobre os sentimentos, sobre o peso e/ou poder do termo, e não dos números divulgados na internet.
Ele me contou que a palavra “refugiado”, para ele, carrega liberdade. Sim, liberdade. Para quem teve de deixar tudo para trás, fugir de um país, de um regime, de uma vida que já não cabia mais, encontrar abrigo é, acima de tudo, encontrar a possibilidade de ser, e ser livre. Veja você, que para mim, em minha visão romântica e ingênua, ser refugiado era algo muito triste, porque você “perde”, abandona tudo e todos. Mas ledo engano, quando a situação é insustentável e insuportável, acredito, a partir dessa conversa, que o pior seja mesmo perder a vida. Em todos os sentidos.
Perguntei por que Antofagasta, no Chile? Na minha cabeça ainda tinha aquela coisa tipo, como que um russo vem parar aqui? Ele me disse o Chile era uma das três opções que tinha. Curiosa que sou, quis saber por que o Chile. Ele me contou que acabou escolhendo o país por causa de uma única pessoa. Um amigo virtual. Uma conexão. Um abraço que ainda não era físico, mas já era abrigo. E que, nos meses de conversa, também tinha se encantado com o clima da região.
E aí veio o insight de que talvez todos sejamos, de alguma forma, refugiados. Fugimos de versões antigas de nós mesmos, de relações que já não nos acolhem, de rotinas que nos adoecem, de situações no trabalho e até mesmo familiares que nos enlouquecem. E tudo o que buscamos, no fim das contas, é um abrigo.
Mas não falo aqui do abrigo como dependência emocional e física, prisão ou muleta. Falo de colo, de silêncio compartilhado, de alguém que é presença mesmo quando não diz nada. Falo daquele espaço seguro onde podemos simplesmente ser, sem cobranças, sem julgamentos, sem precisar pedir licença para existir. Daquele braço que se estica ao seu encontro de noite na cama, e você deita a cabeça e se sente no melhor lugar do mundo.
Quem é o seu refúgio? Quem é aquela pessoa que, mesmo em meio ao caos, é sinônimo de paz?
Porque talvez seja isso que a gente mais precise nesse mundo acelerado, menos julgamentos e mais refúgios. Porque, às vezes, assim como no caso do russo que me inspirou, você precisa apenas de uma, uma única pessoa.
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Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.
