Elisa Fernandez

As prateleiras da amizade

Reflexão sobre como organizamos as pessoas em nossa vida e a importância de rearranjar esses espaços para a saúde emocional

As relações também pedem escolhas, permanências e reorganizações ao longo da vida
As relações também pedem escolhas, permanências e reorganizações ao longo da vida Foto : Freepik / Divulgação / CP

Cara leitora,

Outro dia, vi um vídeo da Mônica Salgado nas redes sociais, que não apenas me fez refletir, mas também me fez revisitar algumas escolhas. Você que me acompanha sabe que não é a primeira vez que a cito.

Ela dizia algo simples, mas muito poderoso: você precisa saber em que prateleira da sua vida coloca as pessoas.

Existe uma teoria que vem ganhando força, inclusive ecoada por nomes como Mica Rocha e Bruna Marquezine, que propõe justamente isso: a ideia de que nossas relações funcionam como prateleiras emocionais. Cada pessoa ocupa um lugar diferente, com níveis distintos de intimidade, confiança e profundidade.

E, curiosamente, essa lógica não é nova.

Jesus Cristo andava com 70, sentava-se à mesa com 12, os apóstolos, mas três eram seus amigos mais próximos: Tiago, Pedro e João. E, ainda assim, havia um discípulo amado: João!

Ou seja, existem níveis de relacionamento.
E a provocação é direta: quem são, na sua vida, seus Tiago, Pedro e João?

Aquilo ficou comigo.

Fui pesquisar mais sobre a chamada teoria das prateleiras da amizade, essa ideia de que, consciente ou inconscientemente, a gente organiza as pessoas em diferentes espaços emocionais, as nossas próprias prateleiras da amizade, de acordo com intimidade, confiança e propósito.

E talvez o ponto não seja o fato de existirem prateleiras.

Mas o quanto, muitas vezes, insistimos em ignorar a necessidade de reorganizá-las de vez em quando, assim como arrumamos as gavetas dos armários. E o curioso, é que esse é o serviço que, diferente do que pode fazer no seu closet, não pode ser terceirizado.

Veja Também

Assim como nos armários organizamos as roupas por estação, nas prateleiras da amizade também há movimentos. Às vezes nos aproximamos de uns. Por razões que a vida impõe, nos distanciamos de outros. Já vivi isso. E aprendi que esse distanciamento, quando vem da clareza e não da mágoa, é um ato de amor-próprio.

Há amigos de viagem, amigos de infância que ajudaram a te moldar mesmo que hoje vocês mal se falem, amigos para o silêncio, amigos que o trabalho trouxe, amigos confidentes. E sim, há aqueles que já cumpriram seu ciclo. Não é abandono. É discernimento.

“Para estar na sua prateleira, a pessoa precisa te merecer. Precisa ser digna do espaço que ocupa no seu armário e, portanto, no seu coração”

Amizade de verdade não é só estar presente nos seus momentos difíceis. Amizade de verdade tem uma exigência silenciosa, mas absolutamente real: quem te ama não convive normalmente com quem te destruiu.

Estou falando de algo sutil e muito profundo. Estou falando daquele momento em que alguém que você considerava próximo decide que a conveniência, o interesse, o negócio ou a posição social falam mais alto do que a lealdade.

Quando alguém faz isso, ele não está apenas te dizendo em que prateleira você está. Ele está te mostrando quem ele realmente é.

A partir daí você sabe que precisa reorganizar as prateleiras, mesmo que doa. Mas há uma leveza que vem depois disso, nas escolhas, nos silêncios que protegem e não nos que omitem.

Olhe para as suas prateleiras da amizade. Não com julgamento, não com culpa. Com honestidade.

Tem coisa fora do lugar? Gente ocupando espaço que não merece? Então é hora de arregaçar as mangas e colocar a casa em ordem.

Ninguém fará isso por você.

Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.