Cara leitora,
Quando foi a última vez que se permitiu fazer algo que nunca havia feito? Mudar de ideia no meio do caminho, desembarcar antes do previsto, deixar o roteiro, tão bem planejado, escorrer pelos dedos por causa de um impulso?
Na minha última viagem, dessas que misturam encanto e exaustão, foram quase dez horas de voo e outras tantas entre aeroportos. Um dia inteiro para ir, outro para voltar. Conexões, portões, pessoas apressadas, anúncios metálicos ecoando destinos que nem sempre são os nossos. O aeroporto pode ser cansativo, eu sei, mas para quem gosta de observar, é um universo inteiro acontecendo diante dos olhos.
O aeroporto é território de despedidas dramáticas e reencontros cinematográficos. É o cenário perfeito, e me faz lembrar do programa Chegadas e Partidas, da Astrid Fontenelle, cada episódio uma emoção diferente, onde abraços parecem maiores e silêncios dizem mais que discursos. Não é preciso se alongar para entender, no aeroporto cada minuto carrega uma história pronta para acontecer.
Talvez por isso eu goste tanto de aeroporto. Ele é uma espécie de laboratório emocional. No aeroporto tudo é provisório e, justamente por isso, tudo é intenso. Pessoas que talvez nunca mais se vejam se olham como se o mundo fosse acabar ali, entre um embarque e outro.
O cinema já entendeu isso há tempos. Quantas histórias românticas começam em um aeroporto? Quantas declarações acontecem antes do último chamado? O aeroporto é o único lugar onde a razão e o coração disputam espaço em tempo real.
E então fica a pergunta. O que faz alguém desembarcar por um beijo?
O que move alguém até o aeroporto para conhecer uma pessoa que, até poucas horas antes, era apenas um nome na tela?
O que faz duas pessoas ignorarem o cansaço, a logística, a prudência, e simplesmente irem?
- Quero-quero aprender. Lições sobre liderança e gestão
- A arte de não dar conta de tudo, e tudo bem
- Você está porque gosta ou porque precisa?
Dizem que leva um segundo para se apaixonar. Talvez seja verdade. Às vezes, basta um olhar. Mas o que quase ninguém diz é que leva coragem para viver o segundo seguinte, ou o beijo.
Aí fico refletindo que, enquanto estamos vivos, devemos amar o máximo que pudermos. Não amar no sentido épico e eterno, mas no sentido presente. Amar o encontro, amar o improviso, amar o que surge quando a vida decide bagunçar o planejamento.
O homem pode agir com firmeza, atravessar um aeroporto, assumir riscos, e ainda assim o tempo e a distância despertam o menino que mora nele. A mulher pode se permitir o arroubo adolescente, se sentir como se tivesse 15 anos, na dança sem roteiro, no beijo sem garantias, e, com o mesmo tempo e a mesma distância, perceber que o intensamente foi um instante perfeito.
Nunca sabemos qual história nasce para durar. Algumas nascem para lembrar que estamos vivos. E talvez, justamente por isso, possam continuar vivas.
Entre partidas e chegadas há escolhas silenciosas, viver ou assistir. Atravessar o portão ou ficar sentado observando o painel do aeroporto. Sentir ou analisar.
Eu sigo acreditando que aeroporto não é apenas lugar de passagem. É metáfora. É fronteira entre o que a gente planeja e o que a gente ousa viver.
E você? Prefere viver intensamente ou assistir à própria vida de fora?
Às vezes, tudo o que temos é um segundo. E um segundo pode ser suficiente, até o próximo embarque ou desembarque.
Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.
