Elisa Fernandez

Nem todo amor vai ficar...

Elisa Fernandez se inspira na lenda andina dos Vulcões Licancabur e Kilma para refletir sobre a impermanência do amor

Alguns amores não foram feitos para durar no tempo, mas para durar na alma
Alguns amores não foram feitos para durar no tempo, mas para durar na alma Foto : Freepik

Cara leitora,

Nem todo amor vai ficar ao nosso lado. Mas os que são eternos, ainda que ausentes, encontram algum lugar para morar, dentro da gente ou às vezes até no alto de uma montanha.
Foi no meio do deserto do Atacama, o mais seco do mundo, que ouvi uma das histórias mais bonitas sobre amor, ausência, legado e reconexão. E não era uma fábula, era vida vivida.

Mas antes, deixa eu te contar uma lenda.

A lenda do Licancabur e da Kilma é uma das mais belas e simbólicas histórias andinas, profundamente enraizada na cosmovisão dos povos atacamenhos, que habitam o deserto do Atacama, no norte do Chile. Como muitas lendas da região, ela explica a formação das montanhas e vulcões ao redor a partir de arquétipos humanos, dando vida, emoção e história aos elementos da paisagem.

Os povos atacamenhos contam que o imponente vulcão Licancabur, que vigia silencioso o Deserto do Atacama, era um guerreiro apaixonado por Kilma, uma montanha suave e bela. Viviam um amor profundo até que Juriques, irmão de Licancabur, tomado pelo ciúme, iniciou uma batalha. A luta foi tão intensa que Juriques perdeu o topo (até hoje a cratera aberta é testemunha da ira).

Os deuses, para punir o conflito e restaurar a ordem, separaram os amantes. Licancabur e Kilma nunca mais se tocaram. Mas podem se ver, todos os dias. E talvez isso baste para quem já se amou de verdade.

Essa lenda andina fala sobre o que a gente raramente aprende a aceitar: que alguns amores não foram feitos para durar no tempo, mas para durar na alma.
E às vezes, é na ausência que eles ganham forma. Às vezes, é justamente quando o amor vai ficar apenas na lembrança, que ele se torna eterno.

Foi essa mesma sensação que me invadiu ao ouvir a história da Alexandra, nossa guia naquele dia de céu impossível e vento cortante na Cordilheira do Sal.

Ex-paramédica, ela mudou de vida após a pandemia. O pai, Javier, um guia apaixonado pelo Atacama, morreu há três anos. E no dia do nosso tour, ela revelou: era aniversário dele.

Com a voz embargada, um sorriso escancarado e uma alegria ímpar, contou que levou as cinzas do pai até o topo do Licancabur.
Disse que ele amava tanto a história do vulcão, que ela quis deixá-lo ali, onde poderia, quem sabe, reencontrar o amor e “viver para sempre” com seu sorriso.

E ali estava ela. Contando sobre um pai absurdamente presente, mesmo ausente.
Um amor que vive mesmo sem estar.
Um laço que se construiu não só pelo sangue ou sobrenome, mas pela escolha de carregar o legado e o afeto.

Veja Também

A história da Alexandra não era sobre morte. Era sobre presença em outras formas. Sobre amar o suficiente para deixar ir. Sobre aceitar que o amor vai ficar, mas de outro jeito.
Sobre encontrar o pai no vento que sopra das montanhas, no calor do sol andino e no silêncio que acolhe. Sobre o brilho nos olhos ao olhar para o vulcão e saber que lá está ele feliz.

Fiquei pensando: quantas vezes tentamos segurar o que já é eterno por si só?
Quantas vezes buscamos o extraordinário e ignoramos o óbvio: a felicidade, muitas vezes, está no simples?

Na quietude de um deserto. Na beleza de um vulcão que observa sua amada, mesmo sabendo que nunca mais poderá tocá-la.

Alguns amores moram no cotidiano. Outros, no topo de uma montanha.
E todos, quando verdadeiros, seguem sorrindo.

Como o Licancabur, que ainda hoje, todos os dias, olha para Kilma.
Sem pressa, sem posse, sem fim.
Como quem sabe que o amor vai ficar de alguma forma, mesmo que não seja como antes.

Porque nem todo amor vai ficar, mas alguns, mesmo sem ficar, nunca partem.


Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.