Cara leitora,
Demorei, tentei evitar, mas não consigo deixar esse tema fora das nossas reflexões. Seria hipocrisia não usar minha voz.
Remoí tanto o assunto na cabeça e por tantos dias que, veja só, fui parar nas moedas. Sim, moedas. Descobri que, dependendo do contexto, o termo pode assumir sentidos literais, simbólicos, históricos e até filosóficos. A maioria tem dois lados distintos, o anverso, com a esfinge ou símbolo do país, e o reverso, com o valor monetário ou algum brasão. Mas existem moedas bifaciais, aquelas com os dois lados iguais.
No campo das ideias, a “moeda” é metáfora poderosa para falar de dualidades, de tensão entre opostos. Mas algumas situações não têm dois lados. E esse é um desses casos.
Sessenta e um socos.
Sessenta e um socos, em um país onde o feminicídio cresce de forma assustadora.
Sessenta e um socos que desfiguraram o rosto de uma mulher, em uma clara tentativa de feminicídio, não têm o outro lado da moeda, como muitos tentam argumentar.
É preciso trazer números dessa triste realidade. Mais de 1.400 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil em 2024, sendo que 80% foram assassinadas por companheiros ou ex-companheiros. A cada seis minutos, uma pessoa é estuprada.
Não, não há outro lado da moeda. A Juliana não foi exceção, ela é regra.
Quem já passou por qualquer tipo de abuso sabe do que estou falando. O abuso não é só aquele que desfigura o rosto, é aquele que destrói por dentro, com ou sem cicatrizes aparentes.
Juliana foi inteligente o suficiente para não sair do elevador. Sabia que ali seu algoz seria filmado.
E para quem afirma que ela fez de propósito. Foi, ironicamente o propósito do ignorante, que a salvou de ser morta.
Aí eu te pergunto: se você soubesse que corre risco de vida, preferiria morrer em silêncio, num canto escondido, ou diante de todos, com estardalhaço e provas?
Pior do que a violência são os comentários que vêm depois, sobre o que ela teria feito para merecer isso. Ela poderia ter feito o que quisesse, do jeito que quisesse, e nada, absolutamente nada, justifica tamanha atrocidade.
Você já sofreu algum tipo de assédio? Já esteve em uma situação em que a pessoa se descontrola e quebra a casa? Ou que, para não te dar um soco, soca a parede e quebra a mão? Já te mandaram calar a boca ou “tomar naquele lugar”? Já usaram seus dados, seu nome, seu crédito, te endividaram a ponto de você ser notificada judicialmente? Você já teve medo a ponto de dormir com a porta do quarto trancada?
Isso não acontece só com mulheres sem instrução ou sem rede de apoio. Acontece em qualquer meio, em qualquer lugar, com qualquer uma. Comigo, com você e vem de onde você menos espera.
Vergonha, medo, indignação e uma série de outros sentimentos imperam. Você perde autoestima, coragem, até a vontade de viver.
Aprendi a engolir sapos, a evitar atritos, a não enfrentar determinadas pessoas. Acreditei por muito tempo que “o lobo só é mau porque só ouvimos a Chapeuzinho”. Ele é mau, fato. Deveria ser punido, exposto, condenado, e pagar por seus atos.
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Sessenta e um socos.
E o desejo de que seu rosto, desfigurado por uma tentativa de feminicídio, ajude a salvar outras mulheres.
A reconstrução da Juliana será muito, mas infinitamente maior do que a facial. E talvez o mais duro nisso tudo seja saber que ela teve sorte. Sorte por ter sido filmada. Por não ter sido morta.
O feminicídio não acontece quando a mulher morre. Ele começa bem antes, nos primeiros empurrões, no controle, no medo.
Que esse caso não seja apenas mais um, e ela mais uma vítima da nossa justiça morosa e falha. Que sirva de alerta para homens que acham que seus atos se justificam, e de coragem para que as mulheres não mais silenciem e sigam desfiguradas por dentro.
Essa moeda nunca terá dois lados.
Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.
