Marina Käfer

Jaqueta viral: vale seguir a tendência ou investir para durar?

Marina Käfer mostra a diferença entre o consumo de peças que viralizam nas redes sociais e o investimento em itens que constroem seu estilo

A modelagem oversized e a gola estruturada ajudam a explicar por que a peça se espalhou tão rápido nas redes
A modelagem oversized e a gola estruturada ajudam a explicar por que a peça se espalhou tão rápido nas redes Foto : Divulgação / CP

De tempos em tempos, uma peça toma conta do Instagram, feed todos iguais com a mesma estética e a mesma peça de roupa… atualmente a jaqueta da vez, “must-have”, é inspirado em um modelo da YSL, Saint Laurent, em couro de cordeiro que custa seu R$ 70 mil reais…

A jaqueta com corte perfeito que aparece repetido à exaustão em diferentes corpos, de diferentes fornecedores, mas com a mesma intenção: pertencer.

E aí começa a corrida. Não pela construção de um estilo próprio, mas pela reprodução de uma estética que já nasce saturada e quem usa não sabe nem da onde saiu essa modelagem.

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Mas o que existe por trás dessa urgência de compra?

Existe uma diferença silenciosa, e cada vez mais relevante, entre consumir algo para durar e consumir algo para viralizar. A peça viral é, quase sempre, pensada para o agora: preço mais acessível, produção acelerada, materiais que imitam o visual desejado, mas não a sua longevidade. É a moda do instante. Bonita na foto, descartável no armário.

E é aqui que entra um ponto que muita gente evita discutir: o material.

Uma jaqueta de poliuretano pode até cumprir bem o papel estético nos primeiros meses. Tem brilho, estrutura, presença. Mas o tempo, e o uso, revelam a verdade: descasca, racha, perde forma. Em um ano, muitas vezes menos, ela já não existe como peça usável. E então volta-se ao ciclo: comprar outra, seguir a tendência seguinte, repetir o processo.

Agora compare com o couro.

Sim, ele gera debate. Não é unanimidade. Mas quando falamos de durabilidade e impacto real, não apenas discurso, ele ocupa um lugar difícil de ignorar. Uma boa peça em couro atravessa anos, às vezes décadas. Ela envelhece com dignidade, cria marcas que contam história, molda-se ao corpo. Não é descartada, é incorporada. E, mais importante: pode ser passada adiante.

Enquanto o poliuretano se desfaz e vira resíduo, o couro permanece em circulação.

E isso muda completamente a lógica do consumo.

Porque não se trata apenas de “comprar uma jaqueta mais cara”. Trata-se de comprar menos, escolher melhor e entender que estilo não se constrói na pressa, se constrói na permanência.

O impacto disso no guarda-roupa é direto. Menos acúmulo, mais identidade. Menos repetição de tendência, mais consistência estética. E, no longo prazo, menos dinheiro desperdiçado em peças que não sobrevivem ao próprio hype.

A pergunta, então, deixa de ser “vale a pena comprar a jaqueta que viralizou?” e passa a ser: vale a pena investir em algo que continua fazendo sentido quando a tendência acabar e eu precisar de uma peça boa e atemporal?

Porque ela vai acabar. Sempre acaba.

E o que fica, no armário e na imagem que você constrói, diz muito mais sobre escolha do que sobre moda.

Marina Käfer é formada em Design de Moda e pós-graduada em Comportamento do Consumidor e Moda, Mídia e Mercado. Já foi professora consultora de varejo em instituições como Senac e Sebrae. Tem especializações em styling, jornalismo de moda e visagismo, com experiência no mercado plus size.