Amamentação: informação e apoio fazem diferença desde a gestação

Orientação durante a gestação e acompanhamento especializado ajudam mães a superar inseguranças e garantem benefícios duradouros para os bebês

A busca por informação durante a gestação ajudou Fabíola Schenkel a enfrentar a amamentação com mais segurança
A busca por informação durante a gestação ajudou Fabíola Schenkel a enfrentar a amamentação com mais segurança Foto : Arquivo Pessoal / Fabíola Schenkel / CP

Quando descobriu que seria mãe, Fabíola Schenkel Levorci, de 32 anos, decidiu que chegaria ao momento da amamentação o mais preparada possível. Ao longo da gestação, buscou informações em livros, sites especializados e esclareceu dúvidas antes mesmo do nascimento de Maria Antônia, hoje com quatro meses.

O conhecimento adquirido trouxe confiança para enfrentar os desafios e transformar um período cercado de expectativas em uma experiência mais tranquila. Para a chefe do Serviço de Neonatologia do Hospital Moinhos de Vento, Desirée Volkmer, esse preparo faz toda a diferença.

A médica explica que a experiência de Fabíola traduz um dos principais objetivos do Agosto Dourado, campanha voltada à promoção do aleitamento materno. Segundo a especialista, a informação reduz a ansiedade, fortalece a confiança da mãe e permite que ela compreenda que a amamentação é um processo de aprendizado. "Quando a família recebe orientação adequada desde a gestação, ela chega mais segura para enfrentar os desafios dos primeiros dias", afirma.

Embora o Brasil tenha avançado nas últimas décadas, o aleitamento materno exclusivo ainda está abaixo da meta estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Dados do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enani), em 2019, principal levantamento sobre o tema no país, mostram que 45,8% dos bebês brasileiros menores de seis meses recebem apenas leite materno. O percentual está próximo da média mundial, mas ainda distante da meta de 70% estabelecida pela OMS e pelo Unicef para 2030, reforçando a importância de campanhas e do acompanhamento especializado.

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Apoio desde o nascimento

O incentivo ao aleitamento materno no Hospital Moinhos de Vento começa no pré-natal e se intensifica quando envolve bebês prematuros. Nesses casos, o leite materno é a melhor fonte de nutrição, protegendo contra complicações intestinais e favorecendo o desenvolvimento cerebral, imunológico, visual e pulmonar.

Um estudo científico publicado em 2015 pelo periódico científico Acta Paediatrica reforçou a ligação entre o aleitamento e o desenvolvimento cognitivo infantil, ao reunir dados de 17 diferentes análises. A investigação concluiu que crianças amamentadas apresentam, em média, um aumento de 3,44 pontos no Quociente de Inteligência (QI).

Além dos ganhos cognitivos, o aleitamento também carrega um valor afetivo que se torna ainda mais significativo quando o bebê precisa ficar internado. De acordo com Desirée Volkmer, na UTI Neonatal do Hospital Moinhos de Vento as famílias recebem orientação desde as primeiras horas de vida do bebê sobre a extração, o armazenamento e a oferta do leite materno. "Ainda que o bebê não consiga mamar diretamente no peito, ele pode receber o leite da própria mãe, pois cada gota faz diferença, especialmente para os prematuros", destaca.

A chefe do Serviço ainda reforça que o sucesso da amamentação depende de uma rede de apoio que envolve família e profissionais de saúde, pois amamentar vai muito além da alimentação. "A orientação adequada desde os primeiros dias é fundamental para estabelecer e manter a amamentação. Por isso, informação, acolhimento e acompanhamento qualificado são fundamentais para que essa experiência seja bem-sucedida", afirma.

Aleitamento materno: o que é importante saber

Haroldo Torres Alves, pediatra e professor de pós-graduação da Afya Educação Médica Curitiba, reforça orientações e explica por que o leite materno deve ser prioridade nos primeiros meses de vida.

Por que a alimentação exclusiva com leite materno é tão essencial nos primeiros meses de vida?

“O aleitamento contém nutrientes adequados para o crescimento e o desenvolvimento psicomotor, além de transmitir anticorpos contra vírus e bactérias produzidos ou adquiridos pela mãe. A criança é considerada lactante até os dois anos de idade e pode manter o aleitamento materno nesse período.

Nos seis primeiros meses, a recomendação é de amamentação exclusiva. Depois, começa a introdução gradativa de alimentos saudáveis, com aumento da variedade e das quantidades e redução progressiva das mamadas. Em média, a criança deixa de mamar entre 1 ano e 1 ano e 3 meses”, explica.

Quais nutrientes do leite materno contribuem para o desenvolvimento da criança?

“O leite materno contém proteínas importantes para o ganho de peso, crescimento e formação de tecidos e músculos. Também possui gorduras e carboidratos, como a lactose, que ajudam na absorção de cálcio e ferro e fornecem energia para o desenvolvimento cerebral e psicomotor.

Também transmite lactobacilos prebióticos, que contribuem para a formação da flora intestinal e a absorção dos nutrientes. Entre outros componentes estão a vitamina A, importante para a visão e as células de defesa; minerais como ferro e zinco, que ajudam a prevenir anemias e fortalecer a imunidade; imunoglobulina A (IgA), anticorpo que protege o intestino e as vias respiratórias; e lactoferrina, proteína que combate bactérias nocivas e protege o trato digestivo.

O leite materno ainda contém oligossacarídeos, açúcares que funcionam como prebióticos e alimentam as bactérias benéficas do intestino, além de hormônios e enzimas que auxiliam no amadurecimento dos órgãos internos, especialmente estômago e intestino, e fatores de crescimento do organismo.”

Quais são os principais riscos de introduzir outros alimentos precocemente?

“O aleitamento materno é necessário, pelo menos, nos primeiros seis meses de vida e pode ser mantido até os dois anos. Somente depois dos seis meses outros alimentos devem ser introduzidos progressivamente.

A introdução precoce pode substituir componentes importantes presentes no leite materno e provocar dificuldades de digestão, com cólicas, gases e alterações intestinais, incluindo presença de muco e até sangue nas fezes.

Esses sintomas podem indicar processos inflamatórios ou infecciosos provocados pela irritação da mucosa intestinal e levar à má absorção dos alimentos, anemia, perda de peso, desnutrição e queda da imunidade, favorecendo infecções de repetição.”

O que é recomendado para mães que não conseguem amamentar nesse período?

“É muito importante que essas mães tenham acompanhamento pediátrico e orientação sobre técnicas de amamentação. Dessa forma, o aleitamento pode ser assistido e supervisionado, contribuindo para a saúde desde a primeira infância e oferecendo uma base alimentar natural e saudável por meio do leite materno.”