Autocuidado diário: veja oito dicas para inserir na rotina

Incorporar práticas de cuidado consigo ao cotidiano​ sem transformá-las em mais uma cobrança ajuda a melhorar a qualidade de vida

Pequenas atitudes podem contribuir​ para bem-estar emocional
Pequenas atitudes podem contribuir​ para bem-estar emocional Foto : Magnific / Divulgação / CP

Mais da metade dos brasileiros acreditam que o maior problema de saúde no País está relacionado à saúde mental. De acordo com o relatório Ipsos Health Service 2025, essa preocupação, que aparece em primeiro lugar com 52%, está à frente de outros problemas de saúde como câncer, abuso de drogas e obesidade.

O estresse também é visto de forma significativa no Brasil. A condição foi lembrada por 33% dos respondentes quando perguntados sobre os principais problemas de saúde no País, e 39% apontaram que, em 2024, se estressaram várias vezes a ponto de sentir que não conseguiam lidar com as coisas.

Diante de uma rotina marcada por múltiplas responsabilidades, excesso de telas e dificuldade para conciliar trabalho, descanso e vida pessoal, a saúde mental ecoa na cabeça dos brasileiros: 74% dos entrevistados da pesquisa relataram que pensam frequentemente sobre o tema. Como, então, transformar os pensamentos de preocupação com a saúde mental em autocuidado?

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Segundo as psicólogas do Centro de Estudos e Pesquisas Dr. João Amorim (Cejam) Caroline Rodrigues da Silva e Luana Pimentel, autocuidado é o conjunto de atitudes e comportamentos intencionais adotados para preservar e promover a saúde física, mental, emocional e social. Mais do que um momento de descanso ou uma ação isolada, ele envolve práticas contínuas e escolhas conscientes, adaptadas às necessidades e possibilidades de cada pessoa.

Um dos equívocos mais comuns, como apontam as profissionais, é acreditar que cuidar de si exige muito tempo, dinheiro ou condições especiais. ​“Não existe uma fórmula única de autocuidado: o que promove bem-estar para uma pessoa pode não ser o mesmo para outra”, explicam Caroline e Luana.

As especialistas apresentam orientações para incorporar o autocuidado à rotina de forma realista, sem transformá-lo em uma nova fonte de cobrança. Leia a seguir:

1. Acrescentar pequenas pausas no cotidiano

Para quem precisa conciliar família, trabalho e outras responsabilidades, o autocuidado pode começar com pausas de alguns minutos durante o dia​, como interromper​ temporariamente uma atividade, descansar ou reservar um breve período para fazer algo prazeroso​​.

Esses momentos não precisam seguir duração ou frequência rígidas, pois o objetivo não é incluir mais uma obrigação na agenda. Eles devem ser adaptados às possibilidades individuais, a fim de que seja possível encontrar formas viáveis de atender às próprias ​demandas​.

“Pequenas ações, realizadas de forma consistente e respeitando a realidade de cada pessoa, tendem a ser mais eficazes do que mudanças radicais que são difíceis de manter”, explicam as psicólogas. “O autocuidado deve aliviar a sobrecarga, e não se tornar mais uma fonte de cobrança.”

2. Organizar uma rotina possível

Manter uma rotina organizada, com horários equilibrados para trabalho, descanso e lazer, ajuda a reduzir o estresse e proporciona maior sensação de controle sobre o cotidiano. Isso não significa preencher a agenda com novas tarefas, mas estabelecer metas realistas e organizar os compromissos de acordo com o tempo e as condições próprias.

O autoconhecimento é uma parte importante desse processo. ​Através dele,​ o indivíduo consegue identificar quais práticas fazem sentido ​no seu dia a dia ​e quais expectativas precisam ser revistas.

Para as psicólogas, o autocuidado não deve ser adiado até que todas as responsabilidades sejam cumpridas. Ele pode estar presente na maneira como a pessoa ​se ​organiza, toma decisões, respeita os próprios​ limites ​e reserva​ um​ tempo para​ si.​​

3. Ter momentos de descanso

Assim como o trabalho e as demais responsabilidades, o descanso é essencial​ para a recuperação física e mental e, por isso, devem fazer parte d​o cotidiano. Sempre que possível, ​deve-se​ ​equilibrar​ sono de qualidade​ com​ momentos de descanso, trabalho, lazer e atividade física. “O descanso deve ser entendido como uma necessidade, e não como um sinal de preguiça ou falta de produtividade”, ressaltam as especialistas.

É essencial estar atento à diferença entre a necessidade natural de repouso e um cansaço intenso e persistente. Quando o cansaço se torna frequente, intenso ou começa a interferir nas atividades diárias, pode ser um sinal de esgotamento ou de outros problemas de saúde mental, ​situação que demanda​ avaliação profissional.

4. Fazer atividades prazerosas e de lazer

O lazer desempenha um papel ​primordial​ ​no autocuidado​ porque oferece momentos de pausa e recuperação emocional. Ler um livro, caminhar em um parque, desenvolver um hobby, encontrar pessoas queridas ou realizar outra atividade ​descontraída ​são ​algumas das ​possibilidades.

Além de contribuir para a redução do estresse e a melhora do humor, o lazer favorece a criatividade e pode ajudar a estabelecer maior equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. Por isso, não deve ser tratado como perda de tempo nem como uma recompensa permitida somente depois que todas as obrigações forem cumpridas. Reservar espaço para atividades prazerosas também é uma maneira de preservar a saúde​.

5. Repensar o uso excessivo de telas

O uso excessivo de telas, redes sociais e jogos ​​online​​, assim como outros comportamentos compulsivos, pode afetar o sono, o humor, os relacionamentos e a qualidade de vida sem que a pessoa perceba imediatamente.

Rever esses hábitos e observar como eles interferem no cotidiano são formas de autocuidado. A intenção não é estabelecer uma proibição generalizada, mas buscar uma relação mais equilibrada com a tecnologia.

Observar o tempo de uso, o impacto dos conteúdos consumidos e a dificuldade para se desconectar ​auxilia a​ identificar a necessidade de mudanças na rotina.

6. Estabelecer limites e cultivar relações saudáveis

As conexões interpessoais também são um aspecto importante do autocuidado. Manter vínculos saudáveis com familiares, amigos e outras pessoas promove o sentimento de pertencimento, fortalece a rede de apoio e contribui para o desenvolvimento pessoal e emocional.

Ao mesmo tempo, é necessário reconhecer situações que geram desgaste e aprender a definir prioridades e respeitar as próprias necessidades. Esse processo começa pelo autoconhecimento e pela identificação dos momentos em que é preciso se posicionar.

​​Uma comunicação aberta​ contribui para relações mais equilibradas. A psicoterapia ​é uma aliada​​​ ​​nesse processo, ​oferecendo​ maior clareza sobre a maneira como a pessoa se relaciona consigo mesma e com os outros.

7. Prestar atenção às mudanças no funcionamento diário

Sensação constante de ​exaustão​, dificuldade para equilibrar as diferentes áreas da vida, alterações no sono ou no apetite, oscilações de humor, aumento da ansiedade, irritabilidade, desânimo, fadiga persistente e redução da produtividade estão entre os sinais que merecem atenção.

O isolamento social deve ser observado, principalmente quando a pessoa passa a evitar o convívio com familiares e amigos ou perde o interesse por atividades que antes lhe proporcionavam prazer. Sintomas físicos​ incluem​ falta de ar, palpitações e sudorese.

Uma maneira simples de realizar um “check-up emocional” é observar mudanças no próprio funcionamento, considerando sua duração e seu impacto no cotidiano. ​

8. Buscar apoio profissional quando necessário

O autocuidado é uma ferramenta importante para promover o bem-estar, mas há momentos em que, sozinho, não é suficiente. Tentar enfrentar de forma solitária dificuldades mais profundas e adiar a busca por atendimento ​não são ações recomendadas. ​Mudanças nessa área exigem tempo, dedicação e constância​.

“Quando o sofrimento emocional é intenso, persistente ou começa a comprometer a rotina, os relacionamentos e a qualidade de vida, é hora de procurar ajuda psicológica”, finalizam as profissionais. Nos casos de transtornos como ansiedade e depressão, o acompanhamento psicológico é fundamental e, quando necessário, deve ser associado ao tratamento psiquiátrico.