Por muito tempo, falar em moda escandinava significou pensar em linhas limpas, tons neutros, funcionalidade e uma elegância quase silenciosa. A Copenhagen Fashion Week, realizada entre 3 e 7 de agosto, mostrou que essa imagem está mudando. Na temporada de primavera/verão 2027, o minimalismo continua presente, mas passa a dividir espaço com cores intensas, transparências, rendas, crochês, referências nostálgicas e combinações bem menos previsíveis.
A edição também teve um significado especial. Em meio às comemorações pelos 20 anos da Copenhagen Fashion Week, o calendário oficial reuniu 34 desfiles e apresentações, entre marcas consolidadas, novos talentos e nomes internacionais.
Mais do que apontar uma única tendência, as coleções indicam uma mudança de comportamento. A roupa funcional não desaparece, mas ganha personalidade. O resultado é uma estética escandinava menos rígida e disposta a misturar elementos que, até pouco tempo atrás, pareciam pertencer a universos distintos. A leitura da Vogue sobre a temporada também identificou essa perda de protagonismo do minimalismo em favor de cores, texturas, rendas e uma moda mais expressiva.
Rendas, crochê e memórias afetivas
Uma das referências mais curiosas da temporada parece ter saído diretamente dos antigos armários de família. Rendas, algodões lavados, crochês e construções que lembram toalhas, enxovais e peças feitas à mão surgiram nas coleções apresentadas em Copenhagen.
A tendência apareceu em diferentes interpretações nas passarelas, com marcas como Studio Constance, Herskind, The Garment, MKDT e Skall Studio. A Vogue Scandinavia chamou atenção justamente para essa aproximação entre a moda contemporânea e os antigos enxovais, com tecidos e técnicas que evocam trabalhos manuais e peças herdadas de outras gerações.
O interessante é que a referência não resulta necessariamente em uma estética vintage. Ao contrário. Recortes, sobreposições, proporções contemporâneas e transparências fazem com que esses elementos tradicionais ganhem outro significado. É o artesanal entrando na moda não apenas como decoração, mas como linguagem.
O branco fica menos básico
O branco também teve presença importante na temporada, especialmente acompanhado por tecidos leves, rendas, transparências e volumes. A combinação reforça um romantismo que aparece menos comportado. Em vez de vestidos excessivamente delicados, surgem peças que deixam partes do corpo à mostra, brincam com lingerie, sobreposições e diferentes graus de transparência.
Esse movimento também chegou às ruas de Copenhagen. Durante a semana de moda, renda, crochê e tecidos transparentes apareceram entre os convidados dos desfiles, muitas vezes combinados a peças esportivas ou lingerie colorida. É um romantismo com certa irreverência, distante da ideia de perfeição.
Cor para romper o silêncio
Outra mudança evidente está na paleta. Se o chamado quiet luxury ajudou a transformar bege, cinza, preto e branco em sinônimos recentes de sofisticação, Copenhagen parece interessada em aumentar o volume dessa conversa.
Cores saturadas, estampas e combinações inesperadas apareceram ao longo da semana. Entre as marcas que ajudam a representar esse movimento está a Stine Goya, conhecida justamente por oferecer uma alternativa mais colorida ao minimalismo escandinavo. A grife retornou ao calendário da Copenhagen Fashion Week nesta temporada.
A Marimekko também reforçou essa direção. Para a primavera/verão 2027, a diretora criativa Rebekka Bay apresentou uma coleção descrita como mais jovem e sedutora, trabalhando uma paleta saturada ao lado de novas silhuetas e técnicas. Não significa que os neutros estejam condenados ao exílio fashion. Significa apenas que eles ganharam concorrência.
Esportivo e romântico no mesmo look
Talvez uma das ideias mais interessantes vistas em Copenhagen seja justamente a ausência de obrigação de escolher uma estética única. Nas ruas, shorts esportivos apareceram acompanhados por saltos e cintos. Em outro extremo, vestidos florais, babados e referências campestres trouxeram uma espécie de romantismo nostálgico. Lenços foram usados na cabeça, no pescoço e na cintura, enquanto óculos de formato amplo, pochetes e sandálias de plataforma ajudaram a completar os looks.
Essa mistura diz bastante sobre uma moda que parece menos interessada em seguir fórmulas prontas. A peça esportiva não precisa pertencer apenas à academia. A renda não precisa significar delicadeza. E o vestido romântico pode conviver com acessórios urbanos.
Bolsas e acessórios querem aparecer
Os acessórios também ganharam papel de destaque nas passarelas. Na coleção de Nicklas Skovgaard, uma parceria com a marca dinamarquesa Hvisk recuperou as tradicionais bolsas com fecho metálico, mas alterou completamente sua escala e suas cores.
Modelos com aparência retrô surgiram maiores e em tonalidades vibrantes, transformando um detalhe associado a outras décadas em objeto de desejo contemporâneo. A fórmula resume bem o espírito desta temporada: recuperar algo conhecido e deslocá-lo de contexto.
Retornos importantes marcam a temporada
A edição de aniversário também foi marcada por reencontros. By Malene Birger voltou ao calendário depois de seis anos afastada das passarelas de Copenhagen. Stine Goya e Marimekko também estiveram entre os nomes que retornaram nesta temporada.
Ao lado das marcas nórdicas, a norte-americana Collina Strada inaugurou o programa de convidados internacionais da Copenhagen Fashion Week. A marca, criada por Hillary Taymour, levou à passarela uma coleção desenvolvida especialmente para Copenhagen com peças únicas construídas a partir de materiais reaproveitados.
A participação amplia outro movimento importante da semana de moda dinamarquesa: o interesse em posicionar Copenhagen como uma plataforma internacional, sem abandonar o vínculo com novos criadores e com a produção nórdica.
Sustentabilidade exige uma leitura cuidadosa
A Copenhagen Fashion Week também construiu sua reputação internacional ao estabelecer requisitos ambientais e sociais para as marcas participantes do calendário oficial. Mas existe uma diferença importante entre atender aos critérios da organização e receber uma certificação de sustentabilidade.
A própria Copenhagen Fashion Week ressalta que seu sistema não funciona como selo ou auditoria e que o cumprimento dos requisitos mínimos não permite classificar automaticamente uma marca ou um produto como sustentável.
Para a temporada SS27, dois dos padrões relacionados a materiais também tiveram sua aplicação temporariamente suspensa enquanto o setor discute novos parâmetros. É uma distinção importante em uma indústria na qual discursos ambientais também se transformaram em ferramentas de marketing.
Um novo jeito de olhar para o estilo escandinavo
O que Copenhagen propõe para o verão de 2027 talvez não possa ser resumido a uma peça ou uma cor. O movimento mais interessante está justamente na liberdade de misturar. A funcionalidade característica do design nórdico permanece, assim como a preocupação com roupas que possam fazer parte da vida cotidiana.
Mas agora ela convive com transparências, cores vibrantes, trabalhos artesanais, referências antigas, volumes e acessórios capazes de transformar o look. Depois de temporadas dominadas pelo luxo silencioso, Copenhagen parece sugerir algo bem mais divertido: a elegância também pode fazer barulho.
