Cores 2027: o retorno da intensidade, do brilho e da expressão

Pesquisas apresentadas no InspiraMais apontam volta de cores vivas, contrastes, brilhos e superfícies táteis em calçados, acessórios e vestuários

Cores quentes, brilhos e texturas ganham protagonismo nas pesquisas de materiais para calçados, bolsas e acessórios em 2027
Cores quentes, brilhos e texturas ganham protagonismo nas pesquisas de materiais para calçados, bolsas e acessórios em 2027 Foto : Assintecal / Divulgação / CP

Depois de temporadas marcadas por tons neutros, minimalismo e uma certa estética da discrição, a cor volta a ocupar o centro da conversa na moda. Para 2027, ela deixa de ser apenas detalhe de acabamento e passa a funcionar como linguagem de identidade, expressão e construção de produto.

Esse movimento apareceu com força no InspiraMais, realizado em São Paulo, onde pesquisas e lançamentos de materiais para calçados, bolsas, acessórios e vestuário apontaram uma moda mais cromática, sensorial e aberta à experimentação. Não se trata apenas de escolher uma cor da estação, mas de entender como tons, contrastes, brilhos, texturas e superfícies passam a traduzir comportamento.

Para Walter Rodrigues, coordenador do Núcleo de Pesquisa e Design da Assintecal, a ideia de uma única cor dominante já não responde ao momento da moda. “Eu dou muita risada quando as pessoas me perguntam qual é a cor. Eu não sei. Eu tenho 30 cores e a cor que você quiser”, afirma.

É uma mudança. A moda deixa de trabalhar com uma resposta única e passa a oferecer possibilidades. Rosa claro, pink, brilho, neutros, tons profundos, verdes, azuis, metalizados e cores vibrantes podem coexistir em uma mesma temporada. O consumidor, cada vez mais, determina o que faz sentido para sua identidade, seu desejo e seu modo de vida.

A cor como construção de identidade

Em 2027, a cor aparece menos como uma imposição e mais como ferramenta de expressão. Ela pode ser intensa, orgânica, brilhante, suave, tecnológica, escura ou divertida. O ponto central está na liberdade de combinação.

Essa leitura acompanha uma mudança mais ampla no consumo. A busca por produtos com personalidade, toque, origem e permanência também passa pela cor. O tom escolhido deixa de ser apenas visual e passa a comunicar postura, humor, memória, energia e pertencimento.

Para Walter Rodrigues, esse movimento acompanha uma moda em que as marcas precisam ter mais clareza sobre quem são. A cor, nesse cenário, ajuda a reforçar assinatura. Não é apenas “usar vermelho” ou “apostar no azul”, mas entender como uma paleta conversa com a identidade da marca e com o consumidor que ela deseja alcançar. A pergunta, portanto, muda. Em vez de “qual cor vai pegar?”, o debate passa a ser: que história essa cor ajuda a contar?

Anos 1980, blocos de cor e contrastes

Na JR Soluções, essa retomada cromática aparece na coleção Block Essence, apresentada para o Outono-Inverno 2027. A proposta coloca a cor como protagonista da criação, em diálogo com blocos cromáticos, geometrias, contrastes intensos e referências à energia visual dos anos 1980.

“As cores estão vindo mais fortes e mais vivas para 2027”, afirma Elen Giovani Rosaboni, diretora da JR Soluções.

A coleção parte de uma leitura que aponta para a volta da liberdade criativa depois de temporadas mais contidas. O universo gráfico dos blocos de cor aparece como referência, assim como a geometria e o dinamismo visual associados aos anos 1980. A inspiração não surge como nostalgia literal, mas como releitura contemporânea de um período em que a cor tinha presença, ritmo e atitude.

O cubo mágico é uma das referências conceituais da coleção. Mais do que um ícone visual da década, ele simboliza a combinação entre lógica e experimentação. Na prática, essa ideia aparece em materiais que misturam tons fortes, pontos de luz, efeitos holográficos, tramas, xadrezes reinterpretados e sobreposições.

Preto como base para a cor vibrar

Um dos pontos interessantes da leitura da JR Soluções é o papel do preto. Em vez de apagar a cor, ele aparece como base estruturante, ajudando a organizar contrastes e dar profundidade aos tons vibrantes.

A lógica é quase gráfica: o preto cria contorno, intensifica o brilho e permite que cores fortes ganhem mais presença. Na coleção, há combinações em que o neon aparece por baixo e o preto por cima, ou em que vermelho, pontos de luz e misturas cromáticas criam efeitos visuais de movimento.

Também aparecem tecidos prateados com composições coloridas, superfícies teladas, tramas com aparência de profundidade e materiais que parecem mudar conforme a incidência da luz. É uma cor menos plana e mais construída.

Para a indústria, isso é relevante porque a tendência não se limita à cartela. Ela depende do material, da textura e do acabamento. Um mesmo tom muda completamente quando aparece em verniz, tecido telado, laminado acamurçado, superfície metalizada ou efeito holográfico.

Cartela de azuis e tons escuros mostra a força das cores profundas e dos acabamentos táteis para 2027 | Foto: Assintecal / Divulgação / CP

Brilho, textura e profundidade

A cor de 2027 não vem sozinha. Ela chega acompanhada de brilho, relevo, toque e superfície. Essa característica marcante também apareceu nos materiais apresentados no InspiraMais.

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Na JR Soluções, a coleção Block Essence valoriza geometrias evidentes, contrastes, xadrezes reinterpretados, materiais telados e acabamentos com brilho. A proposta é criar efeitos visuais que explorem profundidade, movimento e sofisticação.

Essa direção também está presente na pesquisa da Cipatex, conduzida pela consultora de moda Amanda Arenhart. Na coleção Soul, voltada ao Inverno 2027, os laminados para calçados, bolsas e acessórios trabalham acabamentos lustrosos e acetinados, texturas acamurçadas, metalizados, vernizes e efeitos sensoriais.

A cor, nesse caso, passa também pelo toque. Não é apenas o que se vê, mas o que o material sugere ao ser percebido de perto. A moda parece interessada em superfícies que convidam ao contato, que mudam com a luz e que criam uma experiência mais tátil.

Tons de verde aparecem em tecidos e tramas da JR Soluções, reforçando a aposta em superfícies coloridas e sensoriais para 2027 | Foto: JR Soluções / Divulgação / CP

Entre neutros orgânicos e tons expressivos

Apesar da volta das cores intensas, 2027 não abandona os neutros. A diferença é que eles aparecem menos como apagamento e mais como base de equilíbrio. Na coleção Soul, da Cipatex, a paleta combina neutros orgânicos, tons terrosos e nuances mais expressivas.

Entre os destaques estão mirtilo, com leitura próxima a um vinho profundo; granizo e grez, que sustentam uma base acinzentada; cascalho, inspirado em elementos naturais; além de louro, orvalho, fresh, nogueira, verdes, azuis e tons mais vivos. Essa combinação mostra que a cor pode trabalhar em camadas. Os tons naturais constroem permanência, conforto e sofisticação. Os intensos entram como energia, expressão e ponto de atenção.

"É uma paleta pensada para diferentes tipos de produto e consumidor: do calçado mais urbano ao acessório vibrante, da bolsa com acabamento marcante ao material de aparência mais orgânica”, completa Amanda.

O lúdico maximalista ganha espaço

Entre os caminhos apontados pela Cipatex, o lúdico maximalista reforça o retorno da cor como expressão. A proposta aposta em imaginação, humor, referências a jogos, objetos, formas inesperadas e combinações menos previsíveis.

Depois de tantas temporadas comportadas, a cor volta a brincar. Não como excesso gratuito, mas como desejo de presença. A moda parece abrir espaço para produtos mais vivos, com personalidade e certa dose de fantasia.

Essa leitura conversa com a coleção da JR Soluções, que também aposta no aspecto lúdico como ferramenta criativa. A ideia é permitir combinações mais livres, sem regras tão rígidas, transformando materiais em pontos de partida para novas narrativas.

Na prática, isso pode aparecer em calçados coloridos, bolsas com contrastes fortes, acessórios de impacto, laminados com brilho, superfícies holográficas, xadrezes mais gráficos e misturas de cores puras com bases escuras.

Cor também é estratégia de produto

Embora a discussão pareça estética, ela também é estratégica. Para a indústria, a cor ajuda a diferenciar produtos, criar desejo e ampliar possibilidades de aplicação em diferentes públicos, como feminino, masculino e infantil.

Elen Rosaboni explica que a pesquisa da JR Soluções parte de referências internacionais, mas é traduzida para as necessidades da indústria brasileira. Isso significa adaptar tendências globais a materiais, acabamentos e produtos que possam chegar ao mercado de forma viável.

*Lisiane Mossmann viajou a São Paulo a convite da Assintecal.