Sustentabilidade começa a mudar a matéria-prima da moda

Do Hub Conexão Criativa à indústria, soluções com fibra de banana, cacau, bactérias e óleo vegetal mostram como a moda começa a rever processos

Folhas de bananeira são matéria-prima de biomaterial vegano
Folhas de bananeira são matéria-prima de biomaterial vegano Foto : Criaeco / Divulgação / CP

Um sapato pode nascer da fibra da bananeira. A cor de um tecido pode vir de bactérias. Um material com aparência de couro pode ser desenvolvido a partir do cacau, do micélio ou da borracha amazônica. Uma etiqueta, detalhe pequeno e muitas vezes invisível para o consumidor, também pode ser repensada com óleo vegetal, TPU no lugar do PVC ou transfer sem solvente na composição.

A sustentabilidade, que por muito tempo apareceu na moda mais como discurso do que como prática, começa a entrar no produto por dentro. Está na matéria-prima, no tingimento, no cabedal, no acabamento, no reaproveitamento de resíduos, na substituição de componentes e na tentativa de reduzir impactos antes mesmo de a peça chegar à vitrine.

Hub Conexão Criativa apresentou sustentabilidade aplicada às materialidades, à tecnologia e à inovação | Foto: Assintecal / Divulgação / CP

Esse movimento ganhou força no Hub Conexão Criativa, curadoria apresentada dentro do InspiraMais, salão de lançamentos de materiais para os setores de calçados, confecção, móveis e bijuterias, realizado nos dias 7 e 8 de julho, no Centro de Eventos Pro Magno, em São Paulo. O catálogo do espaço reúne 31 projetos e soluções em diferentes estágios de desenvolvimento, de pesquisas experimentais a aplicações mais próximas da indústria.

Mais do que uma exposição de materiais curiosos, o Hub funcionou como uma vitrine de possibilidades. Ali, a sustentabilidade não apareceu apenas associada à ideia de “produto verde”, mas a uma discussão mais ampla sobre novas materialidades, economia circular, saberes manuais, acessibilidade, tecnologia e inovação.

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Da banana ao cacau

Na leitura do designer e curador André Barbi, o Hub tem justamente a função de criar pontes entre pesquisa, criação e indústria. Barbi diz que a proposta é aproximar novas soluções da cadeia produtiva, mostrando como materiais ainda pouco usuais podem dialogar com calçados, bolsas, acessórios, vestuário, mobiliário e outros segmentos.

Entre as soluções reunidas no Hub está a Criaeco, marca de Paula Tarrasconi que transforma folhas de bananeira em biomaterial vegano. O processo produtivo alia inovação sustentável, impacto social, valorização de produtores rurais e fortalecimento de cadeias locais. Na prática, uma matéria-prima antes associada ao campo passa a ser testada em produtos de moda, como calçados e bolsas.

A banana também aparece no trabalho do Coletivo BioDesign Unisinos, com biomateriais experimentais desenvolvidos a partir de resíduos orgânicos, como casca de banana, e insumos naturais, como alginato. Nesse caso, as peças funcionam como protótipos e investigam novas possibilidades para uma moda de baixo impacto ambiental.

Outra frente vem da Aiper, startup que desenvolve biopigmentos microbianos a partir de bactérias e resíduos agroindustriais para substituir corantes sintéticos na indústria têxtil. A proposta busca reduzir emissões, poluição hídrica e uso de recursos não renováveis no tingimento.

No calçado, um dos exemplos são os sneakers Duco, do México, com design assinado por Flavia Amadeu e consultoria da Amadeu Materials. Produzidos no Brasil, os tênis usam LaVeg, biomaterial à base de látex, borracha amazônica e materiais reciclados.

Barbi também cita materiais feitos a partir do cacau, do micélio e da borracha amazônica. Outras iniciativas apresentadas no Hub trazem alternativas ao couro animal e aos derivados de petróleo, além de aplicações com couro de peixe, resíduos têxteis, plásticos reaproveitados e fibras naturais.

O interessante, segundo Barbi, é perceber que muitas dessas soluções não surgem prontas para o mercado. Elas começam pequenas, muitas vezes dentro de universidades, laboratórios, ateliês ou iniciativas independentes. Depois, quando se aproximam da indústria, passam a ganhar escala, volume de produção, acesso a maquinário e novas possibilidades de aplicação.

Essa transição é central para entender o momento atual da moda. A inovação sustentável deixa de ser apenas promessa e começa a enfrentar a pergunta mais difícil: como sair do laboratório, do ateliê ou da peça-conceito e entrar em uma cadeia produtiva que exige desempenho, durabilidade, preço e escala?

Quando o resíduo vira matéria-prima

O Hub também mostrou outro caminho importante: o reaproveitamento. Sobras da indústria têxtil, resíduos de couro, plásticos descartados, fibras naturais e materiais que antes poderiam terminar no lixo aparecem ressignificados em bolsas, acessórios, painéis, objetos de design e soluções para arquitetura.

A ideia de circularidade ganha corpo quando o resíduo deixa de ser tratado apenas como descarte e passa a ser visto como insumo. É uma mudança cultural e produtiva. Em vez de produzir, consumir e jogar fora, a indústria começa a olhar para o que já existe e perguntar como aquilo pode voltar ao ciclo com mais valor agregado.

Mesa da Bekka Studio é produzida a partir de do reaproveitamento de plásticos PET e de galões | Foto: Assintecal / Divulgação / CP

Esse movimento aparece em projetos de moda autoral, design social, acessórios, couro de peixe, materiais reciclados e iniciativas que combinam sustentabilidade com geração de renda. Também aparece em soluções voltadas à arquitetura e ao mobiliário, mostrando que a discussão não fica restrita à roupa ou ao calçado.

Na prática, a sustentabilidade começa a exigir uma nova inteligência de produto. Não basta trocar um material por outro. É preciso pensar origem, processo, uso, descarte, durabilidade e possibilidade de reaproveitamento. Bonito no discurso é fácil. Difícil é passar no teste da cadeia inteira.

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A indústria começa a responder

Se no Hub a sustentabilidade aparece como pesquisa, provocação e possibilidade, na indústria ela começa a surgir como resposta a uma demanda concreta. É nesse ponto que entram empresas como a Colorgraf, que apresentou no InspiraMais soluções voltadas aos segmentos calçadista e têxtil com foco em tecnologia, sensorialidade e sustentabilidade.

Segundo Atana Machado, da Colorgraf, a empresa já vem percebendo a pressão dos clientes por produtos mais sustentáveis. Essa demanda aparece no desenvolvimento de materiais como etiquetas de PVC com óleo vegetal, eco transfer sem solvente na composição, uso de TPU em substituição ao PVC e cabedais que exploram tecnologia aplicada ao design.

Na coleção apresentada no salão, a empresa destacou a Etiqueta Peça Técnica em Óleo Vegetal, o Ecotransfer para chinelos, o Cabedal em TPU com Sublimação e a Etiqueta Bolha TPU, entre outros produtos. A proposta é unir efeito visual, textura, relevo, brilho e experiência tátil a soluções que dialoguem com uma cadeia produtiva mais atenta ao impacto dos materiais.

A presença da Colorgraf ajuda a mostrar que a sustentabilidade não está apenas nos projetos mais experimentais. Ela começa a chegar também aos componentes, aos acabamentos e aos detalhes técnicos que formam o produto final. Às vezes, a mudança não está na peça inteira, mas na etiqueta, no transfer, no cabedal, no material substituído ou no solvente que deixa de ser usado.

Esse é um ponto importante porque a moda não muda apenas quando surge uma peça completamente nova. Ela também muda quando processos aparentemente pequenos são revistos. A revolução, nesse caso, pode estar no detalhe. E detalhe, na indústria, nunca é detalhe.

O consumidor começa a ler a etiqueta

Walter Rodrigues, coordenador do Núcleo de Pesquisa e Design da Assintecal, diz que o consumidor começa a desenvolver uma relação mais crítica com o produto, semelhante ao que ocorreu com os alimentos.

Antes, as pessoas compravam sem olhar muito para a composição. Depois, passaram a observar validade, sódio, açúcar, lactose e outros dados do rótulo. Agora, essa lógica começa a chegar à moda. A etiqueta passa a informar não apenas tamanho ou marca, mas origem, material, lugar de produção e, cada vez mais, coerência com o estilo de vida de quem compra.

Trama Afetiva transforma resíduos têxteis, como guarda-chuvas, em roupas | Foto: Assintecal / Divulgação / CP

Essa mudança ajuda a explicar por que sustentabilidade, circularidade e reaproveitamento deixam de ser assuntos periféricos. Eles entram na construção de valor. O consumidor quer saber o que compra, de onde vem, quanto dura e que impacto carrega. A pergunta deixa de ser apenas “isso está na moda?” e passa a ser também “isso faz sentido?”.

Walter já havia apontado que a moda vive um momento de revisão do desejo. O produto precisa justificar sua existência. Não basta ser bonito, ter uma cor forte ou seguir uma tendência. Precisa carregar história, qualidade, função, coerência e algum grau de responsabilidade.

Sustentabilidade precisa ser processo

A superintendente da Assintecal, Silvana Dilly, reforça que sustentabilidade não pode ser tratada apenas como atributo de produto. Para ela, é preciso olhar o processo inteiro. Não adianta um material se apresentar como sustentável se sua produção consumir água, energia ou recursos em excesso.

Essa visão amplia o debate. A sustentabilidade precisa envolver dimensões ambientais, sociais, econômicas, culturais e de gestão. Também precisa ser medida, comunicada com clareza e incorporada à estratégia das empresas.

No contexto do InspiraMais, essa discussão ganha relevância porque a indústria brasileira de materiais tenta vender mais do que componentes. Ela busca entregar tecnologia, design, origem, responsabilidade e valor agregado. O desafio é transformar boas intenções em processos consistentes e produtos capazes de competir no mercado.

A sustentabilidade, portanto, não aparece mais como um enfeite verde colocado no fim da cadeia. Ela começa a entrar no início da criação, na escolha da matéria-prima, no desenvolvimento do material, na relação com fornecedores, no reaproveitamento de resíduos e na resposta às novas exigências dos consumidores e das marcas.

O produto do futuro começa antes da vitrine

O que o Hub Conexão Criativa e empresas como a Colorgraf mostram é que o futuro da moda não será definido apenas por cores, silhuetas ou estilos. Ele passa, cada vez mais, pela pergunta sobre como os produtos são feitos.

A fibra de banana, o cacau, os biopigmentos, o micélio, a borracha amazônica, o óleo vegetal, o TPU e os transfers sem solvente não são apenas novidades curiosas. Eles apontam para uma tentativa de redesenhar a cadeia por dentro.

Muitas dessas soluções ainda precisam ganhar escala, preço competitivo e aplicação mais ampla. Outras já começam a aparecer nos componentes industriais. Entre a pesquisa e o mercado, existe um caminho longo, mas ele já está em movimento.

*A jornalista Lisiane Mossmann viajou a São Paulo a convite da Assintecal