Menos hype, mais essência: as tendências que vão ditar a moda

Tendências de 2027 apresentadas no InspiraMais apontam um consumidor mais atento à essência, à origem e ao valor dos produtos

Materiais apresentados no InspiraMais apontam caminhos para os próximos ciclos da moda, com foco em textura, conforto, cor e identidade
Materiais apresentados no InspiraMais apontam caminhos para os próximos ciclos da moda, com foco em textura, conforto, cor e identidade Foto : Assintecal / Divulgação / CP

A moda que chega às vitrines não nasce mais apenas da escolha de uma cor, de uma silhueta ou de uma estética que viraliza nas redes sociais. Antes de virar desejo de consumo, roupas, calçados, bolsas e acessórios passam por uma pergunta cada vez mais incômoda para a indústria e cada vez mais importante para o consumidor: o que ainda faz um produto merecer ser comprado?

Essa reflexão atravessou o InspiraMais, salão de lançamentos de materiais para os setores de calçados, confecção, móveis e bijuterias, realizado nos dias 7 e 8 de julho, no Centro de Eventos Pro Magno, em São Paulo. Mais do que uma vitrine de insumos, o evento funcionou como termômetro de comportamento e sinalizou uma mudança de rota no mercado: a tendência rápida começa a perder força para atributos como durabilidade, identidade, toque, procedência e valor percebido.

Pesquisa de materiais antecipa tendências que devem chegar ao mercado nos próximos ciclos, do visual outdoor ao lúdico maximalista. | Foto: Assintecal / Divulgação / CP

O luxo, antes sustentado quase exclusivamente pela etiqueta e pela autoridade das grandes marcas, passa por uma crise de legitimidade. Não se trata do fim do desejo, mas de uma reorganização dele. O consumidor segue querendo beleza, novidade e diferenciação, mas começa a perguntar com mais frequência o que existe por trás da peça, da matéria-prima e do preço.

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A roupa também começa a ser “lida” com atenção

Para Walter Rodrigues, coordenador do Núcleo de Pesquisa e Design da Assintecal, o comportamento do consumidor em relação à moda começa a se aproximar do olhar que já existe sobre a alimentação. Assim como muita gente deixou de olhar apenas a validade dos produtos para observar ingredientes, origem e composição, a moda também passa a ser lida com mais atenção.

“Hoje, quando você compra uma bolsa de luxo, o que está pagando? Um couro absolutamente premium, raríssimo e inacreditável, ou matéria-prima, mão de obra e um milhão de marketing?”, provoca Rodrigues.

Ao pegar uma roupa, o consumidor tende a olhar mais para a etiqueta: onde foi feita, de que material é composta, qual marca está por trás, qual lógica de produção sustenta aquela peça. A compra passa a conversar com o modo de vida, os valores e o propósito de quem consome.

Texturas, acabamentos e superfícies ganham protagonismo nas pesquisas de materiais para calçados, acessórios, vestuário e design. | Foto: Assintecal / Divugação / CP

O desejo de compra não desaparece, mas a justificativa para ele precisa ser mais consistente. O novo consumidor quer entender se está investindo em qualidade, história, pesquisa e permanência ou apenas financiando a imagem construída ao redor de uma marca.

Na pesquisa Essência, apresentada no salão, a leitura é de que a moda entra em um período de menos ruído e mais coerência. O apelo visual continua importante, mas já não basta. O produto precisa carregar propósito, materialidade e identidade.

Segundo Rodrigues, esse movimento também deve fortalecer marcas com assinatura própria. Em vez de tentar parecer todas iguais, a tendência é que cada uma aprofunde aquilo que a torna reconhecível. “A Animale vai ser cada vez mais Animale, a Farm vai ser cada vez mais Farm, a Osklen vai ser cada vez mais Osklen”, afirma.

Entre brilho, leveza e novas possibilidades de toque, os materiais traduzem uma moda mais sensorial e conectada ao comportamento | Foto: Assintecal / Divulgação / CP

Leveza, balé e acessórios de impacto entram no radar

Entre as tendências apontadas por Walter Rodrigues, a leveza ganha lugar importante. Ela aparece em transparências, tecidos macios, estruturas maleáveis e materiais que permitem drapeados em roupas, calçados e modelagens. O produto precisa acompanhar movimento, conforto e fluidez.

Ao mesmo tempo, o maximalismo volta a aparecer nos acessórios. Brincos maiores, pulseiras mais marcantes e peças com presença ganham espaço depois de um período em que itens pequenos e discretos dominaram parte do consumo. Para Rodrigues, esse retorno também responde a mudanças de comportamento e à retomada do desejo de expressão visual.

Outro caminho forte é a estética do balé. Ela surge em cetins, detalhes femininos, sapatilhas, amarrações e trançados sobre o pé. A leitura pode ser delicada, com tecidos suaves, ou mais tecnológica, dependendo do material e da construção do produto.

Mais do que apontar uma única cor ou uma peça obrigatória, a Essência indica uma mudança de eixo. A pergunta não é apenas “o que vai estar na moda?”. A pergunta mais importante parece ser outra: o que ainda faz sentido comprar, produzir e desejar?

Cores, relevos, transparências e acabamentos especiais aparecem como apostas para produtos com mais identidade e valor percebido | Foto: Assintecal / Divulgação / CP

Tendência também é negócio

Embora tenha vocação inspiracional, o InspiraMais não trabalha com tendência como abstração. O evento conecta pesquisa, indústria e mercado. A ideia é antecipar o que poderá chegar às lojas em cerca de dois anos, considerando o tempo necessário para que fabricantes comprem materiais, desenvolvam produtos, apresentem coleções ao varejo e façam esses itens chegarem ao consumidor final.

Por isso, a pesquisa observa também movimentos da cultura, do entretenimento e do comportamento. Séries, filmes, personagens e fenômenos pop entram no radar com antecedência. Rodrigues cita o caso da Barbie como exemplo: quando o mundo ficou pink, a cadeia de materiais já havia se preparado antes.

O resultado é uma leitura de moda que atravessa calçados, vestuário, bijuterias, mobiliário e design. No salão, os materiais são organizados para conversar entre si. Um cabedal pode encontrar um aviamento, um solado, uma corrente ou uma textura. A tendência deixa de ser uma ideia solta e passa a ser possibilidade concreta de produto.

Inverno 2027 aposta em conforto e experiência sensorial

A pesquisa Soul, da Cipatex, aponta para uma moda que não quer apenas ser vista. Ela quer ser sentida. A consultora de moda Amanda Arenhart explica que, entre os caminhos destacados, estão os produtos com estética outdoor, inspirados na proteção, na resistência e no desempenho. São materiais pensados para uma rotina urbana imprevisível, em que conforto e funcionalidade deixam de ser atributos secundários e passam a fazer parte da construção do desejo.

O casual esportivo também ganha força, impulsionado por laminados mais flexíveis, elásticos e confortáveis. “A ideia é que o vestir acompanhe o movimento do corpo e o ritmo da vida contemporânea, sem abrir mão do apelo visual”, completa Amanda.

Ao mesmo tempo, a pesquisa indica espaço para o lúdico maximalista, com cores intensas, referências a jogos, humor visual e formas inesperadas. Depois de temporadas dominadas por uma estética mais limpa e silenciosa, a moda volta a ensaiar certo exagero, mas agora com intenção e identidade.

Brilho, cor e autoexpressão

A coleção Soul também mostra que a busca por consciência não elimina o desejo por expressão. Ao lado dos tons orgânicos e terrosos, surgem cores intensas, acabamentos brilhantes e propostas mais lúdicas.

A autoexpressão aposta na imaginação, na brincadeira e na criatividade como formas de presença. Referências a jogos, objetos, construções inesperadas e detalhes marcantes aparecem como contraponto ao minimalismo excessivamente comportado.

O brilho surge em versões acetinadas, lustrosas, metalizadas e holográficas. No ritual luxuoso, a proposta se aproxima de uma sofisticação sensorial, com memória, ancestralidade e intensidade visual. É um luxo mais ligado à experiência e menos dependente da ostentação direta.

A resistência poética, por sua vez, trabalha leveza, esperança e autenticidade. Transparências, volumes suaves e materiais fluidos traduzem um vestir que acolhe, mas também fortalece.

Sustentabilidade deixa de ser discurso

Outro ponto forte do InspiraMais foi a sustentabilidade. O discurso ambiental genérico, muitas vezes usado apenas como argumento de venda, perde espaço diante de um consumidor mais atento e de uma indústria pressionada a comprovar processos.

Nesse cenário, sustentabilidade, circularidade e reaproveitamento deixam de ser temas periféricos. Ainda não são realidade plena em todas as camadas do mercado, mas aparecem como movimentos sem volta. “A gente começou a falar de sustentabilidade. Agora está falando de circularidade, de reaproveitamento”, observa Rodrigues.

Para ele, a consciência sobre a finitude dos recursos do planeta deve influenciar cada vez mais as decisões de marcas e consumidores.

Silvana Dilly, superintendente da Assintecal, destaca que sustentabilidade não pode ser tratada como adereço de comunicação. Ela precisa atravessar a cadeia produtiva, da escolha dos materiais às relações sociais, culturais e ambientais envolvidas na produção.

Nesse contexto, ganha relevância a certificação Origem Sustentável, que avalia empresas em diferentes dimensões e classifica os participantes nos níveis bronze, prata, ouro e diamante. Mais do que um selo, a certificação funciona como tentativa de organizar critérios em um mercado no qual a palavra sustentável já foi usada de forma ampla demais.

Brasil quer exportar mais do que matéria-prima

O salão também reforçou o potencial do Brasil como fornecedor de criatividade, inovação e valor agregado. A presença de 22 grupos de compradores internacionais, vindos de países da América Latina e da Turquia, sinaliza que o mercado brasileiro de materiais pode ocupar um lugar mais estratégico na cadeia global da moda.

A partir da pesquisa e das entrevistas, alguns caminhos aparecem com força para os próximos ciclos: marcas com identidade mais clara, produtos mais atemporais, maior atenção à qualidade, materiais leves, transparências, drapeados, acessórios de impacto, estética do balé, texturas suaves e uma preocupação crescente com origem, durabilidade e reaproveitamento.

*A jornalista Lisiane Mossmann viajou a São Paulo a convite da Assintecal