A tenista Naomi Osaka tem chamado a atenção por suas aparições em quadra antes de jogar as partidas de Grand Slam – os quatro maiores campeonatos de tênis do mundo: Australian Open, Roland Garros, Wimbledon e US Open. Na segunda-feira, durante sua estreia no Torneio de Wimbledon 2026, em Londres, a atleta surgiu em quadra com um vestido semelhante a um quimono.
Feito pela designer japonesa Hana Yagi, o vestido branco de babados e bordados com flores de cerejeira e garças homenageia vestes tradicionais do Japão, país onde Naomi nasceu. Filha de mãe japonesa e pai haitiano, a atleta de 28 anos, que vive nos Estados Unidos desde pequena, anuncia suas origens por onde passa.
Ao jornal britânico The Guardian, Naomi Osaka contou que a tradição do Torneio de Wimbledon a fez refletir sobre sua herança cultural: “Eu penso sobre a mais icônica silhueta que, para mim, é um quimono”, disse a atleta. “Você não precisa ver a cor de um quimono para saber que se trata de um quimono”, observou Naomi.
Tanto o vestido que lembra um quimono quanto as composições que a atleta usou no Australian Open e no Roland Garros deste ano não são aleatórios. No caso do vestido branco usado na segunda-feira, parte do significado é rapidamente perceptível, pois está associado às suas raízes.
A estilista, pesquisadora e educadora de moda afrocentrada da NEIT Escola Andreza Ferreira aponta que a tenista está aprofundando sua relação com a moda ao mesmo tempo que convida novos públicos para acompanharem o esporte. “Acredito muito que Naomi está ainda na pavimentação desse território fashion”, analisa Andreza. “Não vejo como um lugar que ela sempre amou, mas como uma possibilidade de se conectar com um público mais jovem negro e asiático para o tênis.”
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Ao se conectar com novas pessoas, as composições visuais de Naomi são o ponto de partida para chamar a atenção para o que a tenista faz em quadra. A atleta bicampeã do Australia Open e do US Open usa a moda como instrumento de comunicação e construção de sua figura pública.
“A moda é uma ferramenta de conexão muito rápida, direta e democrática. Isso faz com que as pessoas se interessem pelo que estão vendo”, declara Andreza. “Naomi tem feito esse movimento de atrair outros públicos que não são do tênis para o que ela está vestindo e comunicando nas partidas”, afirma a estilista e pesquisadora.
A especialista em comportamento de moda e design e fundadora da PGB Inteligência, Paula Bragagnolo, entende que a moda encontra um terreno fértil no esporte, especialmente devido às gerações mais novas. “A nova geração, muito mais do que times, ama os personagens, as personalidades. E a moda tem usado os atletas como grandes embaixadores, para mostrar seu potencial, tanto de luxo quanto de usabilidade.”
Assinatura de estilo para além das quadras
Por meio das roupas que têm utilizado, Naomi cria uma assinatura de estilo que a diferencia de outros tenistas. A consultora de imagem, analista facial e corporal e professora do Senac Farroupilha Andrea Debiasi de Bastiani explica que o conceito expressa um conjunto de características visuais que promovem o reconhecimento de uma pessoa apenas pelo que se vê, isto é, sem que seja necessário dizer algo.
“Hoje um atleta é muito mais que alguém que compete. Ele também é uma marca”, pontua Andrea. “A Naomi desenvolve uma assinatura de estilo consistente na qual ela amplia o seu reconhecimento para além das quadras. As pessoas passam a lembrar dela não apenas pelas vitórias”, analisa Andrea.
A identidade construída pela atleta é o principal aspecto comunicado pela moda. “Ela transforma a imagem numa ferramenta estratégica de posicionamento. A sua roupa deixa de ser apenas uniforme e passa a comunicar quem ela é, no que acredita e em como deseja ser percebida”, observa a consultora de imagem.
Apesar disso, a assinatura de estilo de Naomi não serve apenas para diferenciá-la de outras pessoas, mas para marcá-la pela mensagem que deseja comunicar. “Quando uma pessoa desenvolve uma assinatura de estilo, ela cria consistência entre quem é e a mensagem que deseja transmitir e a forma como se apresenta ao mundo. É exatamente essa consistência que fortalece a marca pessoal e é o que a Naomi está fazendo”, declara Andrea.
A história contada
Cada composição visual de Naomi Osaka antes das partidas conta uma história. A consultora de imagem Andrea analisa a estética visual apresentada pela tenista na segunda-feira. A composição construída em Londres, batizada de “Evolving Ceremony” (traduzido para “Cerimônia em Evolução”), mostra duas faces da mesma mulher.
A primeira delas é ilustrada por meio do vestido, que evidencia Naomi enquanto mulher, filha da cultura japonesa e portadora de uma história, segundo analisa Andrea. O vestido, inspirado no shiromuku, tradicional quimono de casamento japonês, reaproveitou sete tecidos diferentes de quimonos vintages e um shiromuku em sua confecção.
Já o uniforme que Naomi usou na sequência, na partida em que saiu vitoriosa contra a francesa Elsa Jacquemot, apresenta a tenista como atleta de alto rendimento. “O traje representa ‘o momento anterior à performance’, enquanto o uniforme Nike representa a competidora”, observa a professora.
As duas roupas funcionam como um conjunto em que o uniforme esportivo dá continuidade à história que começou a ser contada pelo traje cerimonial, mostrando a coexistência entre as facetas de mulher e atleta. “Os recortes e as flores em relevo foram inspirados na arte japonesa do kirigami, a técnica de recorte em papel, fazendo com que o traje de entrada e o uniforme esportivo pareçam uma única história contada em dois momentos”, diz Andrea sobre o uniforme da tenista.
Conexão com tendências do mundo fashion
A especialista em comportamento de moda e design Paula revela que as composições de Naomi conversam com tendências do mundo fashion. As principais são a moda performática e o estilo avant-garde.
A moda performática é explicada pela especialista a partir do conceito de metadressing, frequentemente utilizado no cinema. “Os atores vão para os eventos envolvendo divulgação do filme com um figurino muito alinhado ao seu personagem e à temática do filme. Essa pegada mais performática em aparições públicas tem sido muito utilizada em outros mercados também”, compara Paula.
No tênis, a ideia se aproxima disso. “A Naomi tenta trazer essa ideia do vestido performático que vem dos cinemas”, pontua a fundadora da PGB Inteligência. Além das inspirações nos trajes japoneses, a tenista havia comentado que seu look de segunda-feira também bebia de uma referência da cultura popular: a personagem O-Ren Ishii do filme Kill Bill, interpretada pela atriz Lucy Liu.
“A Nike se alinha com essa macro tendência em querer mostrar possibilidade, em como ela pode fazer coisas que também são da moda, são avant-garde”, diz Paula sobre a linha vanguardista que Naomi segue nas composições apresentadas em quadra. “Existe uma linguagem bastante ligada ao universo fashion. Muitas peças dialogam com a alta-costura e com tendências vistas nas passarelas, adaptadas para o contexto esportivo”, completa a consultora de imagem Andrea.
Ao mesmo tempo que as peças se relacionam com tradições, como é o caso do vestido inspirado no shiromuku, as composições visuais de Naomi instigam novos caminhos. A moda performática somada ao estilo avant-garde cria a autoralidade de Naomi.
Nesse movimento, as influências orientais trazem um lado clássico, a partir de composições associadas a vestes tradicionais, e outro moderno, vindo dos jovens japoneses que adotam um estilo experimental. “Ela combina tanto a autoralidade num sentido de tradição quanto num sentido de novidade. Ela mistura esses dois mundos”, avalia Paula.
A especialista em comportamento de moda e design indica que, além da moda performática, a feminilidade é outra tendência evocada nas composições, percebida principalmente pelos brilhos, camadas e babados. A consultora de imagem Andrea concorda: “Eu vejo algumas referências muito claras, como a feminilidade moderna, que hoje não busca delicadeza e fragilidade, mas como potência”.
“Ela mostra que é possível ser extremamente competitiva sem abrir mão de elementos tradicionais associados ao universo feminino”, analisa Andrea. Contudo, as peças de Naomi também desafiam as tendências atuais, especialmente em relação ao esporte.
Ao contrário da maioria dos atletas, que costumam apresentar roupas focadas exclusivamente na alta performance e em seu utilitarismo para a prática esportiva, Naomi segue por outro caminho. “É uma roupa com mais composição, com vários módulos. Isso desafia um pouco essa leitura que é esperada de uma roupa mais sportswear performance. É isso que que faz essa tensão interessante”, reflete Paula.
“Ao mesmo tempo, ela aponta essa tendência futura, desse flerte da moda com o esporte em trazer muito a raiz do jogador através da sua indumentária, trazer mais personalidade, trazer menos como apenas um jogador”, examina a especialista em comportamento de moda e design.
Representatividade negra e asiática
“Ela é uma representante ‘japonegra’ muito jovem num esporte que é branco, rico e bem excludente”, ressalta a estilista Andreza. Quando Naomi conta histórias por meio das peças que veste ao ingressar na quadra de tênis, a moda está ao seu lado, contribuindo para que a atleta se afirme como tenista e mulher negra e japonesa em um espaço majoritariamente ocupado por atletas brancos e europeus.
“A confluência cultural enriquece muito suas narrativas visuais e expande suas possibilidades de vestir, experimentar, sem ser taxada como apropriadora cultural”, observa a estilista e pesquisadora em relação às múltiplas raízes que a atleta carrega e evidencia ao público. A consultora de imagem Andrea concorda.
Para Andrea, o maior objetivo de Naomi é criar um momento especial que transmita identidade e propósito a partir da estética. “Ela está transformando sua entrada em quadra em um ritual. Ela apresenta sua história, sua cultura e suas origens e, depois, revela a atleta”, aponta a consultora.
*Sob supervisão de Lisiane Mossmann
