“Você está muito delulu.” “Esse look ficou slay.” Para quem não acompanha de perto o vocabulário dos adolescentes, algumas conversas podem parecer quase outro idioma. Mas a entrada de palavras estrangeiras, adaptações e novas gírias no cotidiano dos jovens diz mais sobre a sociedade do que uma simples moda passageira.
Termos que nascem ou ganham força nas redes sociais atravessam fronteiras, chegam ao português e, muitas vezes, são transformados pelos próprios falantes. Nesse processo, linguagem, identidade, pertencimento e cultura digital acabam se misturando.
Palavras carregam toda uma cultura
Para Caio Albernaz, especialista em Estratégia Pedagógica Bilíngue da International School, observar essas expressões ajuda a compreender como as novas gerações se relacionam com a língua. Nem sempre um termo estrangeiro é adotado porque falta uma tradução em português. Algumas palavras carregam referências culturais e sentidos que acabam se perdendo quando são traduzidas literalmente.
É o caso de slay. Embora o verbo exista há séculos na língua inglesa, seu uso contemporâneo como elogio foi difundido especialmente pela cultura negra e LGBTQIA+, incluindo a cena ballroom dos Estados Unidos, antes de ganhar enorme circulação nas redes sociais.
“A carga semântica dessas palavras muitas vezes não se traduz plenamente, e as pessoas parecem preferir mantê-las no idioma original, mesmo quando não são bilíngues”, explica Albernaz. Ou seja: conhecer a referência pode ser tão importante quanto conhecer a tradução.
Inglês que vira português
Se os adolescentes incorporam palavras estrangeiras, também tratam de dar a elas uma boa dose de português. Stalkear, trollar, trollei e trollamos são exemplos de palavras de origem inglesa que passaram a obedecer às regras de conjugação do português.
Segundo Albernaz, uma expressão importada pode se transformar em substantivo, adjetivo, verbo ou até assumir outras funções dentro de uma conversa. É um retrato de algo que acontece há séculos: as línguas não permanecem congeladas. Elas mudam conforme seus falantes encontram novos objetos, costumes, tecnologias e maneiras de se relacionar.
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Gírias como senha de pertencimento
Entender uma gíria não significa apenas conhecer seu significado. Muitas vezes, significa reconhecer a referência, o meme, o vídeo, a música ou a comunidade de onde ela veio.
Por isso, determinadas expressões funcionam quase como uma senha cultural. Quem está familiarizado com aquele universo entende rapidamente o que está sendo dito; quem está fora pode ficar completamente perdido. Para Albernaz, esse vocabulário também pode funcionar como marcador de identidade e pertencimento a determinados grupos e comunidades digitais.
Não é propriamente uma novidade adolescente. Diferentes gerações criaram suas próprias gírias. O que mudou é a velocidade: hoje, uma expressão pode surgir em um canto da internet e chegar a milhões de pessoas em poucos dias.
Conhecer gírias não é ser fluente em inglês
Um jovem pode saber exatamente o significado de crush, slay, feedback ou delulu e ainda encontrar dificuldades para manter uma conversa ou escrever um texto em inglês. Isso ocorre porque o contato com palavras isoladas não equivale ao domínio de outro idioma.
“Aprender inglês significa ser capaz de compreender a língua por meio da escuta e da leitura e também de produzi-la por meio da fala e da escrita. Conhecer palavras isoladas não representa, necessariamente, o desenvolvimento de habilidades comunicativas complexas”, afirma Albernaz. Ainda assim, músicas, séries, jogos, vídeos e redes sociais podem funcionar como portas de entrada para despertar curiosidade por outra língua.
Adaptar a linguagem ao contexto
O desafio, portanto, não é declarar guerra às gírias. Até porque essa seria uma batalha com poucas chances de vitória. Mais importante é ampliar o repertório para que os jovens saibam adaptar a linguagem ao contexto. A conversa com amigos permite um vocabulário diferente daquele exigido em uma apresentação escolar, uma entrevista de emprego ou um texto acadêmico.
Para Albernaz, cabe à escola trabalhar tanto as transformações da língua quanto a norma-padrão, mostrando que diferentes situações pedem diferentes níveis de formalidade.
Gírias empobrecem o vocabulário?
A presença de estrangeirismos, sozinha, não significa que os adolescentes estejam falando ou escrevendo pior. Segundo Albernaz, a riqueza do vocabulário está muito mais ligada à variedade e à qualidade dos conteúdos consumidos do que ao uso de palavras vindas do inglês.
“O intercâmbio cultural e linguístico é positivo porque amplia diferentes formas de compreender o mundo. Ainda assim, o empobrecimento de repertório linguístico pode acontecer independentemente da exposição a palavras estrangeiras, já que a riqueza do vocabulário está mais relacionada aos tipos de conteúdo consumidos, seja no TikTok ou em um livro”, enfatiza.
