Elisa Fernandez

Por que “ninguém” está satisfeito com o que vê no espelho?

A colunista Elisa Fernandez mostra como o ato de enxergar a si mesmo em meio à cultura e à indústria gera preocupações excessivas com a autoimagem

Insatisfação com a própria aparência não é um problema novo, afirma Elisa
Insatisfação com a própria aparência não é um problema novo, afirma Elisa Foto : Magnific / Divulgação / CP

Cara leitora,

"No século XV ninguém sabia como era o próprio rosto". Consegue imaginar isso?

Foi com essa citação que o jornalista e apresentador Pedro Andrade abre um vídeo que viralizou nas redes sociais. Fiquei impactada com a informação.

Segundo Pedro, o espelho de vidro plano, esse que a gente conhece, foi inventado em Veneza em 1507. Antes disso, as pessoas se viam em reflexos distorcidos na água, no bronze, no metal polido. Nunca conscientemente, em casa. Durante séculos, ninguém sabia como o mundo te via quando te viam. Sim, e aqui estamos falando de ver mesmo, o ato que registra o que os olhos captam.

Os olhos captam uma imagem. Mas é a nossa atenção que dá significado a ela.

É possível atravessar uma rua e ver dezenas de pessoas sem enxergar nenhuma. Ouvir todas as palavras numa reunião e não enxergar aquilo que ninguém teve coragem de dizer. E isso vale também para nós mesmos.

Às vezes, passamos anos vendo sinais que não queremos enxergar. Um relacionamento que já não faz sentido. Um trabalho que nos consome. Uma amizade que deixou de ser recíproca. Uma versão de nós mesmos que já não cabe na vida que construímos. Mas e quanto à nossa imagem? Aquela com a qual nos deparamos diariamente ao acordar?

Será que depois de tanto tempo se olhando no espelho a humanidade está feliz com o que vê?

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Segundo Pedro, a sensação que permeia o mundo agora é a de que a humanidade nunca esteve tão insatisfeita com o que vê no espelho. Essa insatisfação com a aparência não nasceu das redes sociais, mas a escala, a frequência e a indústria criada em torno dela atingiram níveis extraordinários.

A história mostra que a preocupação com aparência é muito anterior ao Instagram, à fotografia e até ao espelho moderno. O que mudou foi nossa capacidade de comparar, corrigir e comercializar a insatisfação.

Em 2024, o mundo realizou quase 38 milhões de procedimentos estéticos, cirurgias e não cirúrgicos somados. Um crescimento de 42,5% em quatro anos. O Brasil está em segundo lugar no ranking geral, mas lidera o mundo em cirurgias. Os números são gigantescos.

Mas cirurgia plástica não é sinônimo de insatisfação. Aqui está o cuidado conceitual importante: não podemos pegar o número de cirurgias e concluir automaticamente que 38 milhões de pessoas estão infelizes consigo mesmas. Uma cirurgia pode ter inúmeras motivações: reconstrução, envelhecimento, autoestima, pressão social, pós-gestação, características que incomodam desde a adolescência.

Porque o espelho apenas mostra.

A cultura diz o que deveríamos desejar.

A indústria oferece o que podemos mudar.

E nós ficamos no meio dessas três coisas, perguntando se ainda somos suficientemente bonitos, jovens, magros, definidos, simétricos ou desejáveis.

E existe uma ironia quase cruel nisso: quanto mais recursos temos para mudar nossa aparência, mais partes dela parecem precisar de mudança.

O espelho não mostra como você é, ele mostra como você se sente.

Talvez por isso, a pessoa mais atraente em um ambiente não seja necessariamente a pessoa mais bonita. Nós vemos nosso reflexo. Mas será que ainda conseguimos enxergar a pessoa que está diante dele?

Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.