Elisa Fernandez

Quando a vida improvisa…

A colunista Elisa Fernandez mostra como a idade da vida é diferente da idade cronológica a partir do relato sobre uma roda de conversa com leitoras

A lenda das bonequinhas vietnamitas guia a reflexão
A lenda das bonequinhas vietnamitas guia a reflexão Foto : Magnific / Divulgação / CP

Cara leitora,

Eu tinha um roteiro pronto. Ia falar sobre quando a vida sai do roteiro, com exemplos, com uma sequência de raciocínio, com aquele fio condutor que a gente prepara com carinho antes de subir num palco. Só que no primeiro minuto da roda de conversa, percebi que ia repetir ali, de forma engessada, exatamente o que estava tentando dizer. Então decidi sair do roteiro também.

Comprei um pacotinho de bonequinhas vietnamitas para cada uma das mulheres que estavam comigo naquele encontro. A tradição diz que elas devem andar sempre em trio. Uma boneca sozinha representa a solidão. Duas juntas, a confusão. Três, a solução. À noite, quem carrega as bonecas escolhe uma, conta a ela uma aflição, e guarda tudo junto de novo. Acredita-se que elas trabalham enquanto dormimos e que a resposta chega como intuição, ao acordar.

Usei essa provocação para abrir a conversa. Primeiro falei da minha vida, para que elas entendessem de onde vem a matéria-prima de cada coluna que escrevo. Depois fomos para a primeira boneca, a solidão. Cada uma contou como enxerga esse sentimento, se tem medo dele, como convive com ele nos dias de hoje.

Na sequência veio a confusão, e foi aí que a roda esquentou de verdade. Falamos sobre tudo que fomos educadas a planejar. O casamento ideal, a vida perfeita, a sequência de acertos que nos prometeram quando éramos jovens. E sobre como, por mais que a gente se esforce para seguir esse roteiro, a vida real insiste em fugir dele.

Por último, a solução. Como cada uma delas conseguiu, ou tentou, consertar aquela confusão. Como enxergaram uma saída onde parecia não haver nenhuma. Ou se ainda estão procurando.

Foram quase três horas de conversa. Mães de amigos da época do colégio, amigas da minha mãe, mulheres que se tornaram amigas ali mesmo, naquela tarde. Foi meu primeiro convite para conversar com quem me lê, e confesso que fui com um misto de responsabilidade e insegurança.

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A insegurança durou pouco. Porque, apesar de ter menos idade e, em tese, menos tempo de estrada do que muitas delas, percebi algo curioso ao longo da tarde. Talvez eu tenha vivido mais do que muitas daquelas mulheres incríveis. E aí a idade cronológica desiste de mandar.

Existe a idade que está no documento e existe a idade da vida. A primeira conta os anos. A segunda conta as vezes em que a gente caiu e levantou, as vezes em que teve coragem de recomeçar, as vezes em que decidiu não repetir um roteiro só porque ele estava pronto. Duas pessoas podem ter a mesma certidão de nascimento e décadas de diferença na idade da vida vivida.

Recebi muitas mensagens depois daquele encontro. Agradecimentos, elogios, relatos de quem saiu de lá pensando em alguma coisa específica da própria vida. E o que mais me tocou não foi o reconhecimento, foi a troca. Porque ali não existiu quem ensina e quem aprende. Existiram mulheres contando suas verdades, umas para as outras, e cada uma saindo um pouco mais leve.

Essas três palavras não pertenciam só àquela tarde. Solidão, confusão e solução são estações por onde qualquer vida passa, não importa o gênero, a idade ou o roteiro que cada um tentou seguir.

Fica então a pergunta que trago comigo desde aquela tarde: existe alguma forma de medir quanto alguém já viveu que não seja pelos anos escritos no papel?

Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.