Elisa Fernandez

Quando Nietzsche chorou, e eu fiquei pensando...

Elisa Fernandez reflete sobre a importância do tom nas interações e como ele molda nossas convicções, impactando relações pessoais e profissionais

A forma de falar carrega tanto peso quanto o conteúdo, e ignorar isso custa caro, diz Elisa Fernandez
A forma de falar carrega tanto peso quanto o conteúdo, e ignorar isso custa caro, diz Elisa Fernandez Foto : Magnific / Divulgação / CP

Cara leitora

Dia desses li uma frase atribuída a Nietzsche que me pegou de jeito e fiquei refletindo a ponto de trazer aqui para compartilhar com você, leitor (a). "Na maioria das vezes, quando discordamos de alguém, não é por causa do que essa pessoa diz, mas por causa do tom que ela usa." Você já reparou nisso?

Fui pesquisar de onde vinha essa ideia e descobri que está na obra Humano, Demasiado Humano. Fez todo sentido. Como escrevo sobre comportamento, mercado de trabalho e conexões humanas, lembrei na hora de um livro que li lá na década de 90, "Quando Nietzsche Chorou". Um bestseller que imagina sessões de terapia entre o filósofo e o médico vienense Josef Breuer, cada um tentando curar o outro sem admitir isso. E o livro entrega algo curioso, quase irônico, nem o pensador que mais questionou a razão humana escapava das próprias vaidades, dores e paixões escondidas atrás do discurso racional.

Essa é, mais ou menos, a ideia que Nietzsche antecipava décadas antes de a psicologia se consolidar como ciência. Sócrates apostava que somos seres essencialmente racionais, uma ideia que atravessou séculos de filosofia ocidental. Nietzsche desconfiava. Para ele, acreditamos que decidimos com a cabeça fria, mas na prática pesam mais o temperamento, o conforto e a vontade de ter razão do que qualquer análise cuidadosa.

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Isso explica muita coisa do nosso cotidiano, inclusive dentro das empresas. Tendemos a valorizar quem já pensa como a gente e a rejeitar quem nos incomoda, mesmo quando o incômodo vem só da forma como algo foi dito, não do conteúdo em si. Já reparou nisso numa reunião? Uma ideia boa, apresentada com arrogância, é descartada. Uma ideia mediana, entregue com jeito e escuta, é aplaudida. Nietzsche ia além e dizia que opiniões nascem de emoções, e que a falta de reflexão as transforma, com o tempo, em convicções rígidas. Convicções, segundo ele, podem ser mais perigosas do que mentiras, porque criam a ilusão de certeza. E ilusão de certeza é terreno fértil para conflito, seja num casamento, seja numa liderança.

Faz sentido, então, que o tom pese tanto quanto o conteúdo numa conversa. Um comentário duro, mesmo quando tem razão, ativa defesa antes de ativar reflexão. E aí a mensagem se perde, não pelo que foi dito, mas por como foi dito. Vejo isso constantemente no ambiente corporativo, em briefings, em devolutivas de trabalho, em negociações. A informação está certa, o timing está certo, mas a embalagem afasta quem deveria receber. Comunicação boa não é só ter razão, é saber como entregar essa razão sem fechar a porta do outro lado.

Não é sobre concordar sempre, nem sobre suavizar tudo até perder a essência do que precisa ser dito. É sobre reconhecer que a forma carrega tanto peso quanto o conteúdo, e que ignorar isso custa caro, custa relação, custa negócio, custa a chance de sermos ouvidos justamente quando temos algo importante a dizer.

E talvez seja esse o convite que Nietzsche deixa, sem querer dar respostas prontas. Ele coloca o leitor diante de uma pergunta incômoda, e a deixa ecoando.

Assim como a minha pergunta para você. Você já discordou de alguém só pela forma como essa pessoa falou com você? Mesmo sabendo, lá no fundo, que ela estava certa?

Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.