O Rio Fashion Week, que segue até 18 de abril, começa a desenhar uma edição em que a moda aparece menos interessada no efeito imediato e mais voltada à construção de linguagem. O que emerge até agora é um evento atravessado por cidade, memória, artesania e repertório brasileiro, com desfiles como lugar de experiência, narrativa e identidade.
Na Osklen, o ponto de partida é o calçadão de Ipanema, tratado como síntese do Rio de Janeiro. A marca fala em uma passarela real e imaginária entre o preto do asfalto e o branco da areia, onde convivem natureza e metrópole, estéticas híbridas e um high-low sexy, provocativo e despretensioso. A coleção ainda costura tempos diferentes ao conectar o acervo da marca com a próxima proposta de verão, num movimento que junta passado, presente e futuro e também sinaliza a união entre gerações dentro da própria Osklen.
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Essa leitura do Rio como território simbólico também aparece em Angela Brito, mas por outra via. Em Entropia, a cidade surge como excesso cotidiano, feita de luz intensa, calor, cor saturada e história acumulada nas ruas. A coleção parte dessa paisagem para construir uma cartela entre pedra, terra, água e asfalto, e propõe um corpo mais exposto por meio de recortes, como se a cidade se manifestasse diretamente na roupa. O manual entra como estrutura dessa leitura, com madeira descartada, couro trançado, sementes naturais, crochê em palha com tingimento natural e estruturas em arame desenvolvidas com a colaboração de oito artesãos.
Se Osklen e Angela Brito olham para o Rio a partir da rua e da paisagem, a Handred desloca o foco para um campo mais interior. Em Akáshica, André Namitala investiga memória, tempo e identidade a partir da ideia de registros acumulados no consciente e no inconsciente. O resultado, segundo o release, é uma coleção que transforma a roupa em arquivo vivo, com camadas, cores densas, aproximação com o barroco e um diálogo com a ópera materializado em apresentação ao vivo da Companhia de Ópera da Lapa. Bordados, estampas, cerâmicas pintadas à mão e aplicações desenvolvidas com o ateliê SSSopro indicam uma moda que se quer menos superfície e mais construção de sentido.
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Na Apartamento 03, a narrativa ganha uma espessura literária ainda mais evidente. Luiz Cláudio Silva parte de Clarice Lispector, Macabéa e da leitura de Conceição Evaristo para criar uma personagem revisitada, uma Maca que se dá uma festa e transforma invisibilidade em potência. A coleção traz alfaiataria, plissados, camisolas, cetins e rendas em camadas, ao lado de elementos esportivos, numa leitura do Rio como espaço chique e solar. O trabalho manual, feito com moulage, rendas costuradas uma a uma e cestaria de plumagem, reforça um caminho em que delicadeza e resistência caminham juntas.
O que essas coleções sugerem é uma moda brasileira que procura se afirmar por repertório e não por caricatura. O Rio aparece, sim, mas menos como cartão-postal e mais como tensão urbana, energia social, memória, música, contradição e corpo em movimento.
Também chama atenção a força do fazer manual. Em vez de surgir como detalhe decorativo, ele aparece como eixo de linguagem em diferentes marcas, seja no crochê em palha, nas sementes e madeiras de Angela Brito, nas cerâmicas e bordados da Handred, nas rendas e na cestaria de plumagem da Apartamento 03 ou no contraste entre fibras naturais, cristais e tecidos metalizados proposto pela Osklen. Há um fio em comum entre elas: a tentativa de construir roupa com matéria, memória e assinatura.
Até aqui, o Rio Fashion Week indica uma temporada menos interessada em repetir fórmulas e mais empenhada em elaborar uma imagem de Brasil sofisticada, sensorial e múltipla. Um Brasil em que a rua conversa com a literatura, a ópera encontra o artesanato, o arquivo pessoal vira roupa e o verão pode ser tão solar quanto complexo.
