Incluir mulheres maduras no trabalho exige mais que o contrato

Contratadas, mas ainda ignoradas: mulheres 50+ enfrentam etarismo velado e falta de valorização no ambiente de trabalho

A presença de mulheres maduras nas empresas cresce, mas a valorização de suas trajetórias segue como desafio
A presença de mulheres maduras nas empresas cresce, mas a valorização de suas trajetórias segue como desafio Foto : Freepik / Divulgação / CP

“Não adianta convidar para a festa e não chamar para dançar.” A metáfora usada pela psicóloga Michele Klotz da Rosa resume o sentimento de muitas mulheres 50+ no mercado de trabalho: elas até são contratadas, mas seguem invisíveis. No episódio do podcast Fala 50+, Michele e a empresária Carla Carnevali Gomes discutem como a inclusão etária ainda é simbólica em boa parte das empresas — e o que seria preciso para, de fato, transformar essa realidade.

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Michele, que estuda longevidade e carreira sustentável, explica que muitos ambientes se dizem diversos, mas não estão preparados para acolher. “A mulher madura entra, mas ninguém a escuta. Ou, pior, a tratam com condescendência. É como se ela estivesse ali fazendo um favor — quando, na verdade, tem muito a contribuir.”

A experiência de discriminação é mais comum do que se imagina. Segundo a pesquisa Talent Trends 2025, realizada pela Michael Page, 41% dos profissionais brasileiros já sofreram etarismo, e entre os que relatam discriminação no ambiente de trabalho, 60% passaram a se sentir menos satisfeitos, 59% desvalorizados e 52% esgotados emocionalmente.

“Quem não se sente parte do todo, quebra a confiança”, alerta Isabel Pires, gerente da Michael Page, no relatório da pesquisa. A afirmação é corroborada por Michele, que vê isso diariamente. “A exclusão não é só contratual. É relacional. É no olhar que diminui, na sugestão que não é levada em conta, no silêncio depois de uma fala. Isso adoece.”

A empresária Carla Carnevali Gomes concorda. Ela lidera um projeto de inclusão 60+ em sua padaria, e reforça que a equipe precisa ser preparada para acolher, e não apenas para tolerar. “A gente conversou muito com o time. Quem voltava para trabalhar com a gente tinha que ser bem recebido. E o mais bonito foi ver que as funcionárias mais novas passaram a torcer para que as mais velhas dessem certo.”

Inclusão simbólica não garante pertencimento

A crítica de Michele vai além da contratação. “Não adianta aparecer no feed da empresa no Dia da Mulher com um post sobre diversidade se, no dia a dia, a cultura interna é excludente. Incluir não é dar uma vaga. É criar espaços de escuta, respeitar o tempo do outro, valorizar trajetórias diferentes.”

Essa dissonância entre discurso e prática é um dos principais gargalos para a permanência de mulheres maduras no mercado. “A gente ainda confunde ‘incluir’ com ‘tolerar’. E isso é perigoso. Porque cria uma sensação de presença forçada — quando o que a gente quer é pertencimento.”

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Da inclusão performática à inclusão concreta

O futuro, para ambas as entrevistadas, passa por uma mudança cultural profunda — que leve em conta a complexidade do envelhecimento, o valor da experiência e a urgência de novos modelos de trabalho.

“Quando a gente é vista de verdade, a gente entrega mais”, afirma Carla. E Michele completa: “A diversidade etária não pode ser um projeto paralelo. Precisa estar no centro das decisões — e da escuta.”

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