O discurso da produtividade muitas vezes é implacável: é preciso aguentar, dar conta, entregar mais. Mas o que acontece quando o corpo pede pausa ou quando o tempo vivido começa a cobrar coerência entre o trabalho e os valores pessoais? A psicóloga e advogada Michele Klotz da Rosa explica que falar em longevidade no trabalho não pode ser só sobre permanecer empregável.
“É preciso garantir que essa permanência seja saudável. Estamos vivendo mais, sim. Mas com que qualidade? Não adianta chegar aos 50 em burnout ou com o corpo adoecido pela pressão constante”, alerta. Para ela, o trabalho deveria dialogar com as diferentes fases da vida, o que ainda é raro nas empresas. Ela e a empresária Carla Carnevali Gomes refletiram sobre o desafio de sustentar uma carreira ao longo da vida durante o episódio do podcast Fala 50+.
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Essa preocupação se confirma quando se olha para os números. De acordo com o Instituto de Longevidade MAG, o Brasil tem hoje 60,9 milhões de pessoas com 50 anos ou mais, o que representa 27,9% da população. A participação desse grupo cresce, em média, 0,5 ponto percentual ao ano. No mercado de trabalho, 43% estão economicamente ativos, com taxa de desemprego de apenas 3,9%, bem inferior à média nacional. Além disso, o rendimento médio mensal é 10,3% maior que o da população geral, e a massa salarial corresponde a cerca de um quarto do total pago no país.
Para Michele, porém, esse aumento de participação não significa necessariamente mais bem-estar. “Números não contam sozinhos se a vida está ou não saudável para quem trabalha.”
A cobrança que recai sobre as mulheres
Carla acrescenta que a cobrança para continuar produzindo recai com mais peso sobre as mulheres. “A gente aprendeu que precisa se provar o tempo todo. Mesmo depois de décadas de experiência, ainda querem que a gente mostre que é capaz. E isso adoece.” Ela compartilhou que, na própria padaria, já enfrentou momentos em que precisou desacelerar. “Eu me dei esse direito, mas foi um processo. É difícil se permitir parar, ainda mais sendo mulher e empreendedora.”
A psicóloga lembra que muitas mulheres chegam à maturidade exaustas. “Estão há 30 anos acumulando função: casa, filhos, trabalho, cuidados. E aí, quando o corpo fala, ainda ouvem que é frescura, que é coisa da menopausa.” A falta de acolhimento sobre os efeitos físicos e emocionais dessa fase também aparece nos dados. A pesquisa Menopause Experience & Attitudes, da farmacêutica Astellas (2023), aponta que 47% das brasileiras relatam impacto negativo da menopausa no trabalho, incluindo medo de falar sobre o tema e casos de discriminação explícita.
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Escuta e flexibilidade como caminhos
Para Carla, uma carreira sustentável precisa de escuta, de si mesma e das lideranças. “Não dá pra falar em bem-estar se não houver abertura para o diálogo. Se a mulher não pode dizer que está cansada, que está em um momento de mudança, a gente está fingindo que tem inclusão.” Na padaria que lidera, ela criou rotinas mais flexíveis e estímulo ao autocuidado para todas as faixas etárias. “Isso melhora o ambiente, o rendimento e a vida das pessoas.”
Michele reforça que carreira e saúde não devem ser temas opostos. “É possível construir uma jornada que respeite o tempo das coisas. Mas, pra isso, precisamos de coragem para mudar o que nos faz mal e de estrutura ao redor para não carregar tudo sozinhas.”
