O maior levantamento sobre perimenopausa, período também conhecido como climatério ou pré-menopausa, mostra que um terço das participantes acima dos 35 anos não sabe dizer com certeza em que fase reprodutiva se encontra. O estudo contou com a participação de mais de 7.600 mulheres norte-americanas.
Publicado em julho na revista Menopause, da Menopause Society, o artigo “Exploring Prevalence and Drivers of Perimenopause Uncertainty Among US Women: A Mixed-Methods Study” (traduzido para “Explorando a prevalência e os motivos da incerteza sobre a perimenopausa entre mulheres dos Estados Unidos) é o primeiro levantamento a quantificar essa incerteza e mapear suas causas. Os resultados variam de acordo coma a idade e a intensidade de sintomas.
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A incerteza sobre os sintomas da perimenopausa, fase reprodutiva que ocorre entre os 40 e 50 anos de idade da mulher, atinge o pico de 42% entre mulheres de 40 a 44 anos, e chega a 37% entre aquelas com sintomas graves. A confusão de sintomas e a dificuldade em atribuir suas causas respondem por 56% dos relatos, refletindo a dificuldade em distinguir a perimenopausa de outras condições.
Lacunas de conhecimento e busca ativa por informação aparecem em 28% dos casos, e barreiras à confirmação e ao cuidado, incluindo descaso e relutância de profissionais de saúde em reconhecer a fase, em 16%. Mulheres de 35 a 39 anos relatam mais lacunas de conhecimento, enquanto as barreiras de acesso ao cuidado atingem o pico entre 40 e 44 anos.
A ginecologista e pesquisadora Fabiane Berta vê o resultado como uma consequência esperada do que ocorre no consultório. “Mais da metade das mulheres do estudo confunde os sintomas da perimenopausa com outra coisa e isso não me surpreende”, afirma.
“Na prática clínica, a paciente chega falando de insônia, irritabilidade, esquecimento, palpitação, e raramente associa isso à fase reprodutiva em que está. Ela vai de especialista em especialista, tratando cada sintoma isoladamente, até alguém finalmente juntar os pontos e nomear o que está acontecendo”, explica a médica.
Nos Estados Unidos, cerca de 2 milhões de mulheres entram na perimenopausa a cada ano. Elas permanecem nessa fase de transição por um período de 4 a 8 anos.
Sintomas antes da irregularidade menstrual
Dentre os sintomas, ondas de calor são percebidas por uma faixa entre 59% e 65% das mulheres, além de sintomas psicológicos e urogenitais que podem prejudicar o funcionamento diário e reduzir a produtividade no trabalho. A ginecologista Fabiane Berta ressalta que não existem exames laboratoriais para confirmar o estágio da perimenopausa.
“Os sintomas se sobrepõem a quadros como síndrome pré-menstrual, doenças da tireoide e transtornos de saúde mental, o que dificulta o diagnóstico e alimenta a desinformação sobre o tema”, alerta a especialista.
Diante dos resultados, os pesquisadores sugerem mudanças no tratamento clínico. De acordo com eles, é necessário que os médicos estejam mais atentos aos perfis multidimensionais de sintomas da perimenopausa, normalizando alterações cognitivas, emocionais e físicas que podem surgir antes da irregularidade menstrual – sintoma ainda tratado, na prática clínica, como principal indicador da fase.
“Irregularidade menstrual não pode continuar sendo o único sinal que a medicina reconhece. Muitas pacientes chegam ao consultório dizendo que já procuraram ajuda antes e ouviram que estavam novas demais para isso, mesmo com o ciclo ainda regular”, conta Fabiane. “Essa recomendação do estudo é exatamente o que defendemos: escutar o conjunto de sintomas e não esperar a menstruação atrasar para validar o que a paciente está sentindo”, avalia a especialista.
Cenário brasileiro
Enquanto, nos Estados Unidos, a incerteza sobre os sintomas da perimenopausa já foi quantificada, no Brasil, a quantidade de mulheres que estão na perimenopausa ainda é desconhecida. Diante dessa ausência de dados, o movimento MyPausa, liderado pela ginecologista e pesquisadora Fabiane Berta, busca colocar a menopausa e a perimenopausa das brasileiras no centro do debate científico e das políticas públicas.
“Quando falamos de perimenopausa, os estudos internacionais, americanos, europeus, asiáticos, descrevem um certo padrão. Mas quando essa discussão atravessa a fronteira transcontinental e chega ao cenário brasileiro, a perimenopausa aqui tem sotaque, tem CEP. Ela se comporta de acordo com a região onde essa mulher mora, com a cultura e com a etnia dela, porque o Brasil não é um país, é um continente”, destaca a psicóloga e pesquisadora.
O movimento se coloca como o primeiro registro nacional da menopausa e busca mapear todos os estados brasileiros para entender a realidade das brasileiras durante essa fase da vida. De acordo com a pesquisadora, esse estudo dá número a algo que se ouve das pacientes todos os dias: “Elas sentem que alguma coisa mudou, mas não sabem nomear o que é, e muitas vezes são desacreditadas quando procuram ajuda”, explica.
“No consultório, essa confusão já é a regra. O problema é que no Brasil nunca medimos isso, então não temos como dimensionar o tamanho real do problema nem cobrar resposta do sistema de saúde”, afirma a médica. “É exatamente esta lacuna que o MyPausa quer preencher”, diz a especialista.
