Economia Simples

Economia circular propõe repensar formas de produção e consumo

COP30 no Brasil será uma oportunidade para o país mostrar que está pronto para a transformação

Ideia é contribuir cada vez menos para o crescimento dos depósitos de lixo
Ideia é contribuir cada vez menos para o crescimento dos depósitos de lixo Foto : Cleberson Babetzki / Prefeitura de Caxias do Sul / CP

Imagine um fluxo de produção que funciona transformando o que já existe e descartando menos. Esse é o princípio da economia circular, modelo que propõe reutilizar materiais, reduzir desperdícios e repensar processos produtivos. Com a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP30) se aproximando, em novembro, em Belém, no Pará, o Brasil tem uma chance histórica de mostrar que está pronto para essa transformação. O professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Fernando Jorge Corrêa Magalhães Filho, explica que a economia circular propõe uma mudança de paradigma.

“Transcende de um fluxo linear de produção e eventualmente produção de resíduos, para um conceito mais circular, em que aquilo que era resíduo retorna para a cadeia produtiva em vez de descartar no ambiente”, diz. A ideia é contribuir menos para o crescimento daquelas famosas montanhas de lixo, comuns em todo o mundo, seja separando itens recicláveis como plástico e papel, ou consumindo de modo mais consciente de empresas que geram menos resíduo, por exemplo. Segundo o Global Resources Outlook 2024, o uso de recursos naturais triplicou desde 1970, e pode crescer mais 60% até 2060 se nada mudar. Só em 2023, a humanidade usou 106 bilhões de toneladas de materiais — e mais de 90% não foram reaproveitados, segundo o Painel Internacional de Recursos das Nações Unidas.

A mudança para o modo circular tende a trazer benefícios, não só ambientais, mas também socioeconômicos. A estimativa da Organização Internacional do Trabalho (OIT) é que o modelo possa gerar 7 milhões de empregos no mundo, sendo 4,8 milhões só na América Latina e no Caribe. “Neste movimento circular, eu crio novos negócios, novas modelagens. Quem vai transportar esse material que iria para o aterro e agora vai para outra indústria, outra fábrica? Novas expertises, consultores e gente especializada nesses processos que mudam. Então, novas cadeias produtivas são criadas, novos empregos. Isso tem um impacto socioeconômico muito grande”, explica Magalhães.

Na prática

  • No Brasil, alguns sinais já animam. Uma sondagem recente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) revela que 6 em cada 10 indústrias brasileiras adotam práticas circulares. As ações mais comuns são a reciclagem de produtos (33%), o uso de matéria-prima reciclada (30%) e o desenvolvimento de produtos mais duráveis (29%). Além de reduzir impactos ambientais, essas práticas trazem ganhos como redução de custos, inovação e melhoria da imagem corporativa, conforme a entidade.
  • Para a professora do Curso de Engenharia de Produção e Transportes da Ufrgs, Istefani Carísio de Paula, a economia circular nos traz uma reflexão como sociedade. “É a redução e a minimização do impacto que a gente causa no mundo e do reaproveitamento de materiais.”
  • Sobre a responsabilidade empresarial, Magalhães descreve que cada setor tem seus produtos e materiais, com processos específicos, mas todos precisam buscar formas de evitar que resíduos cheguem ao meio ambiente ou demandem tratamento e descarte caro.
  • De qualquer forma, todos os atores têm seu papel nessa virada. A COP30 será uma vitrine para o Brasil e uma oportunidade de avançar e fortalecer cadeias produtivas mais limpas.

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