Carlos Corrêa / Interino
Desde que teve papel essencial na negociação com o atacante Luis Suárez, Paulo Caleffi se credenciou a voos maiores no Grêmio. O que pode acontecer este ano, já que o dirigente lançou a pré-candidatura à presidência do clube. Na sexta-feira passada, Caleffi recebeu a equipe do Correio do Povo e da Rádio Guaíba para uma longa entrevista. Os principais trechos do bate-papo você confere abaixo, dividido por temas.
MOTIVAÇÃO
Minha passagem pelo Grêmio foi curta, mas muito intensa. E ela não foi vinculada somente ao futebol. Sempre que tinha uma demanda associada, ao marketing, do financeiro, da comunicação, eu ia lá. E aí você começa a identificar processos e ver como a engenagem funciona.
Fui absorvendo muita informação nisso. E comecei a identificar que o potencial da marca do clube não é utilizado com toda a força possível. E é por isso que estamos trazendo uma série de executivos altamente renomados no mercado, com grandes trabalhos realizados, para potencializar isso.
NOVAS RECEITAS
Vamos fazer a Grêmio Estúdios, uma produção de conteúdo digital, similar à Cazé TV. E aí estamos falando de monetização, de atração de patrocinadores. Tirando receita de TV e venda de um ativo bom da base, nada faz mais dinheiro do que conteúdo de rede social. E isso é algo que só o associado vai ter acesso: transmissão dos jogos do Grêmio e uma grade fixa de programação.
De saída, os jogos vão ser transmitidos como as jornadas de rádio, sem a imagem do jogo. Mas a nossa ideia é mais adiante negociar com as detentoras dos direitos e dizer, por exemplo, 'se tu tens que me dar 100, me dá 70 e me deixa transmitir no canal do YouTube que eu não concorro com vocês'. Mas essa negociação não afeta o conceito do projeto, até porque a grande questão é a produção de conteúdo.
Tem que ser associado do clube, óbvio que vão ter categorias mais acessíveis. Nós vamos criar o Soy de Grêmio, para o sócio de fora, que vai pagar um valor simbólico, acessar a todos os conteúdos e ter direito a um jogo por mês.
Vamos criar um plano de vantagens onde vai existir um cadastro no qual tu chega no lugar e dá o CPF e já está ali que tu é sócio. O clube vai fazer essas parcerias. Isso no dia-a-dia do sócio. Aí tu vai fazer uma compra, que não precisa ter ligação nenhuma com o Grêmio, basta a loja ser parceira.
Temos um cálculo que se o torcedor gastar R$ 10 por mês vinculados aos nossos parceiros, em um ano se gera uma receita de R$ 600 milhões, são R$ 100 milhões a mais que a receita de 2025.
ARENA
A questão Arena é um negócio que, para todas as partes, chegou ao stress máximo, aquilo que no futebol chamamos de fadiga dos metais. O que pensamos é criar um novo caminho para todas as partes envolvidas no negócio que possibilite que a gestão do estádio venha para o domínio do Grêmio. Porque não é simplesmente comprar.
Faz o que com a gestão, com os encargos trabalhistas? Sabe quantos funcionários têm lá? E aí o Grêmio fica vinculado a isso? Tem o bônus, mas tem o ônus. Se a gestão do estádio fosse exclusiva do clube, o Grêmio tinha quebrado na pandemia ou na enchente.
Queremos levar todas as partes para um empreendimento no Olímpico: uma arena multieventos com prédios corporativos e residenciais. Pode manter parte do Pavilhão do Olímpico, tombá-lo. Ganha índice construtivo, faz um museu do Olímpico, uma área de restaurantes e lojas. É um ponto central de Porto Alegre.
Um empreendimento desses, cauteloso, tem um VGV (Valor Geral de Vendas) superior a R$ 2 bilhões. Com a parte do negócio financeiro que ficaria para o Grêmio, tu resolve a dívida do clube, zera a dívida.
Todo mundo perdeu com esse negócio (problemas relativos à Arena). Ninguém ganhou. Então já que está todo mundo de mão amarrada, vamos encerrar esse negócio jurídico e vamos migrar as partes para que vocês (empresas) possam ver lucro no Olímpico.
MECENAS
Quando estamos como agente político do clube e fazemos uma promessa, a gente mexe com o imaginário e a emoção do outro. Quando tu não tens a absoluta convicção daquilo que está prometendo, tu não deve fazer, porque senão a frustração pode acabar sendo maior do que o encantamento que gerou.
Eu gostaria de ver, em algum momento, o Marcelo (Marques, pré-candidato à presidência do Grêmio) dar uma entrevista explicando o negócio Arena, toda a estrutura, os componentes e dizer: 'a partir de tudo isso aqui resolvido, eu tenho dinheiro para fazer'. Porque a questão não é dinheiro.
Eu tenho um VP (vice-presidente), um VP só que tem o dobro de dinheiro que ele, mas a gente não acredita na figura do mecenas. Mecenas não é gestão, mecenas não é governança. Como esse aporte vai cair na rúbrica contábil do clube? Ele falou que aportaria e o Grêmio devolveria em suaves parcelas. Só que suaves ou grandes parcelas, é endividamente do clube. Será que ele sabe em quanto está o endividamento do clube?
Prometer eu poderia prometer. Se é para chegar lá na frente e for isso, mostrar para o torcedor quem tem mais dinheiro, eu faço, eu tenho autorização para fazer isso desse meu VP, mas eu não quero.
POLÍTICA
Em determinado momento, se chegava nas conversas e perguntavam: 'o que tu vai nos dar de cargo para a gente te apoiar?'. E eu dizia: 'nada'. Agora, quem trabalhar em prol do projeto vai estar sendo visto. E essa pessoa vai ser reconhecida pelo seu trabalho. Meritocracia, é o que eu acredito. Não tem troca de cargos.
Vamos criar comitês vinculados ao Conselho de Administração de áreas específicas do clube, como são as comissões do Conselho Deliberativo, mas para que o trabalho seja vinculado direto ao Conselho de Administração e não perder tempo: marketing, jurídico, financeiro, Arena, consular.
SAF
Sou completamente contrário. A SAF no Brasil não tem nenhum resultado positivo financeiro até hoje. Atlético-MG teve aumento da dívida, Cruzeiro teve aumento, Bahia teve uma operação negativa há 15 dias. O Vasco é surreal.
RELAÇÃO COM A IMPRENSA
A minha contundência na forma de falar vem da minha profissão (advogado) que é algo que estou buscando cuidar a entonação nas entrevistas porque sei que minha contundência assusta às vezes, parece que o cara está brabo. E não é isso. A minha profissão, daqui a pouco, é estar num tribunal em Brasília e eu venho com a fala mansa, mas preciso deixar claro um recorte que é o que define ali o caso. E aí vou vir com uma contundência de voz. Jamais tive problema com vocês (imprensa).
Me expus de maneira demasiada porque acreditava que teria resguardo. Eu sou um torcedor forjado no Olímpico nos anos 1990. Quem estava na frente do (ex-presidente) Fábio Koff tomando chumbo? Cacalo. Aquilo ali era o meu entendimento de dirigente. Ou seja, o problema não pode chegar ao presidente, tem que parar em mim. Por que os problemas acabavam refletindo? Porque eu não sabia que estava sendo cozinhado. Só isso.
DANRLEI
Comecei a conversar com ele lá por outubro de 2023. Cheguei para ele e perguntei se interessava abandonar a política e se tornar um profissional de futebol. Disse que acreditava que ele tem o perfil que o Grêmio precisa nessa situação, uma representatividade.
Se nós formos eleito, ele vai abandonar a política. Até porque é incompatível, o cargo é remunerado, não político. Ele não pode ser deputado federal e ser remunerado no vestiário (como gerente de futebol).
O Danrlei é um cara que tem conhecimento de futebol e a vida pública trouxe um desenvolvimento brutal pessoal dele e disposição. Porque temos um entendimento que não dá para expor a comissão técnica ao desgaste de respostas que não são para eles darem.
Um exemplo bem claro: o Renato (Portaluppi). Caiu para ele uma atribuição que não era dele. Entendo que o treinador tem que conversa com a imprensa sobre futebol: como treinamos, o que fizemos, o que planejamos, o que achamos do adversário. Na parte técnica. Quando a situação vem para o ambiente institucional ou algo que tangencie, tem que ter um referencial profissional que se manifeste. São processos. E se for para outro prisma, aí vem para o ambiente institucional político do clube.
MAICON
O Maicon é um cara que já estava fazendo a transição de carreira dentro do Grêmio em 2021 para isso. Recebeu um convite para essa posição e eu sabia disso há muito tempo. Converso com ele desde julho do ano passado, quando fui para o Rio de Janeiro e acertamos a situação dele.
FELIPÃO
Já me antecipo para dizer que o Felipão não tem nomenclatura. Ele está acima de nome. Não falamos com ele ainda, claro que não. Não vou me utilizar. Para tudo tem momento.
Eu poderia falar: 'e se vier um novo Suárez?'. Mas não é promessa maluca. Não vou largar o nome de um jogador, expor ele aqui para ter voto. Eu respeito a democracia. Se o torcedor analisar e achar que outro projeto é superior, eu respeito isso. Agora, não vou ficar de galhofa e mentindo porque vocês me conhecem.
Eu posso ter sido duro e contundente, mas eu nunca menti. Inclusive quando disse que não tinha aposentadoria (do atacante Suárez) porque eu sabia que não tinha aposentadoria. E aí quiseram me pegar pra Cristo, mas são águas passadas, tudo bem.
CATEGORIAS DE BASE
É preciso passar por uma ampla reformulação. A gente também pretende reativar o futsal tanto para captação de atletas e também porque pode virar esporte olímpico. Se tu tem um esporte olímpico no clube, tu tem lei de incentivo, tem um caminhão de dinheiro. E isso é valorização da marca do clube.
A ideia é revitalizar o Cristal, constroi o ginásio e faz ali um pub, um restaurante, uma marina, para que a empresa tenha um ganho comercial associado ao Grêmio. Nem o time que tem um estádio na beira do lago tem uma área bacana, uma marina para recebe o seu torcedor. Também vamos buscar uma parceria com um clube estrangeiro e direcionada para uma uniformização dos processos.
Todas as categorias das escolinhas, passando pelo CT de Eldorado do Sul vão se reportar ao departamento de futebol profissional para que tenha uma mesma linha de conduta, toda a categoria, todos os gestores para que os processos funcionem melhor.
RIVALIDADE GRE-NAL
Eu entendo que institucionalmente (o Inter) não pode ser o nosso rival. A rivalidade Gre-Nal para mim é legal na semana do Gre-Nal. Fora isso é uma âncora que puxa os dois para baixo.
Nosso rival tem que vestir verde e branco. É uma questão de posicionamento financeiro, de posicionamento de disputa. (Financeiramente) Não rende.
