Por Carolina Paz Comerlatto (Ufrgs)*
“A Feira é, antes de qualquer coisa, um movimento cultural”. É o que diz a escritora, musicista e curadora da Feira do Livro de Porto Alegre, Lilian Rocha. Ela, que se afirma “uma apaixonada por arte”, explica o processo de montagem da programação adulta: “É um trabalho de garimpo”. Desde fevereiro deste ano, a equipe de curadoria vai em busca dos artistas que compõem peças de teatro, apresentações musicais, contação de histórias e outras atividades.
O ator e músico Lipsen participa dessas três modalidades. Em “Érico em Antares", criação do Grupo Cerco que subiu no palco dia 4 de novembro, celebra os 120 anos de Érico Veríssimo, clássico escritor gaúcho. No último domingo da Feira, se destaca na Praça da Alfândega o show que apresenta na Redenção, como Gaiteiro do Brique. “Tudo isso eleva a literatura para além do sentido da palavra no papel”, conta.
Tocar Lady Gaga, Queen e Cazuza no acordeon, como faz o Lipsen, pode parecer inusitado, mas transformar o tradicionalismo pelo desejo de modernidade é, também, a vontade de outros artistas. É o caso do poeta e compositor Luiz Coronel, que foi patrono da Feira em sua 58ª edição, em 2012.
Fábula gaúcha
Protagonista do espetáculo “Luiz Coronel Poeta e Compositor”, o antigo patrono trouxe para o Teatro Carlos Urbim uma consagração à sua poesia, junto a músicos como Sérgio Rojas, Shana Muller e Ernesto Fagundes. Para Coronel, que escreve canções nativistas do estado, o tradicionalismo às vezes se prende em uma “fábula gaúcha”. “Há um outro caminho, o da inventividade”, afirma.
Segundo o poeta, a Feira é uma demonstração de que existe alma porto-alegrense, e ela tem nesse momento uma celebração. A importância de apresentações artísticas é destacada pela coordenadora da programação da Feira, Sandra La Porta: “Se pudéssemos, teríamos mais”. Ela explica que o espaço físico do evento não comporta uma programação musical tão ampla, além de apontar a falta de recursos: “Não tem sido arrecadado o suficiente para que a gente possa ampliar”.
Para a curadora Lilian, o evento é também um ponto de encontro entre amigos, familiares e a cultura local. “É um momento importante por tudo que a cidade passou nos últimos anos”, diz, referindo-se à pandemia da Covid-19 e à enchente de 2024. Ruas que já ficaram vazias e alagadas seguem fazendo a arte circular. Ainda que o foco seja o livro, quem visita a maior feira literária a céu aberto da América Latina pode sempre contar com música para preencher os ouvidos.
A Oficina de Jornalismo - Talentos do Futuro - é uma realização do Correio do Povo com o patrocínio da Corsan. Nossa natureza movimenta o Rio Grande. Apoios Ulbra "É Ultra, é Única, é Ulbra" e CIEE-RS "somos integração, inovação e possibilidades".
*Supervisão Luciamem Winck e Mauren Xavier